Frio no coração

1908 Palavras
Capítulo — Frio no coração. " Um coração que sente frio representa uma alma que está perdida." Rosalia Suspiro, mil pensamentos vêm a minha mente. Em principal sobre o amor amor, eu aprendi, não é aquilo que eu vejo quando me olho no espelho. Não é a imagem perfeita que eu tento sustentar, nem a versão polida que ofereço ao mundo como quem estende uma fotografia cuidadosamente escolhida. O amor começa exatamente quando essa imagem falha. Quando a superfície racha. Quando aquilo que eu escondo, finalmente, respira. Eu não quero ser vista como a irmã de Dante Grecco quero que me enxerguem por quem eu sou. E eu acho que encontrei essa pessoa. Esse alguém que me vê. E não ao meu sobrenome. O amor não nasce na perfeição. Ele nasce na falha. Naquilo que escapa. No que não ensaiei. E eu desejo que esse amor me desmonte. " Luca, meu Luca." Ele me pega quando eu já não consigo mais sustentar a face impassível, tentando fingir que ele não mexe comigo. Eu sei que Luca percebe quando minha voz treme. Quando minhas mãos hesitam. Quando meus olhos denunciam aquilo que eu não queria confessar: estou apaixonada. Sinto que saio do meu eixo. Porque amar é perder o controle. É aceitar que existe alguém que pode atravessar minhas defesas sem pedir licença. Que pode bagunçar meus pensamentos, alterar meu ritmo, mexer na ordem silenciosa dos meus dias. Amar é deixar que alguém ocupe o espaço onde antes eu reinava sozinho. E eu estou permitindo que Luca faça isso. E isso assusta. Assusta porque amar é abdicar da soberania. É reconhecer que, por mais que eu tente, não posso prever o outro. Não posso desenhar seus movimentos. Não posso garantir que ele fique. O amor é sempre um risco, e talvez seja exatamente por isso que ele seja tão verdadeiro. O amor não é simetria. Não é reflexo. Não é a contemplação de mim mesmo no olhar do outro. O amor é ruptura. Eu estou sofrendo isso. É quando eu olho para alguém e percebo que já não sou o mesmo. Que meus limites foram deslocados, que minhas certezas ficaram menores, que meu mundo ganhou uma dimensão que antes não existia. Amar é aceitar que o outro me transforma — mesmo quando eu não quero, mesmo quando eu resisto. E, ainda assim, eu continuo. Porque o amor também é rendição. Não a rendição fraca, mas aquela silenciosa, profunda, quase inevitável. Aquela que acontece quando eu percebo que não quero mais vencer. Que não quero mais parecer forte o tempo todo. Que não quero mais sustentar a imagem de quem nunca precisa de ninguém. Amar é admitir que eu preciso. Que eu desejo. Que eu espero. Que eu sinto falta. E eu sinto tudo isso por Luca. E talvez seja isso que mais me surpreenda: o amor não me diminui. Ele me revela. Ele arranca as máscaras que eu usei para parecer inteira e me mostra que ser inteira, na verdade, é aceitar minhas partes feias. O calor da caneca de porcelana entre as minhas mãos é a única coisa que me ancora à realidade do meu apartamento na Île Saint-Louis. O chocolate quente, espesso e com um toque de canela, solta uma fumaça que dança diante dos meus olhos, desenhando formas que, inevitavelmente, assumem o contorno do maxilar dele. Paris, lá fora, é um borrão de luzes douradas e sombras azuladas, mas, aqui dentro, o silêncio é preenchido apenas pelo eco das palavras de Luca. "Peça rara." Eu sorrio contra a borda da caneca, sentindo o açúcar derreter na ponta da língua. Minha mente é um carrossel em alta velocidade. Eu repasso cada segundo: o modo como ele segurou a xícara, a inclinação da cabeça quando eu falava sobre o balé, a pressão reconfortante do seu cachecol no meu pescoço. É como se eu estivesse vivendo dentro de um dos meus livros proibidos, aqueles que escondo com cuidado porque o mundo real, o mundo não costuma permitir finais felizes ou heróis misteriosos que não usem armas na cintura. Esses livros são para onde viajo quando canso da realidade. Minha sapatilha de ponta, jogada no canto do sofá, parece um artefato de uma vida antiga. O balé sempre foi meu único escape — até encontrar os livros— minha única forma de gritar sem abrir a boca. Mas agora, a música que toca nos meus ouvidos não é Tchaikovsky. É o timbre grave de Luca. Eu fecho os olhos, deixando-me levar pela lembrança do cheiro dele — aquele amadeirado que me faz sentir, pela primeira vez, que a gaiola de ouro onde vivo pode ter a porta aberta. Minhas Lembranças é cortada pelo barulho que quebra o silêncio. O celular sobre a mesa de centro vibra, cortando o feitiço. O aparelho desliza alguns milímetros, a luz da tela iluminando o teto escuro. Meu coração, que estava em um adágio preguiçoso, dá um salto de susto. Por um segundo, a esperança tola de adolescente faz meu estômago revirar: será que ele está sentindo minha falta ? Será que está pensando em mim? Eu me inclino e pego o telefone. O nome no visor faz meu sorriso murchar instantaneamente. DANTE. — Meŕda — sussurro, sentindo uma onda de irritação subir pelo meu pescoço. Eu bufo, jogando a cabeça para trás no encosto do sofá. Eu sei exatamente o que isso significa. Aqueles homens de terno escuro, as sombras que meu pai e meu irmão chamam de "proteção", já devem ter feito o relatório do dia. "O alvo se encontrou com um desconhecido no café." "O alvo sorriu para um estranho." "O alvo agiu de forma