The cab, the stairs and the hotel

4383 Palavras
Zayn abriu os olhos com um pouco de dificuldade na manhã seguinte, mas acordou sentindo um cheiro familiar de café e torradas. Abriu os olhos devagar e viu alguém abrindo as cortinas deixando a claridade entrar aos poucos. Reconheceu os cabelos presos num coque e as costas largas com braços tatuados de seu namorado. — Bom dia. — Styles disse aproximando-se devagar, deixando no criado mudo uma bandeja com café da manhã. — Ei. — Zayn não se importava de ser acordado normalmente, especialmente quando já passavam das dez da manhã. Mas acordou várias vezes durante a noite e achou que precisava de mais algumas horas de sono para estar completamente descansado. — Dormiu bem? — Harry aproximou-se para dar um beijo no namorado, mas Zayn virou o rosto sutilmente, sentindo Styles beijar-lhe a bochecha. — Mais ou menos. — Zayn foi honesto, pegou a xícara de café e tomou um gole. Harry ajeitou-se na cama e percebeu mesmo que o namorado estava diferente, um tanto distante e chateado. Obviamente Styles imaginou que fosse pelo dia anterior. — Amor, me perdoe. — Harry disse m*l conseguindo esconder a ressaca que sentia. Zayn percebeu pelas olheiras e pela expressão de quem definitivamente estava sentindo uma dor de cabeça imensa. — Eu sequer passei o dia com você e ainda por cima bebi demais. — Esqueça isso, está tudo bem. — Zayn disse sem olhar nos olhos do outro. Bebeu outro gole de seu café. — Então por que não dormiu comigo? — Harry perguntou encarando a janela do quarto, percebendo que Malik m*l conseguia olhar pra ele. Zayn não respondeu. Uma lembrança de Paris lhe atingiu antes que qualquer palavra saísse de sua boca. Já se conheciam há mais de um ano, mas só estavam naquele relacionamento por cerca de sete meses e Zayn, pela primeira vez, teve que reconhecer que trazer Harry para América consigo foi um ato de egoísmo e negligência. Seu pai havia lhe ensinado a cumprir sua palavra, mas havia também lhe ensinado a não mentir sobre como se sentia. — Lembra quando estávamos passeando na Champs Elysées, naquela tarde extremamente fria em Paris? — Zayn disse com um sorriso leve, olhando para a própria xícara de café. Não precisou olhar para o namorado para saber que ele também sorriu. — É claro que sim, foi nosso terceiro encontro. — Harry disse sem tirar os olhos da janela. O sol que entrava deixava seus olhos ainda mais verdes e mais bonitos, apesar de incomodá-lo. — Lembra o que prometemos? — Zayn perguntou percebendo que o namorado tinha mesmo uma boa memória. — Que nunca mentiríamos um para o outro. — Harry disse engolindo a seco. Pensou em Louis, pensou em como se sentia e achou que talvez Zayn estivesse percebendo. — Harry… — Zayn começou suspirando, sentindo aquele cheiro de café invadir o quarto. — Você está feliz comigo? O pintor não respondeu de imediato. Sorriu triste, porque queria muito dizer que sim. Sabia que o problema não era ele ou Zayn, o problema não era Paris ou a Califórnia, o problema eram as circunstâncias e os ambientes que mudam a todo momento, e os afetavam. Styles sabia de tudo aquilo e sabia que Louis andava mexendo com seu coração, não poderia ser mais negligente de negar aquilo. — Temos brigado muito. — Zayn continuou devido ao silêncio do outro, que tornou as coisas ainda mais dolorosas. — E não somos os mesmos de quando estávamos na Europa. — Eu sei que isso tem nos afastado, talvez apenas nos perdemos um pouco no caminho. — Harry disse dando de ombros, mas triste. — Mas você está certo, prometemos que não mentiríamos e acho que é necessário sim que sejamos francos com esse relacionamento, ninguém aqui quer perder tempo, Zayn. — Eu concordo. — Zayn disse e percebeu que Harry massageou as têmporas, provavelmente com a dor de cabeça aumentando. — Harry... — Zayn chamou pelo namorado porque ele havia lhe dado as costas quando levantou da cama. — Tem alguma coisa acontecendo entre você e o Louis? Harry virou-se na direção de Zayn e permaneceu calado. Encarou seus olhos por alguns segundos, mas desviou. Malik sempre soube