Capítulo: Flores do amor
" Ela enfeita a vida e traz cor, é a flor do amor."
Rosália
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As ruas de Paris não parecem mais feitas de pedra e asfalto; elas são feitas de nuvens, de um algodão-doce invisível que me faz flutuar a cada passo apressado. O ar frio que antes castigava meu rosto agora parece um carinho, uma brisa cúmplice que carrega o eco da voz dele.
Eu corro, minhas botas batendo ritmadamente contra a calçada da Rue du Faubourg Saint-Honoré, mas meu corpo não sente o cansaço. Como eu poderia sentir cansaço quando meu coração decidiu se transformar em um beija-flor frenético, batendo as asas tão rápido que temo que ele escape pela minha garganta?
Estou atrasada. Muito atrasada. Madame Claire vai ter um ataque, vai dizer que a disciplina é a alma da bailarina e que o corpo de balé não espera por desertoras. Mas o que é um "pas de deux" técnico perto da coreografia que acabei de viver naquele café? Coreografia do meu coração.
— Lucca... — sussurro o nome dele para o vento, apenas para sentir o gosto das sílabas na minha língua.
É um nome que soa como música clássica, algo robusto e, ao mesmo tempo, sofisticado. Eu fecho os olhos por um segundo enquanto corro e, imediatamente, a imagem dele se projeta na minha mente com uma nitidez que me faz tropeçar levemente. Aqueles olhos... um azul tão profundo que parece que eu poderia mergulhar neles e esquecer quem sou. Não é apenas a cor; é o modo como ele me olha. Como se eu fosse a única pessoa em toda a França. Como se ele estivesse lendo capítulos da minha alma que nem eu mesma tive coragem de abrir.
Eu nunca senti isso. Nunca. Na escola em Milão, os meninos da minha idade parecem tão... básicos. Eles falam de futebol, de videogames, ou tentam me impressionar com a conta bancária dos pais. Mas Lucca? Lucca é um homem. Um homem de verdade. Ele tem aquele mistério que as capas dos livros de romance que eu escondo debaixo do colchão tentam descrever, mas falham miseravelmente. Ele é educado de um jeito que parece ter vindo de outra época, um príncipe que trocou o cavalo branco por um intelecto afiado e um sorriso que me deixa sem defesas.
Lembro do toque dos dedos dele nos meus. Foi apenas um segundo, um roçar de pele, mas juro que senti uma descarga elétrica percorrer meu braço e se alojar bem no centro do meu peito. Freud tentaria explicar isso como alguma projeção da figura paterna ou algo complicado, mas Freud não conheceu Lucca Boldrini. Isso não é psicologia; é destino. É aquela força invisível que as pessoas românticas chamam de "amor à primeira vista" e que eu, até hoje de manhã, achava ser apenas um recurso literário barato.
Estou ofegante quando dobro a esquina, o prédio do estúdio finalmente à vista. Meu relógio marca quinze minutos de atraso. Eu deveria estar apavorada, mas estou esfuziante. Sinto um calor estranho subindo pelo meu pescoço, uma mistura de adrenalina e aquela sensação deliciosa de ter um segredo só meu. Pela primeira vez na vida, não sou apenas a "irmã do Don", a menina vigiada por homens de terno escuro que ficam à espreita em carros pretos. No olhar de Lucca, eu fui Rosália. Apenas Rosália. A bailarina, a italiana, a mulher que ele chamou de "peça rara".
— Ele me chamou de rara... — dou um pulinho de alegria no meio da calçada, ignorando os olhares curiosos dos parisienses elegantes que passam por mim.
O cheiro dele ainda está impregnado no meu casaco, ou talvez na minha memória olfativa. É algo amadeirado, com um toque de tabaco caro e algo mais... algo que cheira a poder e segurança. Quando ele colocou o sobretudo dele sobre meus ombros, eu me senti pequena, mas não de um jeito r**m. Eu me senti protegida, como se nada no mundo pudesse me tocar enquanto eu estivesse sob a sombra dele. É loucura, eu sei. Eu o conheci ontem, literalmente derrubei café nele! Mas há conexões que não precisam de tempo; elas precisam apenas de um encontro de almas.
Chego à porta do estúdio e tento recompor minha postura. Aliso meu vestido de tricô, verifico se meu cabelo não está um desastre completo e respiro fundo. Preciso voltar para a realidade. Preciso entrar naquela sala, ouvir as correções ácidas de Madame Claire e fingir que meu mundo não virou de cabeça para baixo nas últimas duas horas.
Corro para o vestiário, me troco em tempo recorde. Meu peito parece que vai explodir de felicidade.
