CAPÍTULO 4

1955 Palavras
Saio daquela biblioteca e já é noite como eu previa, o ar está gelado. Vou até o carro, destravo e entro. Coloco o livro emprestado em cima do painel do carro, pego meu casaco que deixei no banco do carona e o visto. Ligo o carro e saio em direção a casa da minha tia. É quase impossível não pensar naquele homem, me encarando com aqueles olhos azuis maravilhosos, ele parecia surpreso em me ver ali, até mesmo... assustado? Não, é coisa da minha cabeça mais uma vez, com certeza. A estrada está um pouco perigosa, pois há uma fina neblina cobrindo-a, o que deixa a floresta mais assustadora ainda. Acabo me lembrando daqueles filmes de terror onde aparece alguém do nada na frente do carro com um machado. Sinto arrepios na minha espinha e aperto o volante do carro com força tentando acalmar as batidas do meu coração. Só eu mesma para pensar em uma coisa dessas quando estou sozinha em um carro passando por uma estrada assim. Decido ligar o rádio com o volume baixo e procuro uma estação onde esteja tocando boas músicas para me distrair dos meus pensamentos absurdos. Continuo seguindo a estrada até que o motor do carro morre e lentamente o veículo vai desacelerando até que para completamente. Droga! O que será? Giro a chave e bato o pé no acelerador e nada, faço mais uma vez e mais uma vez e nada do carro dar sinal de vida. Olho para os lados e vejo a floresta completamente escura e isso começa a me apavorar de verdade. — Liga por favor, liga... — e nada de ligar. — Liga! — e graças a Deus o carro da sinal de vida, faço uma prece mentalmente e sigo o meu caminho sem olhar para a floresta de novo. Quando acho que está indo tudo bem o motor para mais uma vez, os faróis, o rádio e o painel apagam. Agora ferrou, não sei o que fazer, não entendo nada de mecânica de carro. Será a gasolina? Mas se fosse falta de gasolina, os faróis e nem o painel teriam desligado. Ou teriam? "É claro que não Aléxis, sua anta" repreendo a mim mesma olhando para o painel mas não consigo ver o medidor de gasolina, já que o painel é todo digital. Giro a chave e praticamente chuto o acelerador e o carro não liga. Olho para a floresta tentando ver alguma coisa mas não há nada lá, pelo menos eu acho que não. Tento ligar o carro várias e várias vezes mas não acontece nada, até que vejo um movimento nas árvores do lado esquerdo da floresta. O que será que é? Algum animal? Fico olhando para o mesmo lugar mas nada acontece. Meu coração está batendo tão alto agora que posso ouvi-lo através dos meus ouvidos. Alguns segundos passam até que passa um vulto enorme e rápido na frente do carro. — Meu Deus, o que foi isso? — digo em um sussurro. Olho para todos os lados e não vejo absolutamente nada. Até que ouço um barulho que me faz arrepiar da cabeça aos pés. Um barulho horrível, um barulho parecendo um rosnado mas mais ameaçador. Tento ver da onde aquele som vem, olho para a floresta mas parece que não há nada lá. Olho pelo retrovisor de dentro do carro para ver se há algo atrás do veículo e é ai que vejo aqueles olhos vermelhos e grandes me encarando, parecidos ou os mesmos que eu vi aquela noite na floresta no fundo da casa da minha tia, e não consigo evitar que um grito saia de dentro da minha garganta. Fico encarando aquela coisa e sei que ela também me vê, e de uma hora para outra some. Olho para todos os lados desesperadamente mas não vejo nada, olho para a floresta e nada também. Ouço um baque surdo no carro e ele começa a se mexer de um lado para o outro e eu tinha a certeza que o carro iria virar comigo dentro, mas não aconteceu. Tampo a minha boca com a mão para tentar evitar que qualquer barulho saia dela, tento me manter o mais silenciosa possível. Mas do que isso vai adiantar? Essa coisa sabe que eu estou aqui e que não vou para lugar nenhum. E o quão forte esse bicho é para balançar esse carro desse jeito? Solto o cinto de segurança e vou para o banco do carona, olho para a floresta e para os lados do carro mas não vejo nada, não ouço mais nada. Meu Deus, eu estava chorando e nem percebi, limpo as lágrimas que escorrem em meu rosto com a palma da minha mão e percebo que estou tremendo. Volto para o banco do motorista e tento ouvir ou ver qualquer movimento, qualquer coisa, mas não há nada. Será que o animal voltou para a floresta? Aperto o volante com força com as duas mãos e abaixando minha cabeça, fecho meus olhos e respiro fundo numa tentativa de me acalmar. Alguns segundos depois levanto minha cabeça e olho para a janela do lado do motorista e vejo aqueles olhos azuis me encarando, e mais uma vez não consigo segurar um grito. Porra! O que ele esta fazendo parado ai, sem dizer nada e me encarando desse jeito? — Calma. — diz levantando as mãos para cima. — Eu estava indo para casa e vi seu carro parado aqui e achei que precisasse de ajuda. Está tudo bem? Ele pergunta me avaliando. Que voz maravilhosa que ele tem, é levemente rouca e forte. Olho pelo retrovisor e vejo os faróis de um carro logo atrás do carro da minha tia, eu nem percebi quando ele chegou. Como o carro está totalmente desligado, não consigo