que o namorado era um péssimo mentiroso, Styles não tinha um centímetro de malandragem naquele corpo. O viu passar uma das mãos pelo rosto, cansado e não tendo a menor ideia do que dizer, o que tornava as coisas ainda mais óbvias. Já que se nada estivesse acontecendo, bastava dizer não. Ele titubeou por muito mais tempo do que Zayn estava esperando. — Vocês transaram? — Zayn perguntou diante do silêncio do outro. — Enlouqueceu? — Harry tinha um leve tom de desespero na voz. — É claro que não, Zayn! — Tudo bem, eu só perguntei. — Malik realmente acreditou pelo choque do namorado ou ouvir aquilo. — Eu vejo o jeito que você olha pra ele pra ser sincero. — É, precisa ser um para reconhecer o outro. — Harry disse sussurrando, ligeiramente m*l humorado. — O que quer dizer com isso? — Zayn pôs a xícara de café de volta na bandeja e levantou-se da cama. — Que também vejo você olhar pro Liam. — Harry tinha um semblante sério, franziu o cenho e encarou um Zayn um pouco surpreso. — Vocês transaram? — Ele repetiu a pergunta com clara ironia. — Harry, eu não estou tendo essa conversa pra acusar você de coisa alguma. — Zayn respirou fundo e tentou se aproximar do outro, mas Harry se afastou no mesmo segundo. — Harry! — É bem a sua cara mesmo jogar as coisas pra cima de mim. — Styles estava começando a se alterar. — Você é quem está de caso com Liam mas quer jogar a culpa em mim, por causa de algo entre eu e Louis que nem existe! — Eu não estou jogando nada pra cima de você! — Zayn defendeu-se igualmente alterando o tom de voz. — E acho que você não está numa posição de vítima aqui! Se você e Louis estão interessados um no outro, por que não tomou iniciativa dessa conversa? — Porque nada está acontecendo! — Styles falava cada vez mais alto. — Ele é seu melhor amigo! E não fuja da minha pergunta! — Não! — Zayn respondeu gritando. — Eu e Liam não dormimos juntos. — Ele disse convicto e o silêncio finalmente se fez entre os dois novamente. Harry respirou fundo percebendo mesmo que estava perdendo a linha e Zayn mais ainda. Não era do feitio de ambos terem aquele tipo de discussão, nunca tiveram. Styles era um homem calmo, ponderado e, até aquele dia, Zayn não fazia ideia como era imaginá-lo gritando, alterado e quase esmurrando portas e paredes. Era uma situação complexa, pois ao mesmo tempo que ambos sabiam um do outro, eles também não sabiam. Zayn queria contar que beijou Liam e o sentia cada vez mais próximo porque não queria ter segredos com Harry, jurou para si que nunca mais esconderia seus sentimentos, especialmente por Liam, porque já havia feito com ele aquilo no passado. Sabia que Styles iria ficar magoado no momento em que ele dissesse, mas a relação se desgastou. Tudo foi precipitado e agora estava na hora de encarar as consequências. — Mas eu o beijei ontem a noite. — Zayn disse com a voz calma e Harry fechou os olhos, como se aquelas palavras fossem uma facada lenta em suas costas. Sentiu as lágrimas pesarem em seus olhos e os vários sentimentos atrelados à uma ressaca vigente, só tornavam as coisas piores. Harry limpou as lágrimas que caíram com as costas das mãos e não sabia o que dizer. Doeu ouvir aquilo. Queria dar um murro em Zayn, porque mesmo que ele nutrisse sentimentos por Louis, ele não se permitiu ir adiante, mesmo que quisesse e tivesse tido oportunidade. O problema da infidelidade não era só a confiança, mas aquela quebra de cumplicidade, aquela mágoa não iria passar tão cedo. — Harry, por favor, diga alguma coisa. — Zayn pediu sentindo-se o pior homem da face da terra. — Se quiser me bater, me xingar… Mas por favor, diga alguma coisa. Mas ele não conseguia pensar em nada pra dizer, mesmo de r**m. Sentiu-se um estranho naquela casa, pensou em Liam e Zayn juntos e no quanto aquilo parecia encaixar perfeitamente. Isso o fazia sentir um intruso naquela relação, naquela casa, naquele país. Ele saiu do quarto sem dizer nada e voltou para onde tinha dormido. Trancou a porta, mas Zayn não atreveu-se a seguí-lo, ficou no quarto de hóspedes apenas odiando cada parte de si, repetindo