Faço o percurso até a sala onde serão os ensaios flutuando em minha bolha de alegria. Se amar é isso eu quero sentir a minha vida toda.
Empurro as portas duplas e o cheiro de resina e suor me atinge. O piano já está tocando. O som das sapatilhas batendo no linóleo ecoa pelo corredor. Eu me enfio no vestiário, trocando de roupa com uma velocidade que desafia as leis da física. Enquanto puxo a meia-calça rosa-claro, meus dedos tremem.
Eu sou uma adolescente, eu sei disso. Sei que minhas amigas diriam que estou sendo dramática, que é apenas uma queda por um homem bonito. Mas elas não viram o jeito que ele move as mãos. Elas não sentiram a intensidade daquela conversa. Lucca não me tratou como uma criança. Ele me ouviu. Ele validou meus medos sobre a "gaiola de ouro" do meu pai sem que eu precisasse dar detalhes. Como ele pode saber tanto sobre mim em tão pouco tempo?
"Talvez em outra vida tenhamos sido muito próximos", ele disse.
Meu coração dá um solavanco só de lembrar do tom grave da voz dele. Se for verdade, eu quero passar o resto desta vida recuperando o tempo perdido.
Entro na sala de ensaio de fininho, tentando me misturar ao grupo que está fazendo exercícios de barra. Madame Claire me lança um olhar que poderia congelar o inferno, mas eu apenas dou um sorriso apologético e ocupo meu lugar. Minha perna sobe em um "grand battement" e, pela primeira vez, eu não estou focada na técnica perfeita. Estou dançando para ele. No espelho à minha frente, não vejo apenas meu reflexo suado e concentrado. Vejo o rosto de Lucca.
Cada salto, cada pirueta, cada extensão de braço é uma mensagem enviada ao universo, esperando que chegue até ele. Eu me sinto invencível. Dante, meu pai, sempre disse que o mundo é um lugar perigoso e que eu devo desconfiar de todos. Mas ele nunca me falou que o perigo poderia ser tão... encantador. Ele nunca me avisou que eu poderia perder o chão e, ainda assim, sentir que finalmente estou voando.
O ensaio prossegue, e eu erro um passo de "allegro". Madame Claire para a música e me encara com as sobrancelhas erguidas.
— Rosália Grecco, você deixou sua mente na Itália hoje? — ela pergunta, a voz carregada de sarcasmo francês.
— Não, Madame. — respondo, sentindo minhas bochechas arderem, mas o sorriso ainda teima em aparecer. — Eu apenas... encontrei uma nova inspiração.
As outras meninas cochicham, mas eu não me importo. Elas não sabem. Ninguém sabe. Entre as notas do piano e o esforço físico, eu me perco em devaneios sobre o meu aniversário de dezessete anos, que está chegando. O que Dante terá planejado? Ele disse que me encontraria aqui em Paris. E eu acredito nele. Eu acredito em cada palavra, em cada gesto, em cada silêncio compartilhado do meu irmão. Ele é o meu anjo protetor, sempre vai ser.
Quando o ensaio finalmente termina, eu estou exausta fisicamente, mas minha alma está em festa. Caminho até a janela do estúdio e olho para a rua lá embaixo. Paris parece mais brilhante, as luzes da cidade começando a piscar conforme o entardecer chega. Em algum lugar, entre aqueles telhados de ardósia e avenidas largas, Lucca está pensando em mim. Eu sinto isso. É uma certeza que vibra nos meus ossos.
Pego meu celular na bolsa e não há mensagens dele , mas há uma sensação de preenchimento que eu nunca conheci. Eu não sou mais a Rosália que acordou hoje de manhã. Eu sou uma Rosália que descobriu que o amor não é apenas uma palavra em um libreto de ópera. É um azul metálico, um cheiro de orvalho e uma promessa que faz a vida valer a pena, mesmo sob o céu gelado de Paris.
Eu estremeço, mas não é de frio. É de expectativa. O jogo da vida começou de verdade, e eu m*l posso esperar pelo próximo movimento. Voe, pequena borboleta... eu repito para mim mesma, lembrando do que ele disse. E eu vou voar. Direto para os braços do meu mistério.
De repente uma voz me faz ter um sobressalto.
— Rosália, seu arabesque está bonito, mas falta controle na descida. Você está deixando a emoção correr na frente da técnica.
— Desculpe, Madame. Vou ajustar.
— Não peça desculpas, execute melhor. Sustente o eixo, alongue o pescoço e respire.
— Sim, Madame. Vou tentar novamente.