Ele deu mais um passo.
A sala pequena pareceu encolher. A televisão murmurava alguma coisa irrelevante ao fundo, luz azulada piscando nas paredes claras, mas Sophie não ouvia nada. Estava parada, os pés fincados no chão frio, os olhos presos nele como se qualquer movimento pudesse quebrar algo frágil demais para existir.
Nicholas estava perto demais agora.
Ela reparou no quanto ele era bonito. Não bonito de revista ou de filme, mas daquele jeito silencioso que se impõe sem pedir licença. Os olhos, de um azul quase cinza, tinham a profundidade calma de quem observa mais do que fala. Os cabelos lisos estavam bagunçados, alguns fios caindo sobre a testa, desalinhados de um jeito que não combinava em nada com a palavra príncipe. A boca parecia seca; ele passou a língua pelos lábios num gesto distraído, nervoso.
Era bonito.
E o problema era exatamente esse.
Nunca tinha sido tão evidente porque nunca tinha sido permitido.
Ele se aproximou mais um pouco, devagar, como se estivesse testando o chão antes de pisar.
— Você não gostaria de me beijar, Sophie? — repetiu, a voz baixa, quase cuidadosa demais.
Ela não respondeu.
O silêncio não soou como recusa. Soou como conflito. Como se a resposta estivesse ali há tempo demais, só esperando uma pergunta que nunca viera.
Nicholas ergueu a mão com calma, dando tempo. Os dedos pousaram na cintura dela, leves, respeitosos, como se ainda pedissem permissão mesmo depois da pergunta.
Sophie estremeceu na mesma hora.
Não foi o toque em si. Foi o reconhecimento. Aquela sensação incômoda de que o corpo sabia algo que ela sempre se recusara a admitir. Algo que vinha desde o primeiro dia em que ele atravessara a porta da clínica com aquele sotaque estranho e aquele jeito contido demais para ser comum.
A outra mão subiu até a nuca dela, os dedos se perdendo nos fios soltos. Ele a puxou para perto com gentileza, como quem ainda oferece a chance de dizer não.
O beijo veio calmo.
Delicado.
Nada urgente. Nada exigente.
Um beijo que não prometia nada e justamente por isso assustava tanto.
Sophie fechou os olhos por um segundo e se permitiu sentir. O calor, o cheiro dele, a presença real daquele homem que, minutos antes, tinha desmontado o mundo dela com uma frase.
Mas antes que o beijo se aprofundasse, antes que o corpo respondesse mais alto do que a razão, ela se afastou de repente.
Levou as mãos à boca, o coração disparado.
— Você não devia ter feito isso — disse, sem fôlego.
Nicholas a observou com atenção, sem avançar, sem pressionar.
— Foi r**m?
Ela balançou a cabeça.
— Não. — Fez uma pausa, respirando fundo. — O que não significa que foi certo. Você é um príncipe, Alteza — completou, tentando se recompor. — Vai procurar uma princesa.
Ele sorriu de canto.
— Eu tenho uma princesa — respondeu. — Estou tentando me livrar dela.
Sophie suspirou, quase rendida, passando a mão pelo rosto.
— Por favor — ele pediu, mais baixo agora. — É só um pouco. Depois eu digo que você me deixou e pronto.
Ela negou com a cabeça, um sorriso nervoso escapando.
— Eu sou muito louca de topar isso.
O sorriso dele se abriu, aliviado.
— Então você vai aceitar?
— E você tem certeza absoluta de que o rei não vai mandar me partir no meio?
— Não era enforcar? — ele brincou.
— Tanto faz — rebateu. — Eu não quero morrer, Nicholas.
Ele riu, genuíno.
— Claro que não. Relaxa. Meu pai é um cara legal.
— Teu pai não é um cara — ela corrigiu. — Teu pai é um rei. Eu nem sei me comportar na frente de um rei.
— Não tem nada demais — ele garantiu. — Ele sabe que você não tem costume.
— Tem certeza?
— Tenho. Além do mais, ele acha que eu te amo. Vai querer ser simpático.
— Mesmo assim eu não quero passar vergonha.
Nicholas inclinou a cabeça, pensativo.
— Eu prometi que ia te levar hoje.
— Hoje?! — Sophie arregalou os olhos. — Não. Nem morta. Não tem como.
