Pré-visualização gratuita Capítulo 1 — Festas das Máscaras
Luna
Existem noites que mudam a nossa vida inteira.
Mesmo quando começam como qualquer outra.
E naquela noite…
eu achei que seria apenas mais um trabalho.
Mais uma festa luxuosa.
Mais homens ricos escondidos atrás de máscaras caras.
Mais olhares de desejo comprando mulheres como quem escolhe vinho raro.
Mais uma noite sendo Anne.
O carro preto parou diante da mansão iluminada enquanto a chuva fina caía sobre Milão.
Respirei fundo observando meu reflexo no vidro antes de sair.
Vestido preto justo.
Salto fino.
Máscara dourada cobrindo parte do rosto.
Bonita.
Treinada pra parecer inalcançável.
Mas vazia.
Completamente vazia.
O segurança abriu a porta do carro enquanto o som distante do violino atravessava a entrada principal da festa.
Luxo.
Dinheiro.
Pecado elegante escondido atrás de taças de cristal.
Meu estômago revirou discretamente quando dei os primeiros passos pelo enorme salão iluminado.
Homens poderosos.
Mulheres lindas.
Perfume caro.
Desejo.
Tudo exatamente igual às outras festas.
E mesmo assim…
alguma coisa naquela noite parecia errada.
Talvez porque eu estivesse cansada.
Cansada de sorrir fingindo prazer.
Cansada de ouvir outro nome saindo da minha boca.
Cansada de deixar partes minhas morrerem lentamente.
Os olhos deslizaram automaticamente pelo ambiente.
E então encontrei ele.
Eduardo.
Parado do outro lado do salão usando um terno cinza escuro perfeitamente alinhado.
Os olhos presos em mim.
Meu corpo inteiro gelou imediatamente.
Mesmo depois de eu ter me afastado da zona mais escura da prostituição…
mesmo depois de começar a trabalhar apenas nas festas de luxo…
Eduardo ainda me olhava como dono.
Como se eu ainda pertencesse a ele.
Meu peito apertou de nojo.
Porque eu conhecia aquele olhar.
Posse.
Controle.
Obsessão.
Ele ergueu lentamente a taça na minha direção.
Sorrindo de canto.
Doente.
A vontade foi sair correndo naquele instante.
Mas permaneci imóvel.
Treinada.
Sempre treinada.
Uma das mulheres da casa aproximou-se discretamente de mim.
Vestido vermelho.
Máscara prata.
Os olhos cansados iguais aos meus.
— O cliente principal chegou.
Engoli seco.
Claro.
Sempre existia um homem esperando.
Um homem pagando.
A música clássica ecoava pelo salão enquanto homens mascarados observavam cada mulher dali como predadores escolhendo carne.
Meu Deus.
De repente tudo pareceu sufocante demais.
Ajustei lentamente a máscara tentando respirar.
Então senti.
A sensação veio antes mesmo de eu encontrar os olhos dele.
Alguém me observava.
Mas não como os outros.
Não com fome.
Não com superioridade.
Não como mercadoria.
Virei lentamente o rosto.
E encontrei ele.
Terno preto.
Máscara escura cobrindo parte do rosto.
Alto.
Intenso.
Perigosamente bonito.
Mas foram os olhos que me destruíram.
Cristo.
Nunca ninguém me olhou daquele jeito antes.
Não havia luxúria barata ali.
Nem arrogância.
Só intensidade.
Uma intensidade tão profunda que fez meu peito falhar violentamente.
Meu Deus.
Era como se aquele homem conseguisse me enxergar.
Não Anne.
Não uma acompanhante de luxo.
Eu.
Luna.
A respiração ficou presa nos pulmões enquanto ele continuava parado do outro lado do salão sem desviar os olhos dos meus.
O mundo inteiro pareceu desaparecer.
A música.
As pessoas.
As luzes.
Tudo.
Só existia aquele olhar.
E aquilo me apavorou.
Porque pela primeira vez em anos…
eu me senti mulher.
Não produto.
Não fantasia masculina.
Mulher.
A garganta queimou discretamente.
Eduardo percebeu imediatamente.
Claro que percebeu.
Vi quando a expressão dele escureceu observando a direção do meu olhar.
Posse.
Ódio.
Mas pela primeira vez…
eu não conseguia prestar atenção nele.
Porque o homem de preto começou a caminhar na minha direção.
Lento.
Seguro.
Meu coração disparou tão forte que chegou a doer.
Cada passo dele parecia atravessar diretamente meu peito.
Meu Deus.
Quem era aquele homem?
Por que ele me olhava como se estivesse vendo alguma coisa preciosa?
Quando parou diante de mim…
o ar simplesmente desapareceu.
De perto era ainda pior.
Mais bonito.
Mais intenso.
Mais masculino.
O perfume dele me envolveu imediatamente.
Madeira escura.
Noite.
Perigo.
Mas estranho…
eu não senti medo.
Os olhos escuros percorