Capítulo 37

1582 Palavras
Nicholas respirou fundo uma última vez, como se guardasse aquele momento num lugar seguro dentro de si. Depois se afastou só o suficiente para encará-la, forçando um meio sorriso que não enganava ninguém. — E então... — disse, num tom deliberadamente casual demais — como foi a conversa com a Katarina? Sophie piscou, surpresa pela mudança abrupta de assunto. Por um segundo, pensou em responder com leveza. Mas acabou soltando um riso curto, quase irônico. — Bom... — inclinou a cabeça de lado — ela sabe sobre nós. O corpo de Nicholas enrijeceu. — Como assim sabe? — Sabe. — Sophie confirmou, divertida. — Você não é exatamente o noivo mais dedicado do mundo, não é, Nick? Ele franziu a testa. — Eu tentei ser discreto. Sophie soltou uma risada mais aberta dessa vez. — Tentou? — provocou. — Você chegou ao castelo, causou um alvoroço histórico... e nem foi vê-la. Não disfarçou nada. Nicholas passou a mão pelo rosto. — Eu não quis. — disse, simples. — Pois é. — Sophie deu de ombros. — Ela percebeu tudo sozinha. Ele a encarou, atento. — E...? — E ela parece ser bem legal. — Sophie completou, honesta. — De verdade. Nicholas arqueou uma sobrancelha, desconfiado. — Espera aí... — inclinou a cabeça — você está me empurrando para a princesa, Sophie? Cansou de mim? Ela riu, balançando a cabeça. — Não. Claro que não. O sorriso dela suavizou antes de continuar: — Mas se todo esse plano der errado... se você tiver mesmo que acabar se casando com ela... ao menos não vai ser um fardo. Nicholas a olhou como se não acreditasse no que estava ouvindo. — Você está falando sério? — Estou sendo realista. — respondeu. Ele respirou fundo, a voz saindo mais firme do que se sentia. — Isso não vai acontecer. Eu não vou me casar com ela. Sophie sustentou o olhar dele por um instante longo demais. — Claro. — disse, com suavidade. — E vai deixar uma guerra começar? O silêncio caiu pesado entre eles. — Vai se esconder no Brasil comigo — ela continuou, sem elevar a voz — e dormir tranquilo sabendo que pessoas de um reino que você nasceu pra proteger estão morrendo por causa das suas escolhas? Os ombros de Nicholas cederam. Literalmente. Como se o peso que ele vinha sustentando o dia inteiro finalmente tivesse encontrado palavras. — Não é justo. — murmurou. — Nem sempre é. — Sophie respondeu. — Mas é a realidade. Ela respirou fundo antes de continuar, mais vulnerável agora: — Eu vim até aqui porque acreditei que existe uma chance disso dar certo. Mas, Nick... a gente sabe que é pequena, não sabe? Ele não respondeu. — Se tiver que se casar... — a voz dela falhou por um segundo, mas ela continuou — você vai se casar. E eu vou embora. Pra bem longe. Os olhos dele se encheram de lágrimas de novo. Assim como os dela. — Eu não vou suportar te ver casando com outra mulher. Nicholas passou a mão pelo rosto, a voz quebrada. — Me desculpa... por ter te enfiado nisso tudo. Ela franziu a testa. — Me enfiado? — Sim. — ele assentiu, amargo. — Eu inventei essa história. No desespero, menti pro meu pai dizendo que te amava. Convenci você a entrar nessa farsa... e olha onde estamos agora. Sophie o encarou por alguns segundos... e então riu. Um riso baixo, cheio de afeto. — Nick... — disse, balançando a cabeça — você acha mesmo que dizer pro seu pai que me amava foi uma mentira? Ele ficou em silêncio. — Isso tudo tem dias. Poucos dias. — ela continuou. — Você acha mesmo que a gente se apaixonou assim, do nada? Ela se aproximou um pouco mais. — Tudo isso já existia. A gente só não enxergava. Os olhos dele ficaram fixos nela, encantados. — Em cada café que eu preparava pra você sem você pedir, só porque eu percebia o seu cansaço. — Sophie disse. — Em cada vez que você perguntava como tinha sido a minha noite. No nosso dia a dia... a gente já se amava. Mesmo sem perceber. Nicholas engoliu em seco. Ela tinha razão. — Então não me peça desculpas por me trazer até aqui. — ela completou. — Eu vim sabendo que podia dar certo... mas que a chance maior era dar errado. Ela respirou fundo. — Eu vim pra aproveitar o pouco tempo que resta pra nós dois. Mas eu acho que, no fundo... a gente sempre soube. A voz dela saiu quase num sussurro. — O pai da Katarina não vai aceitar o fim desse noivado. Ele quer a filha rainha. Nicholas sentiu o rosto molhado outra vez. Secou as lágrimas com a mão, sem vergonha. — Essa conversa toda... — murmurou — soa como uma despedida. Sophie