Dare
— Eu disse que ele ia me dar um empurrão — Kevin estende a mão e vejo as notas serem colocadas em sua palma. — É como tirar doce de criança. — Provoca com olhar atento a mim.
— A cara dele foi hilária, mas a da Luna, impagável. — Stuart não parou de rir desde que entramos na limusine.
— Você tá muito ferrado, nossa Luna mudou bastante — Maison comenta.
— Melhor foi a cara que ela fez quando estava secando o Billie — Kevin teve que tocar de novo no assunto.
— É, Dare Masters não ocupa mais o pedestal no coração da nossa Luna. Será que tenho chance? — Billie provoca.
Claro que Billie não tem chance. Luna nunca deixaria de vê-lo como um irmão. Mesmo que tenha babado feito uma cachorrinha em cima dele.
— Pensei que o queixo tivesse deslocado — Stuart entra na brincadeira.
— Já chega — peço com os olhos focados na janela que mostra a cidade que nunca dorme.
— O mini Dare é único. Nos tratou como se fôssemos seres de outro mundo. Como é possível um garoto da idade dele saber tanto sobre Star Wars? Eu nem sabia que é uma franquia de filmes até hoje. — Stuart coça a cabeça.
Arthur deu uma canseira no cérebro dele.
— Não acredito que você pensou que Chewbacca fosse algo de comer — Billie zoa Stuart, que dá de ombros. Para ele isso era irrelevante.
— Uma coisa é certa — Maison conseguiu chamar a atenção de todo mundo. — Luna mudou. Acho que ser mãe solteira exigiu isso dela.
Os olhares se voltaram para mim. Eu sei bem o que querem.
— Ela disse porque não te contou sobre Arthur? — Billie perguntou, atento a minha reação.
Assinto e volto a olhar através da janela.
— Não vai nos dizer? — Billie insiste.
“Seria a minha destruição assim como Angelina foi a sua”, engulo em seco ao lembrar de suas palavras.
— Não — respondo.
***
Os caras perceberam que eu precisava ficar sozinho depois do dia agitado que tive. Decidiram adiar o retorno à Los Angeles para o dia seguinte. Estavam cansados e tudo que necessitavam era de uma boa cama.
Eu precisava conversar com alguém que me ajudasse a entender esse emaranhado de emoções que estou sentindo desde que descobri sobre Arthur. Emoções fortes que foram desenterradas e ressurgiram com meu reencontro com Luna. O sentimento de perda e traição.
Depois de um banho, me jogo na cama com o celular em mãos. Faço uma vídeo chamada para meu pai, ele atende no segundo toque.
Sua imagem do outro lado da tela me tranquiliza. Meu pai, que sempre esteve e está presente, desde que me entendo por gente, e que sempre está disponível mesmo quando está ocupado.
— Espero que seja importante, sua mãe e eu estamos prontos para uma segunda rodada de sexo.
Nunca houve tabu na minha família. Sempre falamos de tudo. Nossos pais falarem sobre sexo e que o fazem é a coisa mais natural do mundo, mas ainda assim eu não precisava dessa informação.
— É, sim. Tenho uma novidade. Cadê a mamãe?
— Estou aqui — ela se junta a ele, sorrindo. — Espero que seja algo bom, pois seu pai e eu...
— Eu sei. Papai já falou, não precisa repetir. — Eu a interrompo bem a tempo. Não preciso que repita o que estavam fazendo antes de eu ligar.
— Então conte — ela manda impaciente.
— Hoje descobri que sou pai — falo sem enrolação.
Os dois ficaram olhando através da tela como se não tivessem entendido direito.
— Acredito que quis dizer que vai ser pai. Por Deus, filho, não me diga que engravidou uma fã. — O pai fala retomando a compostura e tirando conclusões precipitadas.
Sorrio, mas meu sorriso com covinha não tem o mesmo efeito pela tela do celular.
— Não, senhor Masters, eu sou pai de um garoto muito inteligente chamado Arthur. Ele tem sete anos e a mãe é a Luna.