em sua cabeça que não conseguia fazer nada direito. .x.1D.x. Styles não desceu para almoçar e se negou a falar com Zayn durante todo o dia. Liam não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas pelos olhares que trocou com Zayn no dia seguinte, sabia que as coisas não iam nada bem. Sua mãe perguntou por Harry tantas vezes que fez Zayn realmente imaginar que ela soubesse que as coisas iam m*l e fazia questão de, a todo momento, mencionar o nome do pintor. Zayn fingiu-se de nenhum pouco preocupado e inventava uma desculpa qualquer durante a tarde inteira. Por volta das seis da tarde, Styles desceu as escadas perfeitamente vestido, com os cabelos arrumados e, para a total surpresa de Malik que estava na sala lendo, Harry carregava uma mala grande consigo. — Harry, não faça isso comigo, pelo amor de Deus. — Zayn implorou da forma mais dolorosa que Styles já tinha ouvido em sua vida, mas não desfez a cara de poucos amigos e de decisão tomada. — Eu vou para um hotel no centro de Los Angeles, vou deixar o endereço pra você. — Styles falou baixo pegando o celular do bolso e escrevendo para onde estava indo. — Eu vou pedir pra buscar o resto das minhas coisas. — Harry… — Malik tentou segurá-lo pelo braço gentilmente. — Me solta agora mesmo, Zayn. — O olhar e o tom de voz foram duros, de um jeito que realmente Malik nunca tinha ouvido. O moreno soltou do braço de Harry e uma tristeza lhe tomou conta como nunca antes. Sentia-se culpado, seus sentimentos estavam confusos, mas era tarde demais para pedir que Styles ficasse, e obviamente ele estava mesmo muito machucado com aquilo. Ele enviou a mensagem para o celular de Zayn com o endereço do hotel que havia agendado por telefone ainda naquele dia. — Eu não vou insistir que fique, mas eu realmente não gostaria que você fosse embora daqui, Harry. — Zayn tinha a voz embargada e queria poder ter o poder de convencimento para fazê-lo ficar, mas Styles tinha em seu semblante uma decisão bem tomada. O pintor não respondeu, apenas rumou até a porta de saída carregando sua mala, acompanhado por Zayn, que parecia pensar freneticamente em algo pra dizer que o fizesse reconsiderar aquela opção. Quando saiu porta afora, viu Liam perto da garagem, com seu uniforme habitual e desfez o sorriso imediatamente que viu a mala de Styles e o olhar triste de Zayn. — Se quiser, posso pedir ao Liam que leve você… — Zayn disse confuso. — Você só pode estar brincando com a minha cara. — Styles sorriu irônico. Aquela imagem de um homem tranquilo, sem amarras e totalmente desapegado às coisas superficiais de vida, pareceu ir embora de uma hora para outra. Aquele Harry Styles estava claramente amargo e magoado. Zayn m*l o reconhecia. Malik não respondeu nada diante daquilo, realmente não achou que Harry estava levando as coisas para o lado pessoal daquela maneira. Provavelmente não era somente a questão da traição, o pintor sentia-se m*l por ter feito uma drástica mudança na sua vida, deixando suas coisas e sua rotina em outro país para acompanhar o homem que pensou ser o verdadeiro amor da sua vida. Aparentemente, Zayn tinha outro amor na vida dele e não havia espaço para Styles nela. Não demorou muito para que um táxi entrasse pelo enorme portão da mansão dos Malik e Zayn percebeu que realmente não havia nada que ele pudesse fazer. Harry estava indo embora de verdade, sua ficha caiu de maneira dolorosa. Ele abriu a porta do táxi assim que o veículo parou e não olhou para Zayn para se despedir. — A gente se vê, Zayn. — Ele falou com a voz dura, claramente segurando o choro e Zayn sentiu que aquilo foi como navalhas perfurando sua pele devagar. O carro arrancou e ele m*l conseguia se mexer de onde estava. Liam, que observou a cena chocado de uma certa distância, não sabia exatamente o que fazer. Ele andou devagar na direção de Malik que permanecia paralisado, com o olhar perdido, como quem tentava assimilar o que tinha acabado de acontecer. Tudo foi tão rápido que ele realmente não pensava que nada daquilo iria acontecer em questão de horas. — Zayn… Eu… — Liam