Capítulo 10

1354 Palavras
Nicholas termina de ajeitar a postura dela com um cuidado quase exagerado, as mãos ainda suspensas no ar por um segundo antes de se afastar. — Viu? — diz, satisfeito. — Não tem mistério. Agora é só colocar um vestido longo e ir. Sophie cruza os braços, encarando-o em silêncio por um instante longo demais. — Longo… tipo, longo quanto? — pergunta, desconfiada. — Até o pé? — Até o pé — confirma, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Você não quer surgir na frente do rei e da rainha de shortinho jeans e regata, quer? Ela solta uma risada curta, já se afastando. — Ué. Minhas roupas são basicamente isso. E, sem esperar resposta, vira-se e sai em direção ao quarto. Nicholas fica parado no meio da sala, sozinho agora, ouvindo o som distante das gavetas sendo abertas. Passa a mão pela nuca, incerto. Seguir ou não seguir? Invadir o espaço dela? Ficar ali feito um i****a olhando para o nada? Ele opta por ficar. Pelo menos por enquanto. Alguns segundos se passam. Talvez um minuto inteiro. Ele começa a andar de um lado para o outro, observando os quadros na parede, tentando não pensar em absolutamente nada, o que, claro, não funciona. Então a cabeça dela surge no batente da porta. — Ei, alteza — ela chama, divertida. — Você não vem? Nicholas ergue o olhar, pego completamente desprevenido. — Eu… — ele pisca, sem graça. — Pro seu quarto? Ela abre um sorriso malicioso, apoiando o ombro no batente. — Ué. Somos namorados agora, não somos, alteza? Ele bufa, derrotado, passando a mão pelo rosto. — Para de me chamar assim. — Não — ela responde, já sumindo de novo para dentro do quarto. Nicholas ri sozinho, um riso baixo, quase incrédulo, antes de finalmente seguir atrás dela. O quarto é simples, aconchegante, com luz natural entrando pela janela e um cheiro leve de sabonete e perfume cítrico no ar. O guarda-roupa está escancarado, revelando exatamente o que ele imaginava e um pouco mais. Vestidos curtos, justos, pendurados lado a lado. Shorts jeans dobrados em pilhas improvisadas. Blusas leves, regatas, tecidos que deixam a pele à mostra sem esforço algum. Ele encosta no batente, observando a cena. — Nossa… — comenta, sincero. — Você ia passar m*l em Auren. Sophie se vira para ele, curiosa. — Sério? — Sério — confirma. — Lá é tudo… diferente. As mulheres usam vestidos longos o tempo todo. Tecidos pesados, cortes clássicos. Nada justo demais, nada curto demais. Ela inclina a cabeça, interessada. — E os homens? — Sempre muito formais — ele explica. — Casacas, fraques, ternos estruturados. Em ocasiões oficiais, uniformes de gala. Tudo muito rígido. Muito… antigo. Ela o observa por um segundo, os olhos brilhando com curiosidade. — E você? Nicholas revira os olhos, como quem se lembra de algo inconveniente. — Eu? — solta um suspiro. — Farda cerimonial. Casaca escura, cheia de insígnias, medalhas, faixa atravessada no peito… coroando tudo, aquela sensação constante de estar fantasiado de mim mesmo. — Você não gosta? — ela pergunta. — Não — responde sem hesitar. — Nunca gostei. Sophie cruza os braços, avaliando-o com um meio sorriso. — Pode até não gostar… mas deve ficar bem gato. Ele ri, pego de surpresa pelo elogio, desviando o olhar por um instante. — É o que dizem. Ela dá de ombros, voltando a vasculhar o guarda-roupa. — Será que eu vou ter a oportunidade de ver você assim? Nicholas solta uma risada baixa, quase nostálgica. — Considerando que faz mais de sete anos que eu não visto aquilo… — Nicholas completa, com um meio sorriso cansado — eu queria nunca mais vestir. Sophie ri, encostando o ombro no guarda-roupa. — Seria um desperdício. Ele balança a cabeça, já sabendo que aquela esperança não tinha muito espaço para existir. — É impossível. — suspira. — Meu pai jamais permitiria. A primeira coisa que vai fazer quando eu pisar em Auren