Capítulo 6

1934 Palavras
O motorista parou o carro alguns metros antes do portão de ferro trabalhado. O motor ainda estava ligado, o ar-condicionado soprando fraco contra o calor insistente do Rio de Janeiro. Ele passou a mão pelo rosto, sentindo a pele levemente úmida, e encarou a fachada à sua frente. — Isso é ridículo — murmurou, soltando uma risada curta. A casa era impressionante. Não apenas grande, era solene. Colunas claras, janelas altas, um jardim perfeitamente aparado que parecia ter sido preparado dias antes da chegada do rei. Tudo ali gritava poder, tradição… e exatamente tudo o que Nicholas vinha evitando há sete anos. — A casa foi cedida pelo governador — comentou Alistair, no banco do passageiro, com aquele tom neutro que nunca denunciava julgamento. — Consideraram mais discreto do que um hotel. Nicholas inclinou a cabeça para o lado, ainda rindo. — Discreto. Claro. — Olhou de novo. — O noticiário falou em “pequena comitiva”. Se isso é pequeno, eu não quero nem imaginar o que eles chamam de exagero. Alistair não respondeu. O motorista desligou o carro e Nicholas respirou fundo e desceu. Vestia uma camisa clara de algodão, simples, já um pouco amassada. Assim que passaram pelo portão, os gestos começaram. Cabeças se inclinando. Posturas se endireitando. Silêncios respeitosos. — Alteza — diziam, um após o outro. Nicholas respondia automaticamente: um leve aceno, um sorriso educado, o corpo assumindo um papel que ele conhecia melhor do que gostaria. Aquilo era irritante. Não importava quanto tempo passasse, bastava atravessar aquele tipo de espaço para que o príncipe surgisse antes mesmo que ele percebesse. — Eles vieram todos — murmurou, enquanto caminhavam. — Absolutamente todos. — Havia receio de que o senhor… mudasse de ideia — respondeu Alistair com suavidade. — Como se eu tivesse espaço para mudar de ideia. — Nicholas retrucou. Foram conduzidos por corredores amplos até uma sala mais reservada. Antes mesmo de entrarem, Nicholas ouviu vozes conhecidas. — Edmund, deixa eu arrumar. — Eleanor, eu já disse que está bom. — Não está. Essa dobra aqui… Nicholas parou à porta, cruzou os braços e abriu um sorriso largo, quase incrédulo. — Pelo visto, vocês continuam exatamente iguaizinhos. Os dois se viraram ao mesmo tempo, como se tivessem sido pegos de surpresa. — Nicholas! — Eleanor levou a mão ao peito. Alistair deu um passo à frente, inclinando-se numa reverência impecável. — Majestade. Majestade. — Obrigado, Alistair — disse Edmund, recuperando-se rápido. Depois olhou para o filho, com um meio sorriso carregado de ironia. — Diga-me… precisou amarrá-lo e amordaçá-lo para trazê-lo até aqui? Eleanor soltou uma risadinha involuntária antes de se aproximar do filho e envolvê-lo num abraço apertado. — Meu menino… — Não foi preciso me amarrar — Nicholas respondeu, rindo, enquanto retribuía o abraço. — Fiquei com pena do Alistair quando chegasse aqui sem mim. O pobre coitado não merecia ouvir tudo o que o senhor diria. Edmund riu de verdade e se aproximou também, puxando o filho para um abraço firme, rápido. — É bom ver você. O tom durou pouco. — Alistair — chamou o rei em seguida —, pode nos deixar. E feche a porta, por favor. — Claro, Majestade. O assessor lançou um último olhar discreto para Nicholas antes de sair. A porta se fechou, e o silêncio se instalou como uma presença física. Edmund encarou o filho com seriedade. — Quem diria que eu precisaria cruzar um oceano para conseguir te ver, não é, meu filho? Nicholas passou a mão pelo cabelo, soltando o ar devagar. — Nem precisava disso tudo, pai. Era só me ligar por vídeo. O deboche estava ali, contido, mas evidente. Eleanor percebeu. — Como você