suspeita." Eles não são seguranças; são fofoqueiros profissionais com permissão para carregar armas. Penso em ignorar. Penso em apertar o botão de silenciar e voltar para o meu chocolate quente e meus devaneios. Mas a lembrança do último inverno em Milão me atinge como um balde de água gelada. Eu não atendi Dante por três horas e, na manhã seguinte, ele desembarcou no aeroporto com um olhar que poderia incendiar cidades, pronto para me arrastar de volta para a villa na Itália, sob o pretexto de que "o mundo não é seguro para uma Grecco desatenta". Se eu não atender, ele atravessa a fronteira. E, se ele vier agora, vai sentir o cheiro de segredo no ar. Vai ver que meus olhos não estão focados no Grand Prix. E, acima de tudo, vai tirar Luca de mim antes mesmo de eu descobrir quem ele realmente é. Com um suspiro dramático, deslizo o dedo pela tela e coloco o aparelho no ouvido. — Ciao, Dante — digo, tentando manter a voz leve, quase entediada. — Você demorou a atender — a voz dele vem baixa, carregada daquela autoridade natural que me faz sentir como se eu tivesse cinco anos de idade novamente. — Estava dormindo, Rosália? Ou estava ocupada demais "voando", como me disseram? Eu reviro os olhos para as paredes do apartamento. — Eu estava ensaiando, Dante. Madame Claire é uma tirana, você sabe disso. Meus pés estão latejando e eu só queria um pouco de paz. Onde está a confiança? — A confiança morreu faz tempo, sorellina. Especialmente quando recebo fotos de você em um café com um homem que não consta em nenhum dos meus registros de segurança. Quem é ele? Meu sangue gela por um milésimo de segundo, mas eu sou uma Grecco. Aprendi a resolver certas questões, mesmo na " marra" antes mesmo de aprender a fazer um plié. — Ele? Ah, você quer dizer o homem do café? Dante, sério? Eu derrubei um latte inteiro no terno dele. Eu estava tentando ser educada e não causar um incidente diplomático entre a Itália e a França por causa de uma mancha de leite. Ele foi apenas um cavalheiro. — Um cavalheiro com um terno de treze mil euros e um olhar que permaneceu tempo demais em você — Dante rebate, e eu consigo ouvir o som de um isqueiro abrindo do outro lado da linha. Ele está estressado. — Não brinque comigo, Rosália. Eu não pago aqueles homens para vigiarem o trânsito. Eu os pago para garantirem que ninguém se aproxime de você sem que eu saiba até o tipo sanguíneo do sujeito. — Ele é apenas um homem, Dante! — Eu me levanto, andando de um lado para o outro, a caneca de chocolate agora esquecida na mesa. — Um francês, ou talvez um polones, eu não sei. Nós conversamos sobre Paris, sobre arte. Ele não é um dos "seus" conhecidos, e é exatamente por isso que foi tão agradável. Ele não me olhou como se eu fosse uma moeda de troca ou a irmã de Dante Grecco. — Você é uma Grecco. Não existe "apenas um homem" para você. Existem ameaças e existem aliados. Onde ele está agora? Ele te seguiu? — É claro que não me seguiu! — minto, omitindo o fato de que eu adoraria que ele tivesse seguido. — Ele seguiu o caminho dele e eu fui para o meu ensaio. Madame Claire quase me matou pelo atraso, inclusive. Se você quer se preocupar com algo, preocupe-se com o fato de que meu arabesque está instável, porque eu estou exausta de ser vigiada como uma prisioneira em Paris. Houve um silêncio pesado na linha. Dante solta a fumaça do cigarro, um som que eu conheço bem. — Você está estranha, Rosália. Sua voz está mais... afiada. Se esse homem aparecer perto de você de novo, eu quero o nome dele. Ou eu mesmo vou buscá-lo. — Você é paranoico. Paris está me fazendo bem, Dante. Pela primeira vez, sinto que posso respirar sem pedir permissão. Por favor, não estrague isso vindo para cá com seu exército. Meu aniversário está chegando, você prometeu que eu teria liberdade. — Liberdade dentro dos limites da segurança — ele corrige, o tom suavizando um pouco, mas ainda firme. — Eu vou a Paris para o seu aniversário. Mas, até lá, se eu souber de mais um "encontro casual", eu te coloco no primeiro jato para a Calábria e você termina o ano letivo trancada no quarto, com professores particulares. Entendido? — Entendido, "Don" Dante — respondo com sarcasmo, embora, por dentro, eu esteja tremendo com a ameaça. — Agora, se me der licença, meu chocolate está esfriando e eu preciso descansar. — Buonanotte, sorellina. E Rosália... não se esqueça de quem você é. — Eu nunca esqueço — sussurro antes de desligar. Jogo o celular no sofá como se ele estivesse pegando fogo. Meu coração ainda bate forte contra as costelas. Dante é perigoso, e ele não aceita mistérios. Mas, enquanto eu olho para a janela, para a imensidão de Paris, uma teimosia nova e vibrante cresce no meu peito. Ele pode ter os seguranças, ele pode ter o nome da família, ele pode ter o controle sobre o meu passaporte. Mas ele não tem o que eu senti naquele café. Dante vive em um mundo de sombras e guerra, mas eu... eu acabei de descobrir a luz nos olhos de Luca. E, por essa luz, eu estou disposta a mentir para o homem mais perigoso da Itália quantas vezes forem necessárias. Caminho até a janela e apoio a testa no vidro frio. — Me encontre de novo, Luca — peço em voz baixa para o céu estrelado. — Antes que o meu mundo decida fechar as cortinas para nós dois.
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