sentia-se igualmente culpado. Independente de como se sentia e do quanto ele e Zayn estavam apaixonados, sabia que ele e Harry tinham uma história juntos e que aquelas conclusões eram extremamente dolorosas. — Eu pensei que você ia precisar de um tempo para arrumar as coisas… Alguns dias, semanas… Não horas! — Payne estava absolutamente surpreso com tudo. — Eu não ia mentir pra ele, Liam… Se essas são as consequências, eu vou enfrentar… — Malik dizia com as duas mãos no rosto, nervoso. — Eu não retiro o que eu disse a você ontem, porque é a verdade. — Ele encarou Payne, que mesmo sabendo daquilo, não estava feliz com a situação. Gostava de Harry e sabia que o pintor não tinha culpa de estar no meio da bagunça que sempre foi o relacionamento dele com Zayn. — Da mesma forma que não retiro o que eu disse a ele hoje de manhã… Eu não quero mais cometer os mesmos erros do passado, quero ser um homem melhor… — Malik segurou as mãos de Liam, virando-se de frente pra ele. — Não fui o homem que ele esperava que eu fosse, mas espero que consiga ser pra você. — Zayn, vamos com calma, certo? — Liam ponderou, analisando a situação com cuidado. — O seu relacionamento com Harry nunca foi o motivo pelo qual eu e você não ficamos juntos. Isso era apenas um detalhe a mais. — Payne dizia e Zayn respirou fundo, apenas concordando com a cabeça. — Independente de ele ter vindo com você ou não, eu não ia cair nos seus braços só porque você está solteiro. — Liam, não há porque complicar as coisas ainda mais… — Zayn realmente entendia o lado do motorista, mas sentia que agora não haveriam motivos para os dois não ficarem juntos. — Malik! Você acabou de terminar um relacionamento! — Liam dizia incrédulo com a pressa do outro. — A cama onde vocês dormiram não deve nem estar fria ainda! — Eu não dormi com ele na noite passada. — Zayn explicou. — Ótimo, mas não muda o fato de que há segundos atrás ele estava bem aqui. — Payne tentou acalmar-se embora ter gostado de ouvir que Zayn não dormiu com Harry depois de ter dado o maior amasso nele. — Nós vamos começar do começo, certo? E não esqueça que você trouxe aquele homem pra cá, ele é sua responsabilidade. Não vá deixá-lo sozinho longe do país dele só porque o relacionamento acabou. — Eu pretendo, mas você viu com ele está arredio, ele não me quer por perto. — Zayn explicou pacientemente. — É claro que ele não quer, não agora. Ele está magoado, como eu estive com você um dia também e passei anos sem querer nem olhar pra você. — Payne admitiu pela primeira vez aquilo para Zayn, que apenas sorriu triste de canto. — Espere a poeira baixar e cuide dele… Zayn apenas encarou o outro por alguns segundos sem dizer nada. Admirava aquele homem tanto que m*l cabia em seu peito o quanto sentia-se orgulhoso e sortudo de tê-lo em sua vida. Liam era tão sensível com as pessoas, tinha aquele tato de saber lidar com as situações, era um homem inteligente, flexível e Zayn tinha aquela pontinha de felicidade em saber que sim, se tinha alguém que o tornava constantemente um homem melhor, era Liam. Não era apenas o fato dele ser extremamente bonito e dono do sorriso mais doce já visto no planeta, mas era também pela forma com que ele via o mundo e suas opiniões acerca das pessoas. A tranquilidade que Payne lhe passava era impagável. — Tá bom… — Zayn respondeu mais calmo. — Certo. — Liam disse respirando fundo. — Precisa de alguma coisa? — Preciso. — Malik respondeu maroto, segurando no rosto de Liam. — Zayn, não… — Liam tentou desvencilhar-se, mas já estava rindo. Sabia que Malik iria beijá-lo. — Será que você não ouviu nenhuma palavra do que eu disse? Mas já era tarde. Zayn tinha ouvido sim, cada palavra, mas isso não havia feito a vontade de beijá-lo passar. Eles se abraçaram de um jeito carinhoso enquanto trocavam um beijo bem mais calmo do que o da noite anterior. Por mais que Payne tentasse não fazer aquilo, ele simplesmente não conseguia, o beijo de Zayn era feitiçaria pura, e nada poderia ser mais romântico do que um beijo ao pé daquela escadaria magnífica. .x.1D.x. Já se passavam