Capítulo 7

1848 Palavras
Edmund desviou o olhar para Eleanor por um instante. Foi rápido, quase imperceptível, um acordo silencioso que só os dois sabiam travar. Eleanor assentiu de leve. Edmund suspirou. — Eu nunca fui um pai autoritário — disse, mais calmo. — Você sabe disso. Traga essa menina para conhecermos. Nicholas soltou uma risada curta, nervosa. — Não dá. Ela não sabe quem eu sou. Pra ela, eu sou só um veterinário estrangeiro. — Então está na hora de saber — Edmund respondeu. Eleanor concordou imediatamente. — Traga a moça, filho. Se puder ainda hoje. Não pretendemos ficar muito tempo aqui. Nicholas os encarou, hesitante. — Tá… eu trago. Mas e depois? — perguntou. — Vocês vão assustar ela até ela terminar comigo? Edmund se sentou, claramente exausto daquela conversa. Passou a mão pelo rosto, respirou fundo. — Se eu aprovar essa menina — disse, por fim —, nós vamos voltar para Auren. Todos nós. Vamos marcar uma reunião com Radovan e implorar bom senso. Tentar evitar que ele jogue o reino numa guerra por causa de um acordo rompido. Ele ergueu o olhar para o filho. — Só então vamos decidir o que fazer. Mas saiba disso, Nicholas: eu vou te apoiar até onde for possível. Vou tentar fazer de tudo para que você seja feliz. Eu sempre tentei. Nicholas sorriu, emocionado. — Eu sei. Aproximou-se do pai e o abraçou mais uma vez, apertado, como não fazia havia anos. Depois, abraçou a mãe. — Eu amo vocês — disse. — E… sinto muita falta de vocês. Apesar de tudo. Eleanor acariciou o rosto do filho, os olhos marejados. — Nós também, meu amor. O peso da decisão ainda estava ali. A guerra, o acordo, o nome de Sophie pairando no ar como uma promessa perigosa. Nicholas saiu da sala com passos firmes, mas o peito estava descompassado. Tinha usado o nome de Sophie como escudo. A constatação veio pesada demais para ser ignorada. Ele a puxara para uma conversa que ela nunca escolhera ter, para um jogo que não era dela e tudo para ganhar tempo, para escapar de uma decisão que o sufocava. Ainda assim, quando pensava em voltar para Auren sem vê-la, sem ao menos tentar, o vazio parecia pior. — Eu volto logo — disse, já no hall, enquanto passava a mão pelos cabelos. — Vou buscá-la. Eleanor se aproximou e segurou o rosto do filho entre as mãos por um segundo a mais do que o necessário, como se quisesse memorizá-lo outra vez. — Não a assuste — pediu, em voz baixa. — Seja honesto. Seja… você. Edmund apenas assentiu, sério. — E volte, Nicholas — completou. — Não nos faça esperar demais. Ele sorriu de lado, aquele sorriso que sempre denunciava quando estava nervoso. — Prometo. Saiu antes que pudesse pensar demais. Do lado de fora, recusou o carro oficial sem cerimônia. Não queria brasões, nem motoristas treinados, nem a sensação de estar sendo observado. Chamou um carro de aplicativo no próprio celular, parado ali mesmo na calçada de uma das casas mais impressionantes que já tinha visto no Rio e riu sozinho, breve, incrédulo com o contraste. Luxo demais para uma conversa que podia implodir a sua vida inteira. Assim que entrou no carro e informou o destino — o consultório —, puxou o celular outra vez. O nome dela estava ali, simples, cotidiano, quase seguro demais para o que vinha a seguir. Sophie atendeu no segundo toque. — Oi, Nick! — a voz veio leve, bem-humorada. — Eu já estava esperando sua ligação… mas achei que fosse só à noite. Ele piscou, confuso. — Esperando… como assim? Ela riu do outro lado da linha. — Ué. Você saiu da clínica dizendo que ia me ligar pra confirmar se a gente abre amanhã ou não. Lembra? Nicholas soltou uma risada baixa, sincera, passando a mão pelo rosto. — Nossa… — murmurou. — Isso é engraçado agora? — ela provocou. — É — respondeu, ainda rindo. — Porque depois disso já aconteceram tantas coisas que isso parece… bobo. Houve um pequeno silêncio. Sophie percebeu. Sempre percebia. — Nick… — o tom dela mudou, mais atento. — Aconteceu alguma coisa? Ele respirou fundo. — Aconteceu. E eu… queria conversar com você pessoalmente. Pode me encontrar? Do outro lado da linha, ela ficou em silêncio por um segundo a mais do que o normal. — Tá — respondeu, cautelosa. — Mas… deixa eu adivinhar. Se você vai me demitir, eu entendo. Não precisa de toda essa cerimônia. — O quê? — ele riu de novo, surpreso. — Não, Sophie. Não é sobre demissão. — Não? — ela pareceu genuinamente confusa. — É que, sei lá… você fechou a clínica do nada, saiu com aquele homem estranho, parecia tudo meio definitivo. Não teria como fechar o consultório e eu continuar empregada, né? — Não é isso — repetiu, agora mais sério. — Eu só… preciso falar com você. De verdade. Ela suspirou. — Tá bom. — Houve uma pausa curta. — Onde? Nicholas olhou pela janela do carro, a cidade passando rápido demais. — Precisa ser um lugar reservado — disse. — É uma conversa séria. Ela soltou uma risadinha nervosa. — Nossa, eu tô sentindo a seriedade daqui. — Pensou por um instante. — Bom… eu moro sozinha. Se você quiser, pode passar aqui. O coração dele deu um solavanco inesperado. — Pode ser — respondeu. — Me manda o endereço, por favor. Escrito. — Te mando agora. A mensagem chegou segundos depois. Nicholas copiou o endereço, alterou a rota no app e avisou ao motorista. O carro fez uma