A biblioteca estava aquecida pelo fogo baixo da lareira.
As chamas crepitavam em silêncio respeitoso, refletindo tons alaranjados nas estantes altas, carregadas de livros antigos. Katarina estava sentada em uma poltrona próxima ao fogo, um volume aberto nas mãos, a postura elegante mesmo quando relaxada.
Nicholas parou à porta por um instante.
Hesitou.
Então entrou.
O som dos passos chamou a atenção dela, que ergueu o olhar com calma. Não houve surpresa exagerada, apenas curiosidade.
— Alteza. — disse, fechando o livro devagar.
— Katarina. — ele respondeu, num tom mais baixo do que o habitual. — Podemos conversar?
Ela observou o rosto dele por alguns segundos antes de responder:
— Claro.
Fez um gesto discreto para a dama de companhia, que imediatamente se levantou.
— Pode ir, Milada. — disse. — Eu chamo se precisar.
A porta se fechou, deixando-os sozinhos.
Nicholas avançou alguns passos e sentou-se na poltrona de frente para ela, mantendo uma distância respeitosa. Cruzou as mãos, descruzou. Endireitou a postura. Tornou a relaxar.
Katarina inclinou a cabeça, divertida.
— Confesso que estou surpresa com esse encontro. — disse. — Você foge de mim como o d***o foge da cruz.
Ele soltou um suspiro curto.
— Eu não fujo.
Ela riu, sem deboche. Um riso leve, quase afetuoso.
— Nicholas, você não precisa mentir. — disse. — Eu sei que você não gosta de mim. Está tudo bem.
— Não é isso. — ele respondeu, rápido demais. Depois respirou fundo. — É mais do que isso. Não é você. É o que você representa.
Katarina sorriu de lado.
— Sophie já me disse exatamente isso. — comentou. — Fique tranquilo, Nicholas. Eu entendo.
Ele passou a mão pelo rosto, visivelmente cansado.
— Eu não vou ficar tranquilo. — disse. — Hoje, no café da manhã... eu fui grosseiro com você. E eu sinto muito por isso.
Ela o observava em silêncio, atenta.
— Eu não sou assim. — ele continuou. — Eu não quero que você pense que eu sou esse tipo de pessoa que esmaga os outros usando hierarquia. Acontece só que eu...
— Está no limite. — ela completou, com naturalidade.
Nicholas piscou.
— Eu já entendi. — Katarina disse. — Está tudo bem. Eu relevo que você me mandou abaixar a cabeça e obedecer.
Ele soltou uma risadinha breve.
— Ainda bem.
O riso morreu rápido.
— Sobre a Sophie... — ele retomou, sério — eu não quis desrespeitar você ao trazê-la para o castelo.
Katarina deu de ombros, tranquila.
— Está tudo bem, Nicholas. — disse. — Apesar de noivos, nós não temos nada, não é? m*l nos conhecemos. Não nos gostamos. Eu não ligo.
Ele hesitou antes de dizer:
— Eu não fiz nada com ela aqui. — afirmou. — Justamente para não gerar cochichos dentro do castelo. Para não te expor.
Katarina assentiu devagar.
— Agradeço a consideração.
Fez uma pausa curta, depois falou com honestidade desarmante:
— Eu torço para que vocês consigam ficar juntos. Mas, sinceramente... meu pai é um homem complicado, Nicholas.
Ele suspirou.
— Eu sei.
O silêncio se instalou por alguns segundos, quebrado apenas pelo som da lenha queimando.
— Eu não seria um bom marido para você. — Nicholas disse, por fim. — Não sou capaz de te fazer feliz.
Katarina riu baixinho.
— Capaz você é. — respondeu. — Você não quer. E, como eu disse... está tudo bem.
Ela o encarou com firmeza serena.
— Vamos levando até onde der. — concluiu. — Sem mágoa. Sem ilusões.
Nicholas assentiu, sentindo um nó apertar no peito.
Levantou-se.
— Me desculpa. — disse, uma última vez.
Katarina sorriu.
— Boa noite, Nicholas.
Ele saiu da biblioteca com a sensação estranha de que aquela conversa tinha sido, ao mesmo tempo, um alívio... e um prenúncio.
E, em algum lugar dentro dele, a certeza incômoda de que o mais difícil ainda estava por vir.
**
Os cinco dias que se seguiram passaram como uma sequência de compromissos cumpridos à força da disciplina.
Nicholas estava no castelo havia uma semana quando o baile finalmente chegou.
Recepções menores, reuniões protocolares, visitas institucionais, encontros com conselheiros. Ele honrou todos. Chegou no horário. Respondeu quando perguntado. Sorriu quando esperado. Não houve novas crises. Nenhum colapso público. Nenhum deslize.
Para quem observava de fora, o príncipe herdeiro estava exatamente como deveria estar.
Mas quem o conhecia de verdade percebia com clareza: Nicholas não estava bem.
A compostura vinha do controle. Não da paz.
À noite, quando o castelo silenciava, era quando ele finalmente respirava um pouco melhor.
Sophie recebeu o dinheiro no segundo dia. Junto, um pequeno envelope discreto com um chip e uma linha local ativada. Nada chamativo. Nada que levantasse suspeitas.
Mas, a partir dali, eles passaram a se falar o tempo todo.