está? — perguntou ela, mudando de assunto. — Está comendo direito? Dormindo bem? Céus, Nicholas… olha o seu rosto. Parece que tem dias que você não dorme. — Mãe, fica tranquila — ele respondeu, sorrindo. — Eu só não dormi bem essa noite porque fiquei imaginando a hora em que guardas iam invadir a minha casa e me tirar da cama à força. Edmund riu, curto, mas não comentou. O silêncio seguinte denunciava que a ideia não lhe parecera absurda. — Mas eu estou bem — Nicholas continuou. — Eu gosto da minha vida aqui. Foi então que Edmund mudou. Nicholas reconheceu o instante exato em que o pai deixou de ser apenas pai… e se tornou rei. — Você gosta — disse Edmund, a voz firme. — Mas a sua vida aqui precisa acabar, Nicholas. Você precisa voltar para casa. O suspiro veio pesado. — Eu não quero voltar. — Não se trata do que você quer. — Eu não gosto de ser Sua Alteza Real — Nicholas rebateu. — Eu gosto de ser o Nicholas. Só Nicholas. — Você não tem essa opção — Edmund respondeu sem hesitar. — Eu deixei você vir com a promessa de que voltaria quando eu o chamasse. Preciso que honre o acordo que fiz com o rei Radovan III, de Karsevia. O nome caiu como uma lâmina. — Katarina está conosco desde os quinze anos — continuou o rei. — E ainda não foi desposada. O pai dela começou a fazer ameaças veladas, e ninguém quer voltar aos tempos de guerra porque você resolveu desaparecer. — Eu não gosto dela, pai. — Você nunca tentou gostar — Edmund rebateu. — A menina m*l chegou a Auren e você fugiu para cá. Precisa conviver. Eleanor suspirou. — Ela é bonita, inteligente, se importa com o povo — disse com cuidado. — Será uma boa rainha. Fala bem o nosso idioma, o povo a aprova, Nicholas. — Mas eu não — ele respondeu, firme. — Esse casamento me foi imposto quando eu tinha três anos. Eu m*l falava e já tinha uma noiva. Já tinha a responsabilidade da paz. Eu nunca disse que sim. Edmund endireitou o corpo. — Você não precisa dizer que sim. Eu disse por você. E a minha palavra é a que conta. — Não é assim. — É assim, sim — a voz do rei endureceu. — Eu formalizei esse acordo para acabar com uma guerra que matou a minha irmã, o meu cunhado, centenas de civis e milhares de soldados. E o seu sacrifício é desposar uma mulher bonita, educada e inteligente. Nossa… como é sofrido esse rapaz. Nicholas apertou os dentes. — O senhor não tem direito de debochar. Eu quero me casar com alguém que eu ame. Eu não quero um casamento decidido por outra pessoa. O silêncio pesou. — Vocês têm o casamento que eu quero ter — Nicholas continuou, a voz carregada. — Vocês se amam. Vocês são amigos. Ninguém decidiu a vida de vocês na primeira infância. Edmund suspirou, cansado. — Eu entendo você. Mas o amor, às vezes, vem da convivência. Você precisa ao menos dar uma chance para Katarina. Nicholas respirou fundo. Quando falou de novo, havia desespero puro na voz: — Eu não posso dar chance alguma para Katarina. — Ele ergueu os olhos, encarando o pai. — Eu amo outra mulher. O silêncio que se seguiu pareceu se estender além do aceitável. Nicholas sentiu o próprio coração acelerar, não pelo que sentia, mas pelo que acabara de dizer. As palavras ainda ecoavam na sala, grandes demais, definitivas demais para algo que ele jamais organizara dentro de si. Eu amo. Não. Não daquele jeito. A frase escapara no desespero, moldada para ferir onde precisava, para interromper um caminho que se fechava rápido demais. Ele sabia disso. Tinha consciência exata de que exagerara em voz alta. Amor era grande demais. Irreversível demais. E ele nunca fora bom com coisas irreversíveis. Edmund foi o primeiro a se mover. Franziu o cenho, incrédulo, como se tivesse ouvido algo fora de lugar. — Como assim