abaixar apenas o vidro para falar com ele, então abro um pouco a porta para poder me comunicar melhor com esse homem estranho parado nessa estrada escura e deserta. — Si...sim. — digo gaguejando. — Está tudo bem, o motor do carro parou, os faróis e o painel apagou, eu não sei o que é, eu tentei ligar várias vezes mas não acontece nada. — Deve ser a parte elétrica. — diz o homem que nem sei o nome, olhando para o painel do carro. — Eu posso te aju... E ouço de novo aquele rosnado. Veio da floresta, das árvores próximas da estrada e foi tão alto, aquela coisa estava nos observando esse tempo todo. Meus olhos se voltam novamente para o homem parado do lado do carro em que estou. Do lado de fora. Preciso alertá-lo, ele corre perigo. — Merda, ele voltou. — digo olhando para os lados. — Entra no carro, é perigoso ai fora. — Quem voltou? — ele pergunta me encarando. — O animal, ele estava aqui a poucos minutos, tentou virar o carro, achei que tivesse voltado para a floresta. — digo um pouco rápido demais. — Por favor entra aqui. Suplico em desespero abrindo mais a porta do carro. Quando faço menção de me afastar para o banco do passageiro para que ele possa sentar no lado do motorista, ele segura meu braço com certa força. — Quem tem que sair dai é você. — diz me avaliando e olha para a floresta com certa preocupação, mas não medo. — O que? Você está maluco? O animal está ai fora. — digo, tentando tirar meu braço do aperto daquela mão. Mas ele me puxa para fora do carro com facilidade, minhas botas batem no chão e eu cambaleio, mas esse homem me endireita, tento me soltar de todo jeito mas ele é muito forte. — Para... — digo puxando meu braço. — Me solta, eu nem te conheço, que p***a você está fazendo, não percebe que é perigoso aqui? Aquele bicho aqui fora e ele querendo andar por ai. Ele pega no meu ombro e me vira para ficar de frente para ele. E, c****e! Ele consegue ser ainda mais lindo de perto, fica me olhando nos olhos e posso sentir sua respiração fria no meu rosto e seu cheiro maravilhoso. Ele é alto, mas eu também sou. — Se você ficar aqui você vai morrer, e eu não vou permitir que isso aconteça. — diz sacudindo levemente meu ombro. — O quê? — digo olhando suas mãos em cada lado do meu ombro e mesmo com o meu casaco percebo que suas mãos estão geladas. Ele deve estar mais assustado do que aparenta. — Vamos! — diz me arrastando para o seu carro. Ele abre a porta do carona, eu entro e logo a porta é fechada. Olho para a floresta tentando ver alguma coisa, mas nada. Estranho como ficou tudo tranquilo de repente. Dou um pulo de susto com o meu salvador abrindo a porta do carro e entrando. Ele me olha de lado por um momento julgando o meu susto repentino, da a partida e saímos dali. Eu sinto um alivio por estar saindo daquele lugar e voltando para a casa da minha tia, mas ao mesmo tempo apreensiva, pois estou dentro do carro de um homem que nem sei quem é. O olho e ele está encarando a estrada atentamente, e de vez em outra olha para a floresta. — O que era aquilo? — pergunto. — Aquilo o quê? — ele pergunta de volta mas sem me olhar. — O animal. — digo, ele sabe o que é eu tenho certeza. Afinal, ele disse que se eu ficasse ali iria morrer. Ele estava atento, alerta. — Eu sei que você sabe o que é. Digo o avaliando. Mas será que eu quero mesmo saber o que realmente é? — Coloca o cinto. — ordena e logo o faço. — O que era? — pergunto mais uma vez. — Você é bem insistente, não é?! — diz com a boca em uma linha rígida. — Não parece que queira mesmo saber. — Mas eu quero. — digo tentando parecer corajosa. — Era um vampiro? Pergunto envergonhada, afinal ele pode rir da minha pergunta. E é exatamente o que acontece, ele da uma risada baixa linda. Seu sorriso é lindo, com dentes perfeitos, uma boca maravilhosa. — O quê? — pergunto irritada. — Nada. — diz ele e sorri de novo limpando a garganta. — Não, não era um vampiro. — O que era então? — pergunto e ele me encara. — Era um lobisomem, não era? Ele olha para frente e encara a estrada mas sem de fato a ver, e parece que está travando uma batalha interna. Ele aperta o volante do carro com força e vejo os músculos do seu braço contraídos. — Sim. — Então eles existem. — digo em um sussurro mais para mim mesma. — Sim. — diz esse homem que nem sei o nome. Até pouco tempo atrás eu não acreditava nessas coisas. Se a pouco tempo atrás alguém me tivesse falado isso eu não iria acreditar e iria gargalhar na cara da pessoa. Mas eu sei o que eu vi e ouvi, eu sei o que aconteceu. Então ele sabe sobre os lobisomens, e como ele sabe? Será que ele é um deles. Será que ele está me levando para algum lugar para me matar por eu ter visto demais? — Você... Você é um? — pergunto o avaliando. — Um lobisomem? Ele me olha e fica me encarando sério, eu tento pegar algo em sua expressão mas ele não solta nada, seu rosto é passivo, frio. Meu coração está acelerado, minha respiração está alta e eu começo a sentir medo desse homem que está na minha frente. Até que ele vira para frente olhando para estrada de novo e responde. — Não.
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