Capítulo 36

1400 Palavras
Sophie estava sentada na cama, as costas apoiadas na parede fria. Nicholas deitado de lado, a cabeça repousada nas pernas dela, o corpo ainda encolhido, como se precisasse ocupar o menor espaço possível para existir em paz. Ela passava os dedos devagar pelos cabelos dele. Sem pressa. Sem palavras. O silêncio entre os dois não era pesado, era necessário. Depois de um tempo, Sophie respirou fundo, como quem tenta puxar o outro de volta para a superfície. — Sabe... — começou, com cuidado — eu conversei com a Katarina hoje. Nicholas soltou um resmungo baixo, quase um bufo. — Ela levou a sério aquilo que disse de manhã sobre te procurar? — Sim e não. — Sophie sorriu de leve. — Acho que o encontro foi mais acaso do que intenção. Eu estava no jardim agora há pouco. Ele virou de barriga para cima, ainda deitado, e a encarou imediatamente. — Sophie, está frio demais para ficar no jardim. — o tom veio preocupado. — Você vai acabar ficando doente. Ela deu de ombros, com um sorriso pequeno. — Eu precisava de ar. — passou os dedos pelo rosto dele. — Assim como você. Fez uma pausa. — Eu acho que... eu também não pertenço a esse lugar, Nick. Nicholas se sentou num impulso, alarmado. Os olhos arregalados, o corpo tenso de repente. — Você não vai embora, né? A pergunta saiu rápida demais. Crua demais. — Saber que você está aqui — ele continuou, a voz mais baixa — é a única coisa que torna viver aqui suportável. Sophie soltou uma risadinha suave, tentando aliviar. — Nossa... hoje você está especialmente dramático. — Não é drama. — ele respondeu, sério. — Dessa vez não é. Passou a mão pelo rosto. — Eu não aguentei ficar ali parado. Em silêncio. Só... existindo para o povo me ver. — respirou fundo. — E amanhã tem mais compromissos. Depois outros. E ainda ouvi dizer que minha mãe está preparando um baile. Ele riu sem humor. — Um baile pela volta do príncipe. Levantou o olhar para ela. — Sophie, eu não aguentei minutos ali fora. Minhas pernas bambearam. O ar não entrava. Como eu vou suportar um baile inteiro? Todo mundo olhando como se eu fosse uma aparição... querendo tocar, confirmar se eu sou real, se estou inteiro, se sou saudável. A voz acelerou. — Vão querer dançar comigo. Conversar sobre política. Fazer perguntas. E eu só vou querer... sumir. Sophie o ouviu até o fim. Sem interromper. Depois levou as mãos ao rosto dele, firme e doce. — Eu sei. — disse. — Mas quando isso acontecer... você vai respirar fundo. Vai lembrar do que importa. Acariciou o maxilar dele. — Vai lembrar de mim. Da gente. Da minha casa. De como tudo começou com uma mentirinha branca... e terminou com nós dois apaixonados feito dois idiotas no meio de um casamento político. Nicholas deixou escapar uma risada baixa, cansada. — Meu pai estava certo. — Em quê? — Ele foi ao meu quarto. — respondeu. — Disse para eu vir te ver. Porque depois de um dia difícil, estar com quem a gente ama ajuda a recarregar as energias. Sophie sorriu, com ternura. — Eu sempre vou estar aqui pra você. — disse. — Mesmo que seja numa ala distante do castelo... ou escondida no meio do povo, olhando o príncipe herdeiro como se fosse uma aparição. Ele sorriu de volta. — E correndo o risco de parecer redundante... — ela acrescentou, provocando — apesar de você estar desmoronando por dentro, para nós, meros mortais do povo, você estava um monumento de tão lindo. — Sophie... — ele riu, balançando a cabeça. — O quê? — ela deu de ombros. — Qualquer oportunidade que eu tiver de me deleitar com você de farda, meu amor, eu vou aproveitar. Nicholas riu mais alto dessa vez. Sophie então se moveu, subindo no colo dele com naturalidade, sentando-se ali como se aquele fosse o lugar mais óbvio do mundo. — A partir de amanhã — murmurou perto do ouvido dele — quando você tiver que vestir aquela farda que odeia... Deixou um beijo leve no pescoço dele. — Pensa em mim. E em como eu gostaria de arrancar aquilo de você. O riso dele morreu. O corpo reagiu antes