você ama outra mulher? — perguntou, devagar. — Que mulher, Nicholas? Nicholas abriu a boca… e fechou. Por um segundo, percebeu com clareza absoluta que tinha acabado de inventar uma mentira grande demais para ser desfeita com facilidade. O coração batia forte no peito. Ele desviou o olhar, buscando tempo, buscando palavras que ainda não existiam. Eleanor foi quem suavizou o momento. — Filho… — disse com delicadeza. — Fala pra gente. Quem é essa mulher? Nicholas respirou fundo. Porque, embora não tivesse certeza se aquilo era amor, tinha certeza absoluta de uma coisa: não suportaria perdê-la. — É… — começou, escolhendo cada sílaba — é uma mulher que trabalha comigo. Edmund arqueou uma sobrancelha. — E ela tem nome? — Tem. — Nicholas ergueu o olhar, já decidido a seguir até o fim. — Sophie. O nome saiu fácil demais. Fácil como tudo que era perigoso. — Eu me apaixonei — continuou, agora com mais firmeza, ainda que soubesse que aquela parte também não era inteira verdade. — Nós namoramos. E pra ela eu sou só o Nicholas. Ou Nick. Mentira. Ele sabia. Mas era uma mentira construída sobre algo real demais para ser ignorado. — É isso que eu quero — completou. — Eu não quero governar Auren ao lado da Katarina. Eu… — hesitou por uma fração mínima — eu amo a Sophie. Dessa vez, disse com convicção suficiente para convencer quem precisava ser convencido. Tanta convicção que, por um instante desconfortável, ele mesmo quase acreditou completamente, não como verdade estabelecida, mas como possibilidade. A imagem dela veio sem ser convidada: o sorriso leve, o jeito atento, a forma como falava com os animais, como ria dele sem cerimônia, como o chamava pelo nome como se aquilo fosse natural. Eu nem sequer a beijei, pensou, com um aperto inesperado no peito. Nunca tive coragem. E ainda assim, a ideia de atravessar salões ao lado de Katarina, de construir uma vida inteira sabendo que Sophie seguiria a dela sem nunca saber o que ele sentira… era insuportável. Talvez não fosse amor. Mas também não era pouco. E, naquele momento, era tudo o que ele tinha para impedir que o empurrassem de volta para uma vida que agora parecia impossível. Nicholas piscou, forçando-se a voltar à sala, ao peso do olhar do pai. Edmund o encarava fixamente. — E você pretende o quê, exatamente? — perguntou. — Se casar com uma brasileira e governar Auren com ela? Isso é impossível. O povo jamais a aceitaria. — Eu não quero governar nada — Nicholas rebateu. — Eu não quero o trono. — Isso não está aberto à discussão — Edmund respondeu, seco. — Você é o príncipe herdeiro, Nicholas. Você será rei quando eu não estiver mais aqui. A paz com Radovan vai ser sua responsabilidade. A guerra vai ser sua responsabilidade. Você vai ser o rei. Nicholas abaixou o olhar. Porque ali, naquele ponto, já não era só sobre política. Era sobre ter permitido que alguém ocupasse um espaço que ele jurara manter vazio. — Eu não vou conseguir ficar longe dela — disse, por fim, a voz mais baixa. — O senhor conseguiria largar a minha mãe por outra? Edmund respirou fundo. — Isso me partiria o coração — admitiu. — Mas se fosse o meu dever como rei, eu teria feito. Pessoas como nós não podem achar que podem fazer o que quiserem, Nicholas. Nossa vida é feita de regras, de renúncias, de sacrifícios pelo nosso povo. Nicholas manteve o olhar baixo. Quando falou de novo, as palavras saíram mais sinceras do que ele mesmo esperava, não porque fossem verdade absoluta, mas porque carregavam tudo o que ele ainda não sabia nomear. — Só que eu não consigo aceitar perder a Sophie, Majestade. E isso, ele sabia, já era verdade demais para ser desdita.
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