Depois que pareceu ser dias e mais dias cheguei a Seattle. Completamente cansada, com fome e com sono, e doida para tomar um banho.
Pela janela do ônibus vejo minha tia e minha prima Jhany me esperando na rodoviária movimentada. Saio do ônibus e logo elas me avistam também e minha prima corre para me dar um abraço. Deixo minha mochila cair no chão para retribuir esse gesto de carinho.
— Léxiiiiiii — diz Jhany me apertando e dando um beijo na minha bochecha. — Quanta saudades prima.
— Saudades também — digo sorrindo a beijando no rosto.
— Sempre linda Aléxis — diz minha tia Mary me abraçando e depositando um beijo em minha bochecha. — Como vai?
— Oi tia, vou bem e a senhora?
— Bem também. Vamos para o carro?
— Só espera eu pegar o resto das minhas malas, estão no bagageiro do ônibus — digo a minha tia, pegando minha mochila do chão e indo para o lado do ônibus.
— Claro. — ela fala me acompanhando.
Jhany me alcança e passa a mão pelo meu ombro pegando minha mochila.
— Deixa que eu levo pra você — diz ela sorrindo.
— Obrigada.
— Que nada, só quero levar o mais leve — diz Jhany e da uma gargalhada. — Te conheço e sei que trouxe muitas malas pesadas.
— Rá! Rá! — digo a ela dando um tapinha de brincadeira em seu braço. — Que eu saiba, a maluca por moda aqui é você.
— Touché! — ela exclama estalando os dedos e piscando para mim.
Pego as duas malas pequenas que estavam no bagageiro do ônibus, entrego a mais leve para minha tia e caminhamos para o carro. Com as malas ajeitadas no porta-malas do veículo seguimos para a casa da minha tia conversando. Jhany no banco da frente do passageiro me faz muitas perguntas. Como esta indo minha faculdade de medicina veterinária, se estou namorando, ficando, enrolada, ou só um p*u-amigo mesmo. Dou risada de sua cara e minha tia a repreende.
— Tudo bem tia. — digo ainda rindo. — E respondendo as suas perguntas a faculdade esta ótima e sem namorado — falo e faço um biquinho.
— Então é duas amiga — diz ela fazendo um biquinho também. — Somos as esquecidas do rolê.
— E como vai no Colorado Aléxis? — pergunta tia Mary.
— Bem tia. — digo não sabendo o que poderia responder mais. Com certeza ela não quer saber sobre o tempo de lá.
— Seus pais vem mesmo daqui quatro dias?
— Vem sim. — digo sorrindo. — Não vejo a hora.
— Que bom. — minha tia diz rindo. — É a primeira vez que você vem aqui sem eles, então entendo a sua ansiedade.
Na pequena viagem — pequena comparada com a de ônibus que pareceu uma eternidade — passamos pela grande cidade e depois de algum tempo pegamos uma estrada com uma área mais florestal. Eu me recordo vagamente daqui. Sei que é o caminho que faz para chegar até a área privada da mansão dos meus parentes.
— Chegamos! — diz minha tia quando paramos com o carro em frente aquela casa familiar. Não mudou quase nada, só deu uma pequena reformada e pintou.
Aqui é um local onde pessoas ricas e de alta classe, como políticos e empresários, constroem suas enormes mansões. Uma é um pouco distante da outra dando uma boa distância de privacidade para cada família. Os quintais de cada uma são bem grandes e cada mansão tem uma grande floresta nos fundos de sua residência. Aqui chega a ser bem afastado da cidade.
Descemos do carro e logo tiramos as minhas malas de trás do veículo. Jhany me guia para o quarto onde irei ficar durante esses dias e onde sempre fiquei das outras vezes em que vim aqui. Com as janelas de frente para a floresta.
Ela não mudou também, mas parece mais sombria, talvez seja por causa do tempo cinza avisando que poderá chover a qualquer momento. Jhany me deixa sozinha no quarto e logo vou para o banheiro tomar um banho. Alguns minutos depois, saio do banheiro e troco de roupa, coloco uma calça jeans e uma t-shirt de manga branca e desço pra comer alguma coisa. Eu estou cansada e quero muito cair nessa cama fofinha para dormir, mas primeiro eu realmente tenho que comer alguma coisa, parece que tem um buraco no meu estômago.
Encontro Jhany na sala assistindo tv e digo que irei comer algo, ela me acompanha até a cozinha e me ajuda a preparar um lanche leve.
— E Jhony, onde está? — pergunto sobre seu irmão gêmeo que ainda não vi desde que chegamos a mansão.
— Ele teve que sair a trabalho, nem sei se chega hoje. — responde Jhany.
— Ah sim, gostaria de vê-lo antes de me deitar. — digo a Jhany já bocejando.
Eu como meu lanche conversando mais um pouco com minha prima. Ela me conta que trabalha na empresa do seu pai agora, mas que ela não pretende ficar ali muito tempo. Ter seu irmão como seu chefe é simplesmente horrível. Palavras dela. Termino o resto do meu lanche e me despeço de Jhany e subo para o quarto para finalmente poder descansar com a barriga cheia e satisfeita.
Vou até a sacada do quarto para fechar a janela, pois está bem gelado dentro do cômodo. Na floresta vejo uma figura na parte mais escura, entre várias árvores juntas. Fico encarando aquilo, e parece ser grande, acho que também está me encarando e me arrepio da cabeça aos pés. E de um momento pro outro a figura some. Eu apenas pisquei, foi muito rápido. Será que estou vendo coisas? Ficando louca? Talvez seja por causa do cansaço da viagem. Meus olhos ardem e levo minha mão para coçar e mais uma vez olho para a floresta mas não vejo nada lá.
Meu coração palpita rápido pela ansiedade e a surpresa, mas tranco a janela e fecho a cortina. Coloco um pijama confortável para dormir e me jogo na cama. O sono me invade de imediato e penso sobre todas aquelas lendas. Será real?
••••
A floresta está úmida e escorregadia. Tudo indica que a chuva cairá a qualquer momento. Os animais estão agitados. Esquilos e outros pequenos roedores correm para suas tocas ou estão apenas procurando um lugar para se proteger da chuva.
O cheiro de madeira, terra, lodo, musgo, tudo se mistura com o próprio cheiro da floresta com diversas árvores e flores, tornando a respiração quase insuportável. A criatura torce o fucinho e rosna de desagrado. Ela decide voltar a sua forma humana, onde o seu olfato é cem vezes mais inútil.
Chegando na grande clareira onde há várias casas de madeira, o homem se dirige até a maior casa recebendo cumprimentos e acenos de outras pessoas que ali estão espalhados pelas redondezas da casa principal. Ele chega em frente a porta e a abre entrando no lugar claro e arejado. Ele gosta dessa sensação. O vento e a brisa batendo em cada parte de sua pele nua e fria.
Uma mulher se aproxima dele entregando uma calça. O homem a veste e adentra mais para dentro da casa. Ele vê seu chefe sentado a uma grande cadeira de madeira reforçada, mais parecendo um trono. Ele se ajoelha com o homem sentado na cadeira o observando atentamente com uma mão no queixo.
— Eu vim reportar, senhor.
— Continue. — o homem no trono de madeira diz.
— Ela chegou.