O Início

1372 Palavras
Olá, eu sou Joice Vianna. Tenho 21 anos, sou estudante de Arquitetura e estou enfrentando o segundo ano da faculdade com toda a garra que eu tenho. Divido os meus dias, as minhas loucuras e cada projeto de desenho técnico com a minha melhor amiga, Eliza Martinez — uma pessoa simplesmente incrível, que tem o dom de iluminar os meus dias de um jeito que eu ainda estou tentando processar. Nós nos conhecemos de um jeito totalmente inusitado, quase como um acidente geográfico, mas, antes de mergulhar nessa história, deixa eu me descrever um pouco para vocês entenderem quem é a "peça" aqui. Sou loira, tenho 1,70 m de altura e olhos de um verde-claro bem marcante. A Eliza vive insistindo que eles mudam de tom dependendo do meu humor — ficam mais escuros quando estou brava e brilhantes quando estou feliz — mas, sinceramente? Eu nunca reparei nisso, acho que é coisa da cabeça dela. Meus cabelos são curtos, com um corte desfiado e moderno que combina com a minha personalidade agitada. Além disso, ostento dois piercings: um no nariz, que eu adoro, e outro que... bom, esse eu prefiro não comentar por enquanto, deixo para a imaginação de vocês! Ah, e não posso esquecer das minhas tatuagens, que são praticamente parte da minha alma. No braço direito, carrego uma rosa-vermelha vibrante que parece estar sempre desabrochando; no esquerdo, um pequeno gatinho laranja. Ele pode parecer simples para quem olha de fora, mas representa um universo de significados para mim. Modéstia à parte? Eu me considero uma baita de uma gostosa. E, antes que eu esqueça desse detalhe fundamental: sou bissexual assumida. Mas, vou confessar uma coisa: ultimamente, o meu radar e o meu interesse estão focados exclusivamente em mulheres. Agora… respira fundo, porque eu vou te contar como a "gostosa" aqui conheceu o furacão ruivo chamado Eliza Martinez. Tudo começou quando eu tinha 16 anos. Fazia exatamente uma semana que eu tinha começado a estudar em uma escola nova, em um bairro que eu m*l conhecia. Eu tinha sido expulsa da minha antiga escola por um motivo que deu o que falar: fui pega ficando com uma menina no banheiro — e, bem… digamos que eu já vinha acumulando algumas “travessuras” no meu prontuário antes disso!A diretora não teve muita escolha além de assinar minha expulsão definitiva. E, sinceramente? Na hora, eu até fingi que não ligava. Mas a verdade é que mudar de escola no meio do ano, cair em um lugar completamente desconhecido e ainda carregar aquela fama nas costas… não era tão simples quanto eu queria fazer parecer. Nessa escola nova, o ar parecia ser feito de outra substância. Era pesado, carregado de um cheiro de spray de cabelo caro, perfumes importados e um senso de privilégio que me dava náuseas. Eu caminhava pelos corredores de azulejos brilhantes e sentia os olhares das "patricinhas" de saias plissadas e dos "playboys" com suéteres de marca amarrados nos ombros. Eles me mediam de cima a baixo, julgando minhas tatuagens e meu jeito de andar. Eu era peixe fora d'água, a garota nova que não pedia licença para existir. Como tinha gente chata e metida naquele lugar, meu Deus! Foi na segunda semana naquela selva de aparências que o meu destino decidiu colidir, literalmente, com o da Liz. Eu caminhava pelo corredor principal, meio perdida nos meus pensamentos e lutando contra o peso da minha mochila, quando senti o impacto. Não foi um esbarrão de ombro; foi uma colisão de corpo inteiro que me fez perder o equilíbrio. Meus livros voaram, meus cadernos deslizaram pelo chão encerrado e eu quase fui ao chão. — Ei! Olha por onde anda, garota! — a voz era aguda, firme e carregada de uma indignação que me pegou de surpresa. Recuperei o equilíbrio e olhei para baixo. À minha frente, uma garota de cabelos ruivos cor de fogo estava de joelhos, tentando recolher vários cadernos com uma pressa furiosa. Ela era pequena, bem menor que eu, mas