— Para de surtar — ele riu. — Agora você é minha namorada. Precisa conhecer seus sogros.
— Claro — ela ironizou. — Quando ele me trancar na masmorra por ter dado dois beijinhos no rosto dele, você vai lá me defender.
— Menina, você é mais doida que eu — Nicholas gargalhou.
Ela respirou fundo, se rendendo um pouco.
— Me ajuda, vai. O que eu faço? Como eu falo? Do que eu chamo ele?
— Majestade — respondeu. — Minha mãe também. Primeiro você reverencia — disse Nicholas, tentando assumir um tom sério… falhando miseravelmente.
— Reverencio como? — Sophie perguntou, já ficando de pé, tensa.
Ela respirou fundo, deu dois passos para trás como se estivesse se preparando para uma apresentação escolar, estufou o peito e fez uma inclinação rígida demais, quase um meio-agachamento estranho, com a cabeça baixa e os braços colados ao corpo.
Algo entre um cumprimento militar e um pedido de desculpas.
— Assim? — perguntou, ainda inclinada.
Nicholas levou a mão à boca.
— Não… — disse, a voz já traindo o riso. — Não, não, não. Isso aí parece que você vai anunciar guerra ou pedir perdão por um crime grave.
Ela se endireitou, ofendida.
— Eu nunca conheci um rei, Nicholas!
— Dá pra perceber — ele respondeu, rindo.
Sophie cruzou os braços.
— Para de rir e me ensina direito.
Nicholas respirou fundo, tentando recuperar a compostura. Aproximou-se dela, ficando de frente, sério agora.
— Tá. Vamos lá. — Ele fez um gesto com a mão. — Homens fazem a reverência assim — explicou, inclinando levemente o tronco. — Mas você não.
— Graças a Deus.
— Você faz uma pequena inclinação de cabeça e joelhos — disse, demonstrando devagar. — Nada exagerado. É elegante, curto. Assim.
Ele mostrou um movimento suave, quase imperceptível, natural.
— De novo — pediu.
Sophie tentou imitar. Dobrou os joelhos um pouco demais.
— Não é um agachamento — ele corrigiu, segurando o riso. — Você não tá entrando num ônibus lotado.
Ela bufou, tentou outra vez. Dessa vez, o movimento saiu melhor: discreto, feminino, contido.
— Isso — Nicholas sorriu. — Perfeito.
— Viu? — ela disse, aliviada. — Sou educável.
— Agora a parte mais importante — ele continuou. — O que você diz.
Ela arregalou os olhos.
— Não é “oi, Majestade”?
— Definitivamente não.
— Graças a Deus.
Nicholas pensou por um instante, assumindo aquele tom naturalmente formal que ele raramente deixava escapar.
— Você faz a reverência e diz: “É uma honra conhecê-lo, Majestade.”
Sophie repetiu em voz baixa, testando as palavras.
— “É uma honra conhecê-lo, Majestade.”
— Perfeito — ele assentiu. — Simples, respeitoso, impossível de dar errado.
— E depois eu fico muda?
— Ele vai falar com você. Provavelmente algo educado. Você responde normal. Sem gírias. Sem piadas sobre masmorra.
— d***a.
— Sem sarcasmo — reforçou.
— Isso já é violência contra a minha personalidade.
Nicholas riu.
— Relaxa. Ele vai te dar permissão pra abandonar a formalidade rapidinho.
Sophie arregalou os olhos.
— Eu não quero chamar um rei pelo nome!
— Ele é rei, não é um deus — Nicholas respondeu, sorrindo. — É quase como o presidente de um país.
— Só que sem eleições — ela completou.
— Sem eleições.
Ela respirou fundo, como quem se prepara para um salto.
— Tá. Então eu chego, faço isso — repetiu a reverência corretamente — e digo “é uma honra conhecê-lo, Majestade”.
— Exatamente.
— E se eu errar?
— Eu tô do seu lado.
— E se ele não gostar de mim?
Nicholas inclinou a cabeça, sincero.
— Ele vai gostar. Porque você é você. E porque ele acha que eu te amo.
Ela fechou os olhos por um segundo, derrotada.
— Eu tô muito ferrada.
Nicholas sorriu, aquele sorriso calmo que tinha beijado o medo dela minutos antes.
— Tá. Mas tá ferrada comigo.