das dez horas da noite quando Harry voltou ao hotel. Tinha saído para jantar e passar na casa de câmbio para trocar dinheiro — ainda tinha alguns euros guardados e precisou trocar por dólares. Pegou o caminho mais longo na hora de voltar para seu quarto, passeou pelo centro de Los Angeles e até mesmo sentou-se em um bar por cerca de meia hora, bebeu água e fumou três cigarros. O hotel em que ele estava, não era nem de longe luxuoso. seu quarto tinha um banheiro, uma cama de casal e uma televisão. Tinha trazido suas tintas e blocos de papel para pintar, mas sabia que iria sentir falta do estúdio que Zayn havia montado pra ele na mansão dos Malik: era realmente perfeito, porque estava do jeito que ele gostava. A parte boa de todo aquele calor da Califórnia era que ele realmente poderia voltar a pé pra hotel sem pressa. Fumou mais um cigarro enquanto andava despreocupado pelas calçadas lotadas de pessoas. Assim que chegou ao seu “novo lar”, passou pela recepção, onde a moça o abordou antes que pudesse entrar no elevador para subir até sua suíte. — Senhor Styles. — Ela disse sorrindo simpática. — Sim? — Harry apagou o cigarro rapidamente no cinzeiro em cima do balcão. — Tem uma pessoa esperando pelo senhor no bar aqui do hotel. — Ela explicou um pouco insegura. — Já está aí há um tempo, disse que não se importaria com a hora, esperaria o senhor chegar. Harry titubeou em quem poderia ser, queria ficar sozinho, mas apostava que era Zayn vindo atrás dele pra voltar pra casa. Era o único que sabia onde ele estava. Agradeceu à recepcionista e rumou até o bar para ver de quem se tratava. Conhecia muito bem, mesmo de longe, aquele sobretudo cinza jogado de qualquer jeito em cima da mesa, mostrando um homem que não bebia nada além de água com gás e estava numa ressaca quase tão parecida com a dele mesmo. Os olhos azuis inconfundíveis de Louis Tomlinson encontraram os de Harry ainda enquanto o pintor andava de encontro com ele até a mesa. — Não me leve a m*l, mas minha vida já está bagunçada demais, Dr. Tomlinson… — Harry disse diretamente, sem nem sequer sentar-se na mesa. — Boa noite pra você também, Hazza. — Louis disse tranquilo, já esperando o mau humor. Harry respirou fundo pensando por um minuto que realmente estava alterado e talvez descontando sua tensão na pessoa errada. Teoricamente, Louis não lhe tinha feito nada e, mais do que isso, as únicas lembranças que tinha quando pensava nele, nunca eram dolorosas, eram sempre boas, com conversa descompromissada e ele era o grande responsável pela maioria de seus sorrisos. — O que você quer comigo, Louis? — Harry perguntou passando uma das mãos pelos cabelos longos, jogando-os para trás, mas os fios sempre voltavam. Louis particularmente adorava olhar pra aquilo. — Vim ver como está. — O médico disse levantando-se de onde estava. — Podemos conversar? — Não. — Harry respondeu enfático. — Se soube onde me encontrar, foi porque provavelmente Zayn pediu que viesse aqui. — Styles preparava-se para dar as costas ao médico e voltar para o seu quarto. — Vá embora, Louis, por favor. Ele deixou o bar, mas Tomlinson o seguiu sem cerimônias. Esperou o elevador com ele e só escutou Styles bufar. A realidade é que nada daquilo era culpa de Louis e sabia que estava sendo injusto em enxotá-lo daquele jeito, mas ele realmente não estava bem aquele dia. Sua cabeça estava cheia, ele tinha vontade de atirar coisas na parede. Muitas coisas acumuladas e ter algum tipo de conversa agradável com Tomlinson seria absolutamente impossível. — Ele realmente me disse onde você estava, mas eu vim aqui porque quis. — Louis disse despreocupado, já imaginando que Styles fosse estar daquele jeito. Louis e Zayn conversaram naquela tarde e Malik foi muito honesto em todos os pontos: desde dizer o que tinha acontecido com ele e Liam até confessar sua suspeita sobre o interesse mútuo entre ele e seu, agora, ex-namorado. Ambos entraram juntos no elevador e Harry triplicou seu nervosismo. — O que você quer, Louis? O que você quer de mim? — O pintor disse exaltado. — Precisamos