Mensagens curtas durante o dia. Comentários bobos. Observações simples. Um "está tudo bem?" que significava muito mais do que parecia. À noite, quando conseguiam, encontros rápidos e raros sempre discretos, sempre cuidadosos. Nunca ultrapassando os limites que haviam imposto a si mesmos.
Não por falta de vontade.
Mas por escolha.
Enquanto isso, uma mensagem oficial foi enviada a Karsevia.
Edmund foi direto. Solicitou a presença de Radovan em Auren para uma conversa definitiva sobre o acordo. A resposta veio dois dias depois: formal, educada... e calculada. Radovan estaria em Auren em poucos dias.
A notícia não trouxe alívio. Trouxe contagem regressiva.
E agora, naquela noite, o castelo fervilhava.
Músicos afinavam instrumentos. Criados atravessavam corredores com bandejas e tecidos. Lustres eram acesos um a um. O baile de boas-vindas do príncipe herdeiro estava prestes a começar.
Nicholas parou diante do espelho, já vestido para a ocasião.
A imagem refletida parecia impecável.
Mas ele sabia: aquela noite não era uma celebração.
Era um teste.
**
Sophie estava sentada na cama, com as pernas dobradas, a televisão ligada num volume baixo. As imagens passavam rápidas demais, as vozes em um idioma que ela não entendia uma única palavra.
Mesmo assim, não desligava.
Era só para não ficar em silêncio.
O vestido simples que usava contrastava com o pensamento insistente de como o salão deveria estar agora: luzes acesas, flores, músicos afinando instrumentos. O baile de boas-vindas do príncipe começaria em instantes.
E ela não estaria lá.
O som da porta se abrindo a fez erguer o rosto de imediato.
A rainha Eleanor entrou primeiro, serena, acompanhada por dois homens: um carregava uma grande caixa retangular; o outro, uma maleta de couro escuro.
Sophie se levantou no mesmo instante.
— Majestade... — fez uma reverência apressada. — A que devo a visita?
Eleanor riu, um riso leve, quase cúmplice.
— Vamos poupar as formalidades, Sophie. — disse, aproximando-se. — Pelo menos entre nós.
Inclinou-se levemente e acrescentou, em tom baixo:
— Você é minha nora.
Sophie arregalou os olhos por um segundo... e acabou rindo também, sem saber muito bem como reagir.
— Bem... — Eleanor continuou — você sabe que haverá um baile para o Nicholas hoje à noite, certo?
Sophie assentiu, com um sorriso educado.
— Sei sim, majestade. Pode ficar tranquila. Eu vou ficar aqui, quietinha. Não vou aparecer.
A rainha soltou outra risada.
— Minha filha... — disse, com doçura — você quer ir?
Os olhos de Sophie brilharam antes mesmo que ela conseguisse se conter.
— Quero. — respondeu, quase num sussurro. — Quer dizer... quero, sim.
— Então pronto. — Eleanor disse, satisfeita. — Eu tenho uma surpresa.
Fez um gesto, e o rapaz colocou a caixa sobre a cama. Abriu com cuidado.
Sophie se aproximou devagar.
Dentro, havia um vestido de baile em tom rosa bebê, delicado e elegante. O tecido leve caía em camadas suaves, com um corpete bem estruturado, decote discreto e detalhes sutis em bordado claro que captavam a luz com delicadeza. Nada exagerado. Nada armado. Apenas... lindo.
Sophie levou a mão à boca, emocionada.
— Eu peguei um dos seus vestidos — Eleanor explicou — e levei à minha costureira. Pedi que providenciasse algo especial naquelas medidas. Queria fazer uma surpresa para você.
Apontou então para o outro homem.
— E este é o cabelereiro e maquiador. Ele vai cuidar de você.
Sophie balançou a cabeça, ainda sem acreditar.
— Eu achei que... — riu, nervosa — achei que eu não podia ir.
— Fiz um charme. — Eleanor respondeu, piscando. — Nicholas não sabe que você vai.
O sorriso de Sophie cresceu.
— Então eu também não vou contar.
— Imaginei. — Eleanor disse. — Conversei com o Edmund. Nicholas está uma pilha de nervos, segurando todos os compromissos. Mas nós sabemos que esse baile vai ser mais difícil.
Aproximou-se e segurou as mãos de Sophie.
— Acho que se você estiver lá, ele vai relaxar mais.
Sophie assentiu, com os olhos marejados.
— E o melhor — Eleanor continuou — é que haverá tanta gente desconhecida que ninguém vai reparar. Ele vai dançar com algumas mulheres... então ninguém vai estranhar se dançar com você também.
Sorriu, satisfeita consigo mesma.
— Eu pensei em tudo.
— Obrigada. — Sophie disse, sincera. — De verdade.
— Agora se arrume. — Eleanor ordenou, gentil. — O baile começa às oito. Eu vou ficar te esperando lá embaixo.
Sophie hesitou.
— Eu vou... ficar com vocês?
— Vai entrar como nossa convidada. — Eleanor respondeu. — Você não conhece ninguém, e é uma festa. Pode ficar perto da gente.
Deu um último sorriso caloroso.
— Agora vá se arrumar. Quero te ver incrível.
A porta se fechou.
Sophie ficou parada por alguns segundos, olhando para o vestido sobre a cama, o coração disparado.
Ela não tinha ido até Auren esperando um baile.
Mas, naquela noite... ela estaria lá.
E Nicholas não fazia ideia.