Capítulo 5

1681 Palavras
O sino da porta soou antes do horário da primeira consulta. Sophie ergueu os olhos automaticamente, ajeitando o sorriso profissional no rosto. O homem que entrou não parecia perdido, parecia deslocado. Não usava terno, nem roupas comuns àquela parte da cidade. A vestimenta era formal de um jeito antigo, bem cortada, sóbria, com tecidos mais pesados e um caimento que não se via ali. Nada extravagante, mas tudo cuidadosamente escolhido. Até a postura denunciava que ele não estava acostumado a pedir licença. Ele caminhou até o balcão com passos medidos. — Bom dia — disse, num português correto, porém carregado por um sotaque estranho, firme demais. — Gostaria de falar com o doutor Nicholas. Sophie piscou uma vez. Sorriu, educada. — Bom dia. Claro. — inclinou levemente a cabeça. — Qual animal precisa de atendimento? Dependendo do caso, consigo encaixar um horário ainda hoje. O homem franziu o cenho, claramente tentando entender. — Animal...? — repetiu, como se a palavra não fizesse sentido naquele contexto. Ela manteve o sorriso, embora o estranhamento começasse a crescer. — Sim. — apontou discretamente para uma das gaiolas vazias. — O doutor atende cães, gatos... animais de pequeno porte. O senhor pode me dizer qual é o caso? O emissário demorou um segundo a responder. Os olhos dele vagaram pelo espaço, o consultório simples, os diplomas na parede, o cheiro de café, como se estivesse em território completamente inesperado. — Eu... — começou, escolhendo as palavras — preciso falar com o doutor Nicholas pessoalmente, agora. O sotaque, naquele momento, chamou ainda mais a atenção de Sophie. Era parecido com o de Nicholas... mas mais fechado, mais antigo. Como um eco distante. — Certo — respondeu ela, já um pouco confusa. — Ele está no consultório. Se quiser aguardar um instante... Antes que terminasse a frase, a porta interna se abriu. — Sophie, assim que a paciente chegar pode deixar entrar, eu já estou pronto — disse Nicholas, saindo com a prancheta na mão. A frase morreu no ar. Ele parou. O corpo inteiro enrijeceu no mesmo segundo em que seus olhos encontraram os do homem à frente do balcão. O mundo pareceu encolher. O emissário levou apenas um instante para reconhecer quem estava diante dele. Sete anos não apagavam o porte, o rosto, o olhar que ele vira crescer dentro de muros de pedra. Ele deu um passo para trás. Inclinou a cabeça em uma reverência contida, respeitosa e não exagerada, mas inconfundível para quem sabia o que significava. — Vossa Alteza. A palavra ecoou no consultório pequeno como algo proibido. Nicholas ficou paralisado. Não era surpresa. Ele soubera, desde a noite anterior, que aquilo aconteceria. Mesmo assim, o som daquela forma de tratamento esquecida, enterrada, evitada por sete anos, atravessou-o como um golpe direto. A prancheta escorregou levemente em sua mão. Sophie olhou de um para o outro. Depois para o homem. Depois para Nicholas outra vez. O emissário permaneceu imóvel, a cabeça ainda levemente baixa, os olhos respeitosamente erguidos apenas o suficiente para encarar o príncipe que não deveria estar ali. — Vossa Alteza... posso falar com o senhor a sós? Nicholas respirou fundo uma única vez. Não houve surpresa no pedido, apenas a confirmação do inevitável. Ele assentiu devagar e, sem olhar para Sophie, fez um gesto discreto com a mão. — Claro. Por aqui. Atravessou o pequeno corredor e entrou na sala de atendimento, aquela que até poucos minutos antes era apenas o espaço onde ele examinava animais, receitava medicamentos e tentava fingir que era só mais um homem comum. Fechou a porta atrás de si com cuidado. Ali dentro, longe dos olhos curiosos, a tensão se dissolveu um pouco. Nicholas se virou e, pela primeira vez desde que o vira, sorriu de verdade. — Quanto tempo, Alistair. O homem à sua frente era alto, tinha postura impecável, traços marcados pelo tempo, mas ainda firmes, ele inclinou levemente a cabeça, em uma reverência contida, quase automática outra vez. — Quanto tempo, Alteza — respondeu, com um sorriso discreto. Nicholas soltou uma risada curta, passando a mão pelos cabelos. — Você não precisa dessa formalidade toda comigo. Achei que a gente já tinha passado dessa fase há uns bons anos. Alistair sorriu de volta, mas havia algo cauteloso em seu olhar. — Bem... são sete anos, meu príncipe. Depois de tanto tempo, confesso que já não sei exatamente o que esperar do senhor. — Vai se decepcionar se estiver esperando alguém diferente — Nicholas respondeu, apoiando-se de leve na bancada. — Continuo sendo a mesma pessoa. Talvez um pouco mais simples agora... aprendi a fazer meu próprio café. Queimar torrada também conta como evolução, imagino. Alistair deixou escapar uma risada baixa, sincera. — É bom vê-lo bem — disse, com suavidade. — Depois de todos esses anos. Por um instante, foi quase como antes. Como se aquele consultório simples não fosse o cenário mais improvável possível para aquele reencontro. Mas Alistair logo recompôs a postura, o semblante voltando à seriedade treinada