Capítulo 02 - Me Deseje Sorte (Parte 02)

1096 Palavras
Felizmente, seus pensamentos turbulentos foram interrompidos assim que ela abriu a porta de seu apartamento e um pequeno vulto cinza saltou sobre ela, tentando avidamente alcançar seu rosto. Rindo amorosamente, Missy fechou a porta atrás de si e se abaixou, pegando sua pequena cadelinha no colo e permitindo que ela lambesse seu rosto tanto quanto quisesse. De todas as coisas que a faziam feliz, Rey era, sem dúvida, a mais pura de todas elas. Ela podia estar aos prantos, como acontecera no último sábado depois de toda aquela situação com Liam, mas ver aquela bolinha de pelos cinza sempre trazia um pouco alegria para seu coração. Rey era uma vira-latas que, muito provavelmente, nascera da mistura entre um Cocker Spaniel e algum outro vira-latas simpático, já que, apesar de ter algumas características daquela raça específica, mesmo depois de adulta ela não crescera mais do que um filhote, tendo as orelhas peludas mais curtas, o pelo cinza-claro terrivelmente rebelde e os olhos amendoados mais doces e gentis do mundo. Fora por aqueles olhos que Missy havia se apaixonado há cinco anos, quando Megan sugerira que ela adotasse um filhote para ajudá-la a lidar com a dor da perda de Jonathan. E não havia dúvidas de que fora a melhor decisão que ela poderia ter tomado. Rey era um raio de sol ambulante, que iluminava tudo ao seu redor, não importava quão escuros os céus pudessem estar. — Oi, lindinha. – ela a cumprimentou, acariciando-a atrás de suas orelhas quando Rey finalmente havia ficado satisfeita em lambê-la – Senti saudades também. Abanando a cauda alegremente, sua cachorrinha começou a saltitar ao redor, claramente querendo brincar, mas Missy se desculpou com um sorriso triste. — Desculpe, não posso brincar agora. Preciso me arrumar para a festa da Sra. Newton. Quase como se estivesse entendendo, Rey parou de saltitar e sentou-se, inclinando a cabeça para o lado e observando-a atentamente. — Eu sei, também estou preocupada. – Missy suspirou, novamente inclinando-se para fazer carinho nela – Liam está reagindo pior do que eu imaginava e... Não sei. Já não tenho certeza se isso é apenas uma briga comum que qualquer casal teria ou se é um sinal de que talvez não devêssemos insistir em ficar juntos. – Rey continuou a encará-la intensamente, o que fez Missy sorrir tristemente – É, não ter experiência nisso realmente complica as coisas. Torça por mim, está bem? – ela beijou a cabeça macia e felpuda – Tenho esperanças de que talvez possamos nos resolver essa noite. Mas, é claro que eu não posso ir sem antes colocar o seu jantar... – ela riu quando Rey saltou, latindo animadamente enquanto corria até a cozinha, onde seus pratos de comida e bebida ficavam. Após alimentar sua amiguinha e ter certeza de que os jornais haviam sido trocados e seus brinquedos de morder estavam todos à disposição, Missy finalmente tomou um banho e começou a se vestir. Geralmente, ela optaria por algo confortável, como uma camiseta ou um suéter macio, uma calça jeans e um par de tênis, mas, sabendo que aquela era uma ocasião especial, Missy havia decidido usar um vestido que havia ganhado no natal anterior. Fora um presente misterioso, deixado para ela sob a árvore de natal dos Knight quando eles acordaram na manhã do dia 25 de dezembro depois dela ter passado o natal com eles. Mesmo após muito perguntar para os Knight, ela jamais descobrira quem havia lhe dado aquela linda caixa de presente, com laços e babados, cujo conteúdo era um delicado e sedoso vestido cor de lavanda que, para seu total encantamento, ao olhar com mais atenção, ela percebera que estava repleto de minúsculas estampas do anime Sailor Moon. Os franzidos na parte de cima tinham abraçados confortavelmente seus s***s e a saia leve terminava exatamente na altura de seus joelhos. Era, sem dúvida, uma de suas peças de roupa favoritas e ela a usara apenas em ocasiões muito especiais, como o aniversário de 07 anos de Eleanor Bryant, que ela agora considerava sua sobrinha, no mês anterior. Aquele vestido a fazia se sentir bonita e, ao mesmo tempo, também parecia transmitir parte da personalidade dela. Aquelas histórias faziam parte de quem ela era e tê-las com ela, mesmo que sutilmente, ajudava-a a se sentir mais confiante. Todavia, assim que seus olhos encontraram seu reflexo no espelho, tendo tempo apenas de observar o vestido, o pequeno casaco branco que ela havia colocado por cima e seus sapatos cor-de-rosa de salto baixo, ela não se sentiu bonita. Na verdade, tudo o que ela conseguiu foi que as palavras de Liam voltassem para sua mente novamente, fazendo seu estômago pesar, como se houvesse uma pedra em seu peito. É melhor você deixar de ser puritana e aproveitar esse momento! Não é como se outro cara fosse ser piedoso como eu e fazer o esforço de tentar te comer! Fora apenas a fúria do momento ou ele dissera aquilo porque realmente pensava assim? Tinha se tornado corriqueiro para ela, enquanto crescia, ser elogiada por sua inteligência e sua doçura, mas nunca por sua beleza. E, depois de um ano trabalhando rodeada de modelos, por mais plurais que elas fossem, ela também tinha perfeita ciência de que estava abaixo do padrão de mulher que a maioria das pessoas apreciava: ela era magra demais em algumas partes e cheinha demais em outras, como sua mãe gostava de ressaltar. Ainda assim, mesmo sabendo que linda e atraente certamente não eram palavras que poderiam descrevê-la, o que Liam dissera a tinha machucado. E, mesmo depois de três dias, ainda doía. Muito. E ter se olhado no espelho, com a simples pretensão de se sentir mínima e humildemente bonita, parecia ter esfregado sal naquela ferida. Piscando as lágrimas que ela não percebera que estava prestes a derramar até que elas pesassem em seus olhos, Missy saiu da frente do espelho quase como se estivesse fugindo. Bem, para ser sincera, ela realmente estava. Não havia sentido em continuar a se torturar, encarando seu reflexo daquela maneira. Com um suspiro, ela pegou sua bolsa novamente, agradecida pelo carro do aplicativo estar a apenas dois minutos de distância de sua casa. E, antes que seus pensamentos pudessem destruir ainda mais sua autoestima, o motorista enviou-lhe uma mensagem, dizendo que estava na portaria. Fazendo uma oração silenciosa para que aquela noite pudesse ser piedosa com ela e as coisas com seu namorado finalmente se resolvessem, ela deu um último beijo em Rey, antes de finalmente começar a se preparar para encarar a festa de sua sogra. — Me deseje sorte, lindinha.
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