Toda a família estava reunida novamente para o jantar. Edmund chegara a pouco do serviço, mas sempre fazia questão de que a família se reunisse para as refeições.
— Não faça tanto barulho com os talheres Cecília. - Ouviram Andrea dizer sem sequer dar-se ao trabalho de erguer os olhos para a garota.
...
— Não coma tão rápido Cecília. - Ela falou novamente após alguns segundos.
...
— Porquê não consegue ficar com as pernas paradas? .- Perguntou por último vendo a garota explodir.
Cecília bateu as duas mãos na mesa e se levantou.
— Sinto-me indisposta, se me dão licença. - Disse com os dentes semicerrados.
Lydia encarou a situação, não era normal que a irmã se alterasse, menos ainda na frente de convidados. Mas, a verdade era que Cecília estava cada dia mais cansada da perseguição da mãe e já até começara planejar se casar com um desconhecido qualquer, só para sair de Sheffield House.
Andrea abriu um sorriso casto para Marcos e Blake, e como se nada tivesse acontecido, como se a falta de sua filha na mesa não fosse nada continuou a comer.
O barão limitou-se a sussurrar um baixo pedido de desculpa aos seus convidados.
Blake e Marcos se entreolharam.
Eles não conseguiam entender o porquê de tanta implicância, ficara claro que não poderia ser nada além de implicância. A garota não estava fazendo barulho com os talheres, não estava comendo rápido demais e estando sentado frente a ela, Marcos constatou que também não estava com a perna inquieta.
— Se me dão licença. - Disse o Conde levantando-se e seguiu os passos da garota. Estava começando a se sentir incomodado com a situação.
Ele caminhou rapidamente pelo extenso corredor, baixas batidas do salto em contato com a madeira podiam ser ouvidos.
— Srta. Sheffield. - Falou aproximando-se dela quando a viu debruçada sob a janela. Cecília limpou os olhos com as costas das mãos antes de olhá-lo.
— Sir. Hughes.
— Sinto muito. - Sussurrou tocando o esguio ombro dela.
— É tão notável assim? .- Perguntou, a voz dela começara a falhar.
— Até um cego veria. - Ele disse em meio a uma risada e por sorte, arrancou uma risada dela.
Cecília abraçou o próprio corpo e voltou a fitar o jardim pela janela.
— É assim desde que me lembro. Desde quando éramos pequenas. Talvez seja pelo fato de eu não ser parecida com ela, ou por ser a caçula, talvez eu não tenha sido desejada ... Não sei. - A voz dela começou a se perder no ar.
— Nenhuma mãe deve tratar um filho dessa maneira, independente das circunstâncias. E a srta. não pode se culpar por isso, deve culpa-la por descontar em você, algo que não é sua culpa.
Cecília ergueu a visão para o homem alto de cabelos pretos e olhos castanhos que a encarava. Marcos passava tranquilidade, ele transmitia paz a qualquer pessoa que se dispunha a conversar.
— O senhor tem razão. Bom, na maioria das vezes tento pensar dessa forma. Isso é o que minha avó costuma me dizer também.
Ele percorreu os olhos pelo corredor.
— Uma pessoa coerente. Diga-me, aonde está, devo elogia-lá. Porquê nunca a vi? .- Perguntou pensativo.
Cecília balançou a cabeça, rindo.
— Vovó não mora conosco, e no momento, está longe visitando alguns parentes. Ela ama viajar.
Marcos encostou-se na parede e observou a garota brincar com um fiapo de cabelo que se soltara.
— Então sua missão será apresentar-me a ela quando chegar.
— Tem minha palavra. - Ela estendeu o dedo mindinho, de forma que ele enlaçou ao seu.
Ele apontou para o andar debaixo.
— Preciso voltar. Antes que seus pais possam achar r**m, gostaria que eu a trouxesse comida?
Cecília balançou a cabeça em negação e sussurrou um baixo agradecimento.
Quando novamente se viu a sós, deixou que as lágrimas descessem por sua bochecha. Tentava se fazer de forte, e na maior parte das vezes tinha sucesso nisso, mas em outras ... Em outras sentia tudo dentro de si desabar e não podia evitar.
Enquanto isso no andar debaixo ...
Andrea remexia-se na cadeira. Assim que vira o conde, começara a tramar a união dele com Lydia, porquê diabos ele saíra da mesa e aparentemente fora atrás de Cecília?
A matriarca só voltou a se concentrar na comida quando o viu de volta à mesa.
— Algo de errado, milorde? .- Perguntou com um olhar doce e casto.
Blake segurou a vontade de revirar os olhos. Estava na residência a poucos dias, mas já havia notado que a mulher não tinha nada de dócil. Marcos pigarreou e forçou um sorriso.
— De forma alguma, sra. Sheffield.
A conversa não se estendeu, Marcos não fez nenhuma questão de fazê-lo, pelo contrário, ele se concentrou em sua carne como se fosse a coisa mais magnífica do mundo.