curva suave e seguiu em frente. Ele recostou a cabeça no banco, fechando os olhos por um instante. Era isso. Ia pedir àquela mulher algo completamente insano. Algo que poderia fazê-la rir, se ofender, se afastar para sempre. Algo que, se ela dissesse não, o deixaria sem absolutamente nada para oferecer aos pais além de silêncio. Ou pior. Talvez ela dissesse não simplesmente porque… não gostava dele o suficiente nem para fingir. O pensamento o atravessou de um jeito estranho, quase físico. Nicholas abriu os olhos, encarando o reflexo no vidro da janela. Ele estava com medo. Não do rei. Não da guerra. Não do trono. Mas da possibilidade de Sophie dizer não. Não sabia se aquilo que sentia era amor, a palavra ainda parecia grande demais, definitiva demais para algo que nunca fora dito em voz alta. Mas sabia, com uma clareza quase dolorosa, que não suportaria perdê-la sem nunca ter tido a chance sequer de tocá-la. E isso, mais do que qualquer coroa ou promessa antiga, o pegou completamente de surpresa. Nicholas desceu do carro diante do portão simples e respirou fundo. A casa de Sophie era pequena, discreta, tão comum quanto a sua. Nada de muros altos, nada de jardins planejados, nada de vigilância. Apenas um portão baixo, uma fachada modesta e luz acesa na sala. Aquilo o acalmou um pouco. Tocou a campainha. Ela apareceu quase imediatamente, como se já estivesse esperando atrás da porta. Cabelos soltos, caindo pelos ombros, uma regatinha simples e um shortinho jeans curto, chinelo nos pés. Nada de postura profissional, nada de uniforme, nada de recepcionista organizada da clínica. Sophie estava… à vontade. Sem o balcão entre eles. Sem a postura profissional que sempre os mantivera em territórios seguros. E, naquele instante, Nicholas teve a certeza incômoda de que nunca deveria tê-la trazido até ali. Porque agora não havia mais como fingir que ela era apenas parte da rotina. — Olá, doutor — disse ela, abrindo o portão com um sorriso aberto. — Vem, pode entrar. A casa é simples, mas eu juro que é limpinha. Nicholas riu, um riso fácil que escapou antes mesmo que pudesse controlar. — Você se surpreenderia com a minha — respondeu, entrando. Ela ergueu uma sobrancelha, curiosa. — Duvido. Fechou o portão atrás dele e o conduziu para dentro. A sala era pequena, aconchegante, com móveis simples, um sofá gasto, uma estante improvisada com livros e algumas plantas espalhadas. A televisão estava ligada baixinho, passando um noticiário que nenhum dos dois realmente acompanhava. — Quer beber alguma coisa? Água, suco… — ofereceu ela. — Não, tá tudo bem — respondeu rápido demais. — Obrigado. — Então senta. Ela se acomodou em um dos sofás. Nicholas sentou-se no outro, de frente para ela, mantendo uma distância respeitosa que agora parecia grande demais. Sophie cruzou as pernas e apoiou o braço no encosto. — Certo — disse, direta. — O que é mais importante do que a minha demissão e o fechamento da clínica? Ele engoliu em seco. O anel girava em seu dedo quase sem que percebesse. Uma volta. Duas. Três. Ele não conseguia encará-la. A televisão continuava falando sozinha ao fundo, uma âncora comentando sobre a visita do rei estrangeiro ao Brasil. Sophie inclinou um pouco a cabeça, observando-o melhor. — Nossa… — murmurou. — Você parece em pânico, Nicholas. Não precisa disso. A gente tem uma relação boa, apesar de patrão e funcionária. Você pode me contar o que tem de errado. Ele respirou fundo. Uma vez. Duas. — A história começa antes de eu chegar aqui, Sophie. Ela o olhou com interesse genuíno. — Você veio até aqui pra me contar de onde você é? — perguntou, rindo de leve. — Não tô entendendo nada. Você nunca quis falar sobre isso. — Não era o momento — respondeu. — Agora… precisa ser. Ela ficou séria, atenta. — Ok. Então diga. Sem medo. — inclinou-se um pouco para frente. — De que país você vem? Nicholas se levantou. Começou a andar pela sala pequena, de um lado para o outro, passando a mão pelos cabelos. — País, não — corrigiu, a voz hesitante. — Reino. Ela franziu a testa. — Reino? O nome começou a se formar em sua cabeça. — Eu venho do reino de Auren. Antes que pudesse continuar, Nicholas sentiu o peso do que estava prestes a fazer. Depois daquela frase, ela nunca mais o veria como antes. Sophie piscou.. — Auren… — repetiu devagar. — Esse nome não é estranho… O coração dele acelerou. — Não é — disse, encorajado. — Você viu meu pai na televisão. Ela levou meio segundo para entender. Então ficou de pé num pulo. — Você tá falando do rei que chegou ontem?! — a voz subiu, incrédula. Nicholas engoliu em seco. — Sim. Estou. Ela riu. Riu alto, desacreditada, passando a mão pelo rosto. — Nick, você tá me dizendo que é um príncipe? — balançou a cabeça. — Fala sério. Eu te conheço há quase dois anos. Você não é um príncipe. Ele negou lentamente. — Sou. Ela ainda ria. — Tá bom. E quem é que tá filmando isso? — olhou em volta da sala. — Porque isso só pode ser pegadinha. Nicholas respirou fundo mais uma vez. — Não é. A voz saiu firme, apesar do tremor interno. — Eu sou Vossa Alteza Real, o príncipe Nicholas de Auren. Primeiro na linha de sucessão. O herdeiro do trono. O riso morreu. Sophie ficou imóvel.
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