Capítulo 06

1684 Palavras
— A melhor coisa a se fazer é aguardar essa infecção baixar um pouco. Entendo que está preocupado com o paciente, mas corremos o risco de ele parar na mesa de cirurgia. Temos que avaliar se ele realmente precisa passar por esse sofrimento, Doutor José Carlos. Júnior engoliu a decepção, era como sentir a vida do menino escorrer entre seus dedos, como areia. Contudo, tinha que dar razão ao Doutor Fritzz, não o faria vir até o Brasil só para realizar mais uma cirurgia m*l sucedida. O homem era orgulhoso de mais para isso. Fritzz havia se juntado ao grupo Smith, era o médico responsável por cirurgias de alto risco, o sucesso com Fernando lhe deu nome para tal. — Me mantenha informado, se o paciente tiver uma boa melhora eu viajo o quanto antes. - O rosto levemente vermelho do alemão mudou de designação para dúvida. — Preciso mesmo viajar ao Brasil, aquela pirracenta está me ignorando. - murmurou. — Até logo Doutor, me mantenha informado. A vídeo chamada encerrou, Júnior logo iniciou outra, dessa vez com Nando. — Fala boneca, um passarinho me contou que está saindo com uma policial. - Minha mãe pisou no interior, e já virou a vizinha fofoqueira. - Júnior riu, junto do amigo. — A história é um pouco diferente. Em outra hora eu te conto, vamos aos casos mais urgentes. Conversaram dessa vez sobre o caso de Marion. Graças à intervenção da mãe, ela ainda estava viva, muito embora esse tipo de Leucemia era agressiva, poucos pacientes saíam com vida. — Posso deslocar a Doutora Vicent, ela é especialista em Leucemia. Júnior fechou a cara, falar de Katy ainda era desconfortável para ele. — Não adianta fazer bico Júnior, ela queria mesmo conhecer unidade de Marília. Eu sei que é chato a situação, mas precisamos dela. — Pelo bem dos meus pacientes, - Ele encarou a amigo pela tela. — Que ela venha. Mas não quero proximidade fora do hospital. — Combinado. Vou ligar para ela e informar sobre a viagem. Depois da ligação Júnior ficou pensativo, trabalhou a tarde toda para não pensar no estrago que Katy podia fazer onde fosse. No fim da tarde rumou a UTI. — Doutor. - Ana se levantou, os olhos fundos denunciavam a falta de uma noite de sono. — Ana, conversei com um ótimo médico, ele me orientou a continuar o tratamento do Ben. Não lhe darei esperanças, mas se a infecção for contida, daremos continuidade ao tratamento intensivo. — Entendo. - Ela olhou de canto de olho para o filho. — Às vezes eu acho que estou lutando por mim. Porque ele já não quer mais viver. Benjamin era uma sombra do que já fora. As dores o faziam chorar muito, haviam veias escuras pelo corpo todo. Os órgãos volumosos faziam a barriga inchar. Júnior olhou para o menino. Desejou que ele sentisse paz e se fosse a hora, partisse. — Recebi a ligação do pessoal do projeto - Ana respirou fundo, havia dor até mesmo nesse ato. — Ben ganhou uns ingressos do Mac. Ele não disse nada, não podia. Ben estava ganhando um desejo, e bem simples até. Deixou mãe e filho e rumou até o quarto de Mari. Aquele dia parecia marcado para sofrimento. Encontrou a menina deitada, os olhos vermelhos cheios de lágrimas. Lillian estava com ela, falando ternamente com a irmã. — Tenha fé Mari, eu sei que é difícil. — Dói muito Li, o corpo todo. - Mari parecia muito mais frágil, travou o maxilar ao sentir mais uma onda de dor. Júnior entrou no quarto, percebeu que Lillian endureceu a postura. — Boa tarde meninas - Disse, — Mari alguma enfermeira te medicou? — Sim Doutor, acabou de sair, é que não aguento sentir essa dor maldita. - Ela apertou os olhos. — Hoje ela fez uma sessão de quimioterapia. - Lillian manteve os olhos na irmã. — Nas primeiras horas é normal sentir algumas dores, seu corpo está lutando contra a doença. Vai sentir vontade de vomitar, tonturas, alguns pacientes tem febre por algumas horas, desmaios. É seu corpo quem vai nos guiar querida. - Júnior afagou a mão de Marion. A menina pareceu ficar mais calma, deitou-se enquanto observava irmã com atenção. — Li, estou com sede, pode pegar um chá gelado para mim. — Claro Mari, só um minuto. Ela aguardou a irmã sair, voltou a sentar-se e o encarou. — E aí? — E aí que eu li sua lista de desejos, é um tanto estranha. Mas, - Ele deu uma breve olhada para fora. — Vou te ajudar nessa. — Vai ajudar porque achou ela bonita. - Mari sorriu em meio a outra crise de dor. — O que estão falando? - Lillian entrou no quarto, os olhos fixos na irmã. — Que está uma manhã bem bonita. - Mari sorriu. — Preciso falar com você, pode vir comigo? Lillian afirmou com um movimento de cabeça, acompanhou Júnior. Cavaleiro, ele esperou que ela entrasse no elevador. — Minha