da mente, e Sophie percebeu na mesma hora. Não se afastou. Não provocou mais. Ele fechou os olhos por um instante. — Acho que vou precisar me afogar em você... para conseguir respirar de novo. Ela sorriu contra a pele dele. — Não devemos. — disse, baixinho. — Não foi o combinado com o rei. A mão dele deslizou até as costas dela... e parou ali. Presente. Contida. — Hoje... — ele respondeu — eu só queria esquecer que o rei existe. Sophie apoiou a testa na dele. — Então esquece. — sussurrou. — Por alguns minutos. Nicholas não respondeu de imediato. A provocação dela tinha sido baixa, quase brincalhona, mas o efeito foi imediato demais para fingir que não existia. O corpo dele reagiu antes da cabeça, e Sophie sentiu o calor, a tensão, a respiração que mudou de ritmo. — Sophie... — ele murmurou, a voz mais grave. Ela sorriu, satisfeita e um pouco perigosa, e se inclinou para beijá-lo. Não foi um beijo contido. Não foi rápido. Foi lento, profundo, desses que começam com cuidado e vão se esquecendo do resto do mundo. A boca dele encontrou a dela com urgência contida, como se tivesse passado o dia inteiro se segurando para aquele instante. As mãos dele subiram pelas costas dela, firmes, quentes, puxando-a mais para perto. Sophie suspirou contra a boca dele. Nicholas a beijou de novo, mais intenso, inclinando a cabeça, deixando o ritmo crescer. Uma das mãos escorregou da cintura para a lateral do corpo dela, dedos pressionando com mais intenção do que deveria. O polegar roçou sob o tecido, distraído, íntimo demais. Por alguns segundos, ele esqueceu. Esqueceu o castelo. Esqueceu o rei. Esqueceu a farda dobrada em algum lugar da memória. Só existia Sophie. Ela levou a mão até o pescoço dele, os dedos se enroscando nos cabelos, puxando de leve. Nicholas respondeu com um som baixo, quase um suspiro quebrado, e aprofundou o beijo mais uma vez, o corpo inteiro acompanhando. Foi aí que ele parou. Não abruptamente. Não com brusquidão. Afastou a boca dela devagar, ainda com a testa encostada na dela, respirando pesado. Os olhos ficaram fechados por um segundo a mais do que o necessário, como se estivesse se obrigando a voltar para o próprio corpo. — Droga... — murmurou. Sophie abriu os olhos, ainda ofegante. — O que foi? Nicholas desceu as mãos dos ombros dela, relutante, como quem solta algo precioso com esforço. Encostou a testa no pescoço dela por um instante antes de se afastar um pouco mais. — Eu quero esquecer que o rei existe — disse, sincero demais para soar bonito. — Quero fingir que nada disso tá acontecendo. Ela o observava em silêncio, atenta. — Mas eu não posso. — ele continuou, respirando fundo. — Não depois do que ele fez hoje. Do voto de confiança que ele me deu. Fez uma pausa curta, amarga. — E eu também não posso fazer isso com a Katarina. Sophie engoliu em seco. — Não posso expô-la ao ridículo. — Nicholas disse. — A fofoca. Os olhares. Todo mundo comentando. Ela não merece isso. Houve um silêncio breve. Então Sophie soltou uma risadinha baixa, quase frustrada. — Infelizmente... — disse, afastando-se um pouco mais — minha cabeça entende tudo isso. Ela respirou fundo e completou, honesta: — Mas meu corpo não. Nicholas riu, passando a mão pelo rosto. — Então estamos no mesmo barco. — disse. — Exatamente no mesmo barco. Ela balançou a cabeça, sorrindo. — Talvez seja melhor a gente manter uma distância mínima de segurança antes que eu faça algo que vá contra todos os tratados diplomáticos possíveis. — Concordo plenamente. — ele respondeu. — Pelo bem do reino. Eles se entreolharam por um segundo... e riram juntos. O clima ainda estava ali. Quente. Pulsando. Mas agora havia algo a mais misturado ao desejo: cuidado. respeito. escolha. Nicholas se inclinou e beijou a testa dela, demorado. — Obrigado. — murmurou. — Pelo quê? — Por me querer... — disse. — E, mesmo assim, saber parar comigo. Sophie sorriu, apoiando a testa no peito dele. — Sempre.
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