conversar! — O médico respondeu no mesmo tom. — E não estou me referindo ao fato do que houve entre você e Zayn, mas do que está havendo entre nós dois! — Não há nada acontecendo entre nós. — Harry respondeu inseguro, obviamente sem um pingo de credibilidade. Sabia muito bem o que estava acontecendo. Ambos deixaram o elevador quando chegaram no andar do quarto de Styles. Louis titubeou por um segundo antes de continuar andando. Não tinha gostado de ouvir aquilo e, apesar de perceber a insegurança na voz do outro, ficou na dúvida sobre Harry ter mudado de ideia agora que as coisas tinham tomado outro rumo, talvez o fato de Styles ter perdido Zayn o fez perceber que realmente o amava. O pintor abriu a porta do quarto e virou-se para Louis, que andava devagar até o encontro dele e já não tinha mais a intenção de pedir pra entrar. — Sei que está confuso e chateado porque seu relacionamento acabou e eu não tenho direito de vir aqui pedir coisa alguma pra você. — Louis disse racional, mais sensato e num tom de voz mais reto. Styles não se atreveu a interrompê-lo. — Eu não acredito em coisas como “amor a primeira vista” ou romances hollywoodianos de filmes irreais. Sou um homem feito, Styles, e muito responsável por como faço as outras pessoas se sentirem. — Tomlinson estreitou os olhos antes de continuar falando. — Agora se você negar que sentiu algo por mim no primeiro dia que me conheceu, então você não é metade do homem que eu pensava que era. — Louis, você nem me conhece! — Harry dizia controlando o tom de voz, estavam em pleno corredor do hotel. — Não sabe quem eu sou, de onde venho e as coisas que passei na vida. Como pode “sentir algo” por mim? Ou afirmar que sabe como me senti quando te conheci? — Harry não era um homem que racionalizava sentimentos, mas estava com seu sensor de proteção ligado, não deixaria ninguém se aproximar. Era um bicho ferido, que não sabia reconhecer a intenção de quem se aproximava. Não sabia dizer se a pessoa iria ajudar ou machucá-lo ainda mais. — Mas eu quero conhecer! — Louis gesticulou com as mãos como se aquilo fosse óbvio. — Eu não sei o que está acontecendo, não vim aqui cobrar algo de você depois do dia que teve, mas quero dizer que… — Louis tomou um tom de voz tão passional que nem sabia de onde aquelas coisas estavam vindo. — Você trata a todos muito bem, é cordial, educado… Quase sensato. — Ele olhava nos olhos verdes do pintor enquanto dizia. Harry prestava atenção assustado. — E eu… Bem, sejamos honestos, sou o oposto disso. Nada me dá mais prazer do que ser persona non grata. Expulso do paraíso, um homem sem juízo, que não se comove com nada. — Louis… — Harry não sabia o que dizer, sentiu sua mente dar voltas. — Por favor, não diga essas coisas… — Eu sei… — Tomlinson riu de leve. — Sei que me acha c***l e refinado. Daqueles que não merecem ir pro céu, um vilão de novela… — Pode ser. — Styles rendeu-se ao sorriso. — Mas bonito, e até mesmo culto. Estranho, com tantos amigos que odeia e amado. Bem vestido e respeitado. Louis apenas o encarou sem dizer nada, permanecia com um meio sorriso no rosto, talvez se conhecessem mais do que ele pensava. Mas Styles não parecia se render àquilo. — Podemos fazer isso uma outra hora? — O pintor pediu respirando fundo, cansado. — Eu não estou pronto pra isso, Louis. — Entendo. — O médico respondeu mas entendeu aquilo como um belo de um fora. Sua interpretação não poderia estar mais errada, mas ele entendeu perfeitamente que aquilo era o jeito de Harry Styles dizer que não o queria. — Boa noite, Harry. — Boa noite, doutor. — O pintor sorriu calmo, observando Louis sair cabisbaixo. Havia esperança pra ele afinal de contas, pois na sua cabeça, Louis gostava dele e estava mais interessado do que Harry pensava. Para um, era a linha final. Para o outro, um provável começo. E isso com certeza ainda causaria desentendimentos entre os dois dali pra frente. De um lado, Zayn e Liam retomavam a paixão antiga, de outro, um começo bem atrapalhado acabava de se instaurar.
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