irmã... — Vai ficar sozinha mais um pouco. Sua irmã é bem esperta. - Ele cruzou os braços na frente do corpo. — Além do mais, tem algumas enfermeiras que adoram ficar no quarto dela, fuçando as redes sociais. Lillian saiu do elevador, nunca tinha ido naquele andar, reparou na secretária emburrada, e na sofisticação ali. Havia mais salas, uma delas com o nome de Fernando Olivar Smith, que ela bem sabia ser o dono de tudo aquilo. A sala do médico era bem organizada, com fotos dele em todas as partes. Júnior sentou-se em sua cadeira e cruzou os dedos na frente do corpo. Esperou que Lillian se sentasse para começar. — E então? - Ela o encarou. — Hoje pela manhã tive uma reunião com o médico responsável pelo andamento do projeto. Será deslocada uma especialista, que cuidará do caso da sua irmã. Lillian o olhou diretamente nos olhos. Ela parecia ser feita de ferro e fogo. A cor de mel líquido em contato com o sol mais parecia brasas. Havia algo nela, que o deixava estranhamente afoito. Lillian usava calça e camiseta, não se maquiava, os dentes eram bonitos, mas não eram perfeitos. Eram os olhos, a forma como o cabelo caída e moldava o rosto pequeno e angelical. Aqueles olhos duros, na verdade escondiam uma pessoa machucada. — Ela terá alta amanhã, os exames serão encaminhados para mim assim que estiverem todos prontos. — Obrigada Doutor. - Ela o respondeu apenas, Lillian sentia os lábios secos, as mãos inquietas. — Eu que lhe agradeço por ter mentido de certa forma para a minha mãe. - Júnior lhe disse. — Aliás, porque mentiu? — Porque você é uma boa pessoa, e em momento algum tentou tirar proveito da situação. - Lillian disse. — Quando sua mãe te olhou, eu vi os olhos da minha, no momento que eu saí para fora e a peguei. - Ela soltou o ar com força. — Não quero falar nisso. — Está certa. - Júnior pensou na maldita lista, ou começava por agora, ou não conseguiria nunca mais. — O que acha de um jantar? — Não podemos, Marion não está bem e... — Não. - Ele riu, contido. - Eu falo entre mim e você. — Um, agradecimento. Eu te devo isso. — Doutor, Júnior. Somos só eu e Mari aqui. Com quem eu deixaria a minha irmã? Júnior pensou, não teria coragem de deixar a menina com estranhos, até que a mente se iluminou. — Ela sai amanhã, na próxima sexta as sete horas eu passo na sua casa. - Ela tentou dizer, e Júnior a interrompeu. — E não, não aceito não como resposta. Tenho acesso ao seu endereço, então esteja realmente pronta. Lillian pensou em negar, contudo, Júnior era legal, acolheu as irmãs com carinho, e... Era bonito, um homem maduro, claramente sedutor. Fazia quanto tempo desde que ela saiu com alguém sem se preocupar com nada? — Certo. - Lillian se levantou. — Sexta eu lhe aguardo. Junior se levantou, um sorriso ladino nos lábios vermelhos, era bem maior que Lillian, estendeu a mão e quando ela aceitou, a levou aos lábios e depositou um beijo demorado. Lillian engoliu em seco, sentindo o rosto esquentar, manteve a pose, mas os olhos. Ah os olhos, ela sabia que não podia conter o brilho. Recolheu a mão e com um sorriso amarelo saiu da sala, atordoada rumou para a esquerda. — Mocinha? - Ela escutou. — Hey. - Ao virar-se viu a secretária de olhos duros. — O que foi? — O elevador fica para o outro lado. — Certo. Obrigada. A volta para o quarto fora meio atrapalhada, Lillian sentiu os olhares das enfermeiras em si, ao entrar no quarto se assustou. Marion conversava com um garoto não muito mais velho que ela. — Gostei de te encontrar aqui, Mari. - O garoto se inclinou e a beijou. — Fique bem. — Obrigada, Murilo. Murilo passou por Lillian como se ela não existisse. — Quem é esse? — Ele é da minha escola. Está no terceiro ano, Li. O Murilo veio visitar o irmão, acredita que ele está na mesma que eu? — Que pena. Mas ele não deixou de ter p***o. E eu não quero que você fique trazendo moleques para cá. — Eu não trouxe, tá! Ele veio procurando pelo irmão, credo Lillian, acho que você deveria virar freira. — E você também. - Lillian sentou de uma vez na cadeira. — Aliás, Júnior disse que está vindo um especialista para cá, por sua causa. Mari revirou os olhos e deu de ombros, repensou na conversa, até notar as bochechas vermelhas da irmã, e o provável apelido do Doutor José Carlos. — Júnior? — Doutor José Carlos. - Foi a vez de Lillian revirar os olhos. — Agora vai dormir. Mari se acomodou no travesseiro, fechou os olhos e sorriu. — Para de pensar naquele soca fofo. Vocês são duas crianças. Não era em Murilo que ela estava pensando. Afinal, Júnior cumpriu a parte dele do acordo. Estava se aproximando de Lillian.
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