de décadas a serviço da coroa. — Venho em nome de Sua Majestade — anunciou. — O rei deseja vê-lo. Nicholas suspirou, lento, passando a língua pelos lábios. — Desde que vi a chegada dele ontem pela televisão... eu sabia que alguém viria até aqui. Alistair assentiu. — Sua Majestade não poderia seguir viagem sem assegurar-se de que o encontraria. E receio não poder retornar a ele... sem que Vossa Alteza esteja comigo. Nicholas arqueou uma sobrancelha, um sorriso enviesado surgindo no canto da boca. — Eu não gostaria de estar na sua pele se tentasse voltar sem mim. — Nem eu — Alistair respondeu, permitindo-se rir um pouco mais dessa vez. O silêncio que se seguiu não era pesado. Era definitivo. Nicholas tirou o jaleco com um gesto automático, quase mecânico, e o deixou dobrado sobre o móvel. Pegou as chaves, o celular. Tudo simples. Tudo pequeno demais para o peso do que estava acontecendo. Abriu a porta e saiu primeiro. Alistair veio logo atrás. Sophie ainda estava ali, parada atrás do balcão, os olhos atentos demais, tentando montar um quebra-cabeça para o qual claramente não tinha todas as peças. Nicholas parou diante dela. — Vou precisar me ausentar hoje — disse, a voz firme, controlada. — Cancele as consultas e pode fechar. Ela arregalou os olhos, alarmada. — Cancelar? Mas... como assim? Não vamos nem remarcar? — É melhor não — respondeu. — Lembra que eu te disse que talvez tivesse que voltar para casa? Ela assentiu devagar. — Temo que vai ser antes do que pensei. Por enquanto, cancele só as de hoje. Pode ir. Eu te ligo mais tarde para confirmar se abrimos amanhã. Sophie mordeu o lábio inferior, claramente preocupada. O jeito dele estava diferente, mais distante, mais sério, quase... solene. — Aconteceu alguma coisa com a sua família, Nick? — perguntou, a voz baixa. — Tá tudo bem? Ele sorriu. Um sorriso pequeno, sincero. Gostava da preocupação dela. Gostava mais do que deveria. — Tá sim. Tudo certo — garantiu. — Não se preocupe. Ela assentiu, embora o olhar dissesse que estava longe de convencida. Nicholas não disse mais nada. Apenas se virou e seguiu até a porta. Do lado de fora, o carro aguardava. Ele entrou primeiro. Alistair veio logo depois. Sophie ficou ali, observando através do vidro da porta, enquanto o veículo se afastava. Sem saber exatamente o que tinha acabado de acontecer. Mas com a estranha sensação de que nada, a partir daquele momento, seria simples de novo. O carro seguia pelas ruas com uma fluidez discreta, quase silenciosa demais. Nicholas manteve o olhar fixo na janela por alguns minutos, acompanhando o movimento da cidade como quem se despede sem admitir. Pessoas apressadas, fachadas simples, a vida acontecendo sem saber que um rei estava ali por perto e que um príncipe estava indo ao encontro do que sempre tentara deixar para trás. Ele baixou o olhar devagar. O anel. O polegar encontrou o metal quase por instinto. Girou-o uma vez, depois outra, num gesto antigo, profundamente enraizado. O brasão surgiu e desapareceu sob a luz da manhã, pesado demais para um objeto tão pequeno. Respirou fundo. Aos poucos, algo nele se ajustava. Não de forma brusca, nem consciente. Era como vestir uma roupa esquecida no fundo do armário: ainda servia, ainda reconhecível, mesmo depois de anos. A postura se endireitou levemente. Os ombros, antes soltos, encontraram uma firmeza quase automática. O rosto, que no consultório se permitia aberto, suavemente vulnerável, agora se fechava num controle aprendido cedo demais. Não disse nada. Alistair permanecia em silêncio no banco ao lado, respeitoso, atento, como sempre fora. Não havia necessidade de palavras. Ambos sabiam que aquele intervalo, aquele trajeto, era uma espécie de fronteira invisível. Nicholas fechou os olhos por um instante. Sete anos. Sete anos sem ver o pai atravessar um salão, sem ouvir a voz firme da mãe chamando-o pelo nome completo quando queria seriedade. Sete anos sem jantares longos demais, sem conselhos dados em tom baixo, sem o peso constante das coroas que nunca eram tiradas de verdade. Sentia falta deles. Dos pais. Do homem que o ensinara a montar a cavalo antes de lhe ensinar a governar. Da mulher que o abraçava com força quando ninguém estava olhando, como se quisesse protegê-lo do mundo que ela mesma ajudava a sustentar. Não sentia falta dos reis. Abriu os olhos novamente e encarou o reflexo no vidro. O homem que o observava de volta não era mais o garoto de dezoito anos sufocado por salões grandes demais e decisões que não eram suas. Mas também não era apenas o veterinário de bairro que tomava café forte demais e ria fácil com a secretária. Era os dois. E isso o deixava perigosamente exposto. O carro reduziu a velocidade em um sinal. Nicholas girou o anel mais uma vez, a última antes de deixá-lo quieto. Endireitou-se por completo no banco, cruzou as mãos com calma no colo. Se o pai vinha cobrá-lo, ele estaria pronto para ouvir. Não como o rei de Auren. Mas como o homem que, apesar de tudo, ainda era seu pai.
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