a energia que emanava era a de um furacão categoria cinco. — Foi m*l aí, baixinha — soltei, sem pensar muito, enquanto me abaixava para tentar ajudar a recolher a bagunça. O erro foi fatal. No instante em que a palavra "baixinha" saiu da minha boca, ela congelou. Lentamente, ela levantou o rosto, e o que vi nos olhos dela não foi gratidão, mas uma promessa de morte imediata. — Do que é que você me chamou? — ela perguntou, com a voz baixa, pausada e perigosamente calma. Eu, com o meu habitual dom de transformar situações ruins em desastres completos, dei um sorriso de canto e tentei "descontrair": — Calma aí, baixinha ruiva. Eu já disse que foi m*l, não precisa ter um treco devido a um esbarrão. O que aconteceu a seguir foi um borrão de movimento. Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, senti o impacto seco e pesado de um soco no lado esquerdo do meu rosto. Minha cabeça virou bruscamente e o som do estalo pareceu ecoar por todo o corredor silencioso. Por um segundo, eu vi estrelas de verdade. Aquela criatura minúscula tinha acabado de me acertar um soco de direita digno de um lutador de boxe profissional! — Se você me chamar de baixinha outra vez — ela disse, apontando um dedo trêmulo de raiva no meu nariz enquanto eu segurava minha bochecha em choque — eu juro pela minha vida que te mando para a enfermaria de maca. Estamos entendidas, novata? Eu estava sem fala, sentindo a bochecha latejar e o calor do sangue subindo para o rosto. Não deu tempo de reagir; o diretor apareceu no corredor com uma cara de poucos amigos e nos mandou direto para a detenção. Minutos depois, estávamos trancadas em uma sala vazia, sentadas em carteiras separadas. O único som era o tique-taque irritante do relógio de parede. Eu segurava um saco de gelo contra o rosto, sentindo o frio queimar a pele inchada, enquanto ela estava sentada com as costas retas, lançando-me olhares que diziam: “se você abrir a boca para falar besteira, eu te arrebento de novo”. Juro que tentei ficar quieta… por uns cinco minutos. Mas o silêncio era tão pesado que dava para cortar com uma faca. De repente, uma risada baixa escapou da minha garganta. Eu não consegui evitar. A situação era absurda demais: eu tinha apanhado de uma garota que batia no meu ombro só porque a chamei de baixinha. — Você é doida, sabia? — ela soltou finalmente, quebrando o silêncio de gelo. — Já me disseram isso algumas vezes... — respondi, dando de ombros e sentindo a dor na mandíbula. — Foi m*l pelo jeito que te chamei, não foi por m*l, juro. Eu não sabia o seu nome, então chamei pela primeira coisa que veio na minha cabeça. Ela me encarou por um longo instante, analisando minha sinceridade, e um sorriso de canto começou a aparecer no rosto dela. — Tudo bem... e foi m*l também pelo soco. Ou tapa. Sei lá. Eu pensei que você estava me zoando, entende? Nunca tinha visto você por aqui antes. — Foi um soco, tá? Um soco muito bem dado — eu disse, rindo e ajeitando o gelo. — E você não me viu porque essa é só minha segunda semana. Eu estava ocupada observando as patricinhas daqui antes de me misturar. Ela riu pela primeira vez, uma risada leve que mudou completamente o clima da sala. — Aliás, meu nome é Eliza Martinez — ela disse, estendendo a mão, ainda um pouco na defensiva. Eu segurei a mão dela com um sorriso largo. — Joice Vianna, prazer. A novata que apanhou da "baixinha" brava. — Última vez, Joice! — ela avisou, mas agora o sorriso era sincero e brilhante. Ficamos conversando ali, no meio da detenção. Ela me perguntou se era verdade o boato da minha expulsão por causa da menina no banheiro. Eu não neguei. Contei que era intensa, e ela me disse que também não ficava atrás. E foi ali, entre um saco de gelo e confissões de escola, que nasceu a nossa amizade improvável, que anos depois se tornaria a coisa mais importante da minha vida.
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