Já me sinto desperta depois de algumas horas de sono e sonhos com criaturas das sombras. Sinto meu corpo descansado depois de uma longa viagem, abro meus olhos e deixo que eles se acostumem com a escuridão do quarto, e eu posso jurar que vi uma figura ao lado da minha cama. Uma sombra alta e forte, esfrego meus olhos para poder ver melhor e já não há nada ali.
O que foi isso? Eu sei que tinha alguém aqui, será que era o Jhony? Mas ele não iria desaparecer assim e ele nem é tão alto. Acho que essa viajem já está me enlouquecendo ou eu só não descansei o suficiente.
Vou para o banheiro e escovo meus dentes, ajeito meus cabelos com os dedo e me olho no espelho. Meus olhos estão de um verde mais escuro, e em volta deles está um pouco inchado por causa do sono. Compreensivo eu ver coisas que não existem depois de uma viagem tão cansativa, meu rosto não esconde isso. Talvez eu devesse considerar começar a viajar de avião. Alguns minutos mais tarde, depois de sair do banheiro, calço meus chinelos e saio do quarto. Essa casa é grande e muito bonita, minha tia se casou com um homem rico e depois de sua morte precoce por conta de um acidente, ela e os filhos ficaram com a herança. Uma empresa de móveis e antiguidades, casa, propriedades e muito mais. Eles são bem ricos, porém boas pessoas. Estão sempre fazendo doações e ajudando pessoas com necessidades, seja alimentar ou emprego.
Sigo pelo corredor rumo às escadas olhando para os quadros pendurados nas paredes e várias portas de quartos espalhados pelo corredor. Para ser exata são dez quartos aqui, da para hospedar muita gente. Não entendo para que uma casa tão grande para apenas três pessoas. Desço as escadas e vou para a sala mas não tem ninguém lá, sigo para a cozinha e encontro minha tia preparando o jantar, olho para a janela e vejo que já está bem escuro lá fora.
— Oi tia, quer ajuda ai? — pergunto a ela.
— Oi querida, já estou quase acabando mas se puder lavar esses alfaces. — diz tia Mary apontando para uma sacola em cima da pia com alguns pés de alfaces. Imediatamente vou até lá e começo a lava-los.
— Tia, que horas são?
— Quase nove da noite. Descansou?
— Sim senhora. Dormi bem — digo sorrindo preguiçosa.
— É compreensivo, a viagem é longa. Você deveria começar a andar de avião — diz ela olhando para mim.
— Depois de hoje, sinceramente estou começando a cogitar essa ideia — respondo e dou risada. — E Jhany, cadê?
— Foi buscar o Jhony no aeroporto.
— Oh, ele estava fora da cidade? — digo surpresa.
— Estava sim. Ser responsável por toda a empresa está sendo bem difícil para ele. Muitas responsabilidades e reuniões tanto aqui quanto fora.
— Entendo.
A morte do meu tio jogou uma responsabilidade enorme em cima do Jhonny cedo demais. Deve ser realmente difícil.
Terminamos o resto em silêncio, me lembro que era mais confortável ficar perto da tia Mary, ela parece mais séria, com menos vontade de papo. Mas eu até entendo, perder uma pessoa que amamos muito deve deixar um buraco enorme em nosso peito. A ajudo a arrumar a mesa e colocamos a comida em cima, e logo percebo que estou com muita fome, mas tenho que esperar os outros chegarem.
Ouvimos a porta da casa sendo aberta e as vozes de Jhany e Jhony invadem o ambiente. Vou até a sala e os encontro lá.
— Léxi. — diz Jhony abrindo os braços. — Como vai moça, sempre que a vejo parece mais bonita. — Ele vem em minha direção e me abraça apertado, me dando dois beijos, um em cada bochecha.
— Oi Jhony. — digo retribuindo o abraço. — E você continua o mesmo, só que mais forte. — digo sorrindo e apertando seus músculos do braço.
— É... Eu malho. — diz rindo.
— É... Eu percebi. — digo rindo também.
Olho para Jhany sorrindo e os aviso que a janta já está pronta, Jhony diz que só vai tomar um banho e já vem para jantar. Eu e Jhany vamos para a cozinha e ficamos conversando com tia Mary, depois de alguns minutos Jhony chega e sentamos a mesa, nos servimos e jantamos conversando e contando as novidades.
Descobri que Jhony é o presidente da empresa que tio Jhosy deixou e que viaja muito a reuniões e todas essas coisas de empresários. Jhany trabalha lá também e faz faculdade de arquitetura. Conto minhas poucas novidades, sobre a faculdade de medicina veterinária, sobre minha única amiga Natalie, e logo começamos a nos provocar e rir. Jhany é magra e alta, mas não tão alta quanto eu, cabelos longos e lisos. Jhonny é um pouco mais alto que eu, cabelos negros e lisos perfeitamente cortados. Digno de um presidente de uma grande e renomada empresa.
Depois de todos termos comido e colocado o papo de muitos anos em dia, eu e Jhany fomos lavar as louças.
— Então Léxi, podíamos sair amanhã a noite, o que acha? Afinal é sextaaaa. — diz Jhany já animada.
— Claro, vamos sim. — digo e sorrio com a animação antecipada dela.
— Legal, conheço um lugar bem bacana. — diz e termina de guardar os pratos. — Para a sua infelicidade, tenho que ir me deitar, tenho que trabalhar amanhã, boa noite linda.
— Vai lá, durma bem gata. — e dou uma piscadela.
Depois de terminar de organizar as coisas na cozinha, subo as escadas e vou para o meu quarto, entro e tranco a porta e vejo que a janela está aberta. Eu a deixei aberta? Lembro de ter fechado e não abrir quando acordei, afinal está muito frio. Vou até lá e fico na sacada, olho para a floresta e lembro da figura que vi mais cedo ali e no meu quarto.
Tento enxergar algo mas nada, devo estar vendo coisas só pode. O vento está gelado e forte, as árvores estão balançando muito, a floresta é fascinante não posso negar, sempre gostei desse tipo de coisa, fauna e flora. Talvez depois que eu terminar minha faculdade de medicina veterinária eu faça biologia. Afinal, estudo nunca é demais. Observando a floresta me lembro que iria procurar algo sobre as lendas dessa cidade, amanhã vou a biblioteca daqui da casa e procurarei algum livro que fale sobre isso.
Quando me viro para entrar no quarto ouço um uivo, alto e estridente e parece não estar longe. Olho para a floresta mais não vejo nada, fico arrepiada e com certo medo. Corro para o quarto e tranco bem a janela abro um pouco a cortina e vejo dois olhos grandes e vermelhos na parte mais escura daquela floresta.