é convocar o alfaiate real pra renovar todo o meu guarda-roupa. Aposto nisso. Ela o observa por um instante mais longo. O sorriso some aos poucos. — Eu achei que… — começa, hesitante — que a gente estivesse fazendo tudo isso pra você não ter que ir embora. Nicholas se senta na cama, o colchão afundando sob o peso do corpo e da realidade. Passa as mãos pelo rosto antes de responder. — Não. — diz, com honestidade. — Eu tenho que ir. Eu sou o príncipe herdeiro, afinal. Um dia vou ser o rei. Ela assente devagar, absorvendo. — Tudo isso é porque eu não quero aquele casamento — ele continua. — Não porque eu posso simplesmente… desaparecer. Sophie solta um suspiro curto. — Bom… — força um sorriso — entendi. Vou sentir falta de Vossa Alteza por aqui. Ele ergue o olhar na mesma hora. — Cara, para de me chamar assim. — reclama, mas rindo. — Eu gosto quando você me chama de Nick. Ela ri também, o clima pesado se desfazendo um pouco. — Mas chamar você de Nick não é falta de respeito? — Em Auren, você seria mandada direto pra forca. Ela arregala os olhos e leva a mão ao pescoço na mesma hora. — Meu Deus! Nicholas se joga para trás na cama, gargalhando sem nenhum pudor. — Tô brincando! — diz entre risos. — Quer dizer… mais ou menos. Ela acaba rindo também, cruzando os braços. — i****a. Vai me ajudar ou não com as roupas? — ela provoca. Ele se senta de novo, tentando recuperar o fôlego. — Vamos lá… — analisa — você tem algo que cubra pelo menos os joelhos? Sophie revira os olhos, mas puxa o último cabide do fundo do guarda-roupa. — Tenho, sim. É um vestido longo, soltinho, tecido leve, cara de verão. Alças finas, sem decote exagerado, elegante sem esforço. Nicholas se levanta e observa com atenção genuína. — Olha só… — comenta, surpreso. — Esse vai servir. Ela arqueia a sobrancelha. — Só isso? — Surpreendente — ele continua, sorrindo. — Eu jurava que a coisa mais decente do teu armário era o uniforme da clínica. Ela ri alto. — Minhas roupas não são indecentes. Vocês que são caretas. — Vou contar para o meu pai que você chamou ele de careta. — Você não é doido. — Talvez eu seja. Eles riem juntos. — Vai — ele diz, apontando para o banheiro. — Se veste. Temos um encontro marcado com a realeza. Ela pega o vestido e para antes de entrar. — E o cabelo? — Prende. — Prender? Por quê? — Damas não andam de cabelo solto. Ela bufa, teatral. — Morar em Auren deve ser muito chato. Nicholas ergue uma sobrancelha. — Por que você acha que eu saí de lá? Os dois riem outra vez. Sophie entra no banheiro e fecha a porta. O som do chuveiro não demora a começar. Nicholas se senta na cama, sozinho agora. O quarto parece menor. Mais silencioso. Ele apoia os cotovelos nos joelhos, encarando o chão, mas os pensamentos não obedecem. Vêm todos de uma vez. Sophie rindo. Sophie nervosa. Sophie segurando a mão dele. O beijo rápido demais, suave demais, delicioso demais. Ele fecha os olhos por um instante. Estar perto dela era fácil. Leve. Natural de um jeito que nada em Auren jamais fora. Não havia cálculo, não havia protocolo. Só… presença. E o corpo reage antes que a razão consiga frear. Ele inspira fundo, abrindo os olhos de novo, e encara a cama. A imagem que surge na mente é traiçoeira demais. Próxima demais. Íntima demais. O corpo enrijece num alerta imediato. — Não — murmura para si mesmo, levantando-se rápido demais. Sai do quarto quase tropeçando, como se o espaço tivesse ficado perigoso. Encosta-se na parede da sala, passa as mãos pelo rosto, respirando fundo, contando os segundos até o próprio corpo obedecer de novo. Quando estiver calmo. Quando estiver inteiro. Quando estiver apenas o Nick. Ele espera. Sem saber que, do outro lado da porta do banheiro, Sophie também precisava de alguns minutos extras antes de encará-lo outra vez.
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