Os olhos de minha mãe se arregalam de surpresa com a boca aberta, bem aberta. O sonho de sua vida foi realizado.
— Luna Duarte? Essa Luna? — Mamãe consegue perguntar.
— Mas como? Pensei que... — meu pai para, com certeza entendeu a situação. — Ela procurou você depois de sete anos para contar sobre a criança?
Nego com um balançar de cabeça.
— Foi por acaso. Luna nunca teve a intenção de contar sobre meu filho. Eu a vi no Central Park, por um mero impulso fui atrás dela e então ela estava com Arthur. No momento que coloquei os olhos nele soube que era meu. Vou enviar uma foto e vocês vão entender o que quero dizer.
Explico à eles rapidamente os acontecimentos daquele dia, incluindo minha breve conversa com Luna. Meus pais ouviram tudo sem interromper, falando somente quando concluí a narração dos fatos.
— Como você se sente com tudo isso? — Meu pai perguntou. Minha mãe ainda está absorvendo tudo.
— Traído, Luna me privou de conviver com meu filho e agora quer tratar disso tudo com advogados como se fosse impossível ficar mais que cinco minutos no mesmo ambiente que eu.
— Eu não a julgo, você foi e continua sendo um i****a narcisista que só pensa nos seus sentimentos. — Minha mãe fala ríspida.
— Gwendoline — meu pai a adverte.
— É a verdade, Luna é uma mulher incrível que amava seu filho acima de qualquer coisa. Dare não a valorizou. Preferiu ficar preso no sofrimento que o suicídio da Angelina causou. Você não buscou se reerguer, apenas se afundou nessas emoções. Nunca se importou com a Luna, apenas consigo mesmo. — Mamãe não mede as palavras.
— Porque a Angelina sempre entra na conversa? Estamos falando de Luna, a mulher que escondeu meu filho de mim, quando eu poderia tê-los assumido. Teria casado com ela. Arthur cresceria com os pais, em uma casa grande com jardim e piscina. Uma base familiar sólida. — Praticamente grito.
— Falou isso para ela? Sobre o casamento? — Meu pai pergunta sério.
Assinto.
— Qual foi a resposta dela? — Ele continuou.
— Que ela teria se casado, mas isso a destruiria.
Meus pais se entreolham.
— Sabe porque ela chegou a essa conclusão? — Minha mãe pergunta mais calma.
Como não respondo, ela o faz por mim.
— Você não a amava. Luna e você seriam infelizes. Isso refletiria no seu filho e ele também seria infeliz. Arthur parece uma criança infeliz?
— Não — minha resposta quase não sai.
— Tem todo o direito de se sentir magoado por Luna não contar sobre o nosso neto, mas agora não é tempo de remoer o que teria sido e sim o que pode ser. Há sete anos você estava tão devastado. Sentiu-se traído, abandonado e magoado por Luna tê-lo deixado, quando ela prometeu salvá-lo. Mas filho, na época você não queria ser salvo. Luna só se perderia em meio ao caos que eram suas emoções refletidas naquela música que você compôs. — Meu pai fala usando a sensatez.
— Eu te amo, querido, mas não posso passar a mão na sua cabeça e dizer que Luna é a errada da história. Não quando sei que ela foi a mais magoada. Luna era sua namorada e você declarou seu amor para sua ex-morta em um show ao vivo para quase 10 mil pessoas. Você a humilhou publicamente. Sinto muito, bebê, eu também teria mantido distância do homem que me causou tanta dor.
Internalizo as palavras da minha mãe. Os olhos de Luna naquela noite estavam nublados de mágoa.
— Tivemos uma boa relação — tento acreditar nisso.
— Tinham? Tem certeza? — Meu pai pergunta.
— Porque não reflete sobre isso? Sobre seu namoro, seus sentimentos e os sentimentos de Luna. Tenho certeza que no fim, vai saber o que dizer, como agir. — Mamãe aconselha.
— Amo vocês — falo antes de desligar.