se aproximou e tocou o rosto dele com cuidado. — Não é. — disse. — Ainda não. Ela encostou a testa na dele. — Mas a gente precisa ser sincero um com o outro. E você precisa cumprir a sua parte do combinado... me dar o dinheiro pra voltar, caso eu queira. Ele respirou fundo. — Você teria coragem de ir embora sem falar comigo? Ela sorriu, triste e doce ao mesmo tempo. — Você não precisa se preocupar com isso agora. — Por quê? — Porque agora... — Sophie respondeu, baixinho — eu não vou embora. Nicholas ficou alguns segundos em silêncio depois da conversa. O corpo ainda perto do dela, mas a mente já sendo puxada para fora daquele quarto. Ele respirou fundo, como quem se prepara para atravessar uma porta pesada. — Eu preciso ir. — disse, por fim. Sophie franziu a testa imediatamente. — Nick... você não tá bem. Ele soltou um meio sorriso cansado, sem humor algum. — Eu sei. Passou a mão pelo rosto, cansado demais para fingir o contrário. — Mas os compromissos não param porque o príncipe está com problemas emocionais. — disse, seco. — A verdade é que aqui ninguém liga pra isso de fato. A presença importa. Parecer forte importa. Ele a encarou, sincero. — Eu tenho que ir. Sophie assentiu devagar, mesmo contra a vontade. Aproximou-se, segurou o rosto dele entre as mãos. — Vai. — disse. — Mas não se perca lá fora. Nicholas fechou os olhos por um instante, inclinando-se para um último beijo. Não foi intenso. Não foi urgente. Foi carregado de tudo o que eles não podiam fazer. Quando se afastou, soltou um suspiro pesado. — Vou mandar entregarem para você o dinheiro. — disse. — E um chip com uma linha local. Ela piscou, surpresa... e então sorriu, genuinamente animada. — Sério? — Assim, mesmo que a gente não possa se ver... — ele continuou — a gente se fala. O sorriso dela se alargou. — Eu adorei essa parte do plano, alteza. — Vou mandar alguém providenciar amanhã. — ele respondeu, já se afastando. — Prometo. Ela assentiu, observando enquanto ele se recompunha do jeito que dava, ajeitando a postura, vestindo outra vez o papel que o mundo exigia. Quando a porta se fechou atrás dele, Sophie ainda sentia o eco do beijo nos lábios. Nicholas chegou ao salão de jantar atrasado. Tarde o suficiente para que todos já estivessem sentados. Tarde o suficiente para que o som dos talheres parasse por um segundo quando ele entrou. O rei, a rainha, Matthias e Katarina já comiam. Ele atravessou o salão com passos firmes demais para quem não estava inteiro. Curvou a cabeça em cumprimento, sentou-se no lugar designado, tentou se encaixar naquele cenário como se não tivesse acabado de deixar parte de si em outro quarto do castelo. Mas era visível. O olhar cansado. O maxilar tenso. A maneira como ele segurava os talheres sem realmente usá-los. A rainha Eleanor foi a primeira a falar. — Nicholas... — disse, com doçura contida — está tudo bem? Ele respirou fundo antes de responder. — Talvez seja melhor nem perguntar. O silêncio caiu. Matthias o observava com atenção demais. Katarina manteve o olhar baixo, respeitosa. — Você parece exausto. — insistiu Eleanor, com cuidado. Nicholas largou os talheres com um som seco demais para o ambiente. — Eu estou aqui, não estou? — disse, sem elevar a voz, mas com uma firmeza que cortou o ar. — Então me deixem em paz. O rei ergueu os olhos lentamente. — Nicholas... — Eu estou tentando. — ele continuou, agora olhando ao redor da mesa. — De verdade. Tentando seguir isso. Tudo isso. A voz falhou por um segundo. Ele respirou fundo e retomou. — Mas não exijam mais de mim. Não exijam que eu fique bem de verdade. O salão estava completamente em silêncio agora. — Porque talvez isso nunca aconteça. — disse, honesto demais. — No máximo... em algum momento, depois de eu fingir por tempo suficiente, eu comece a acreditar. Ele baixou o olhar por um instante, recompôs-se. — Mas agora... — levantou os olhos outra vez — não me pressionem. A voz saiu mais baixa. Mais perigosa. — Porque eu vou explodir. E eu não quero ferir ninguém nessa explosão. Ninguém respondeu. O rei apenas assentiu levemente. A rainha desviou o olhar, emocionada. Katarina permaneceu imóvel, o rosto sério, respeitando algo que ela claramente entendia, mesmo sem nomear. Nicholas voltou a pegar os talheres. Não porque estivesse com fome. Mas porque ainda estava ali. E, por enquanto, isso era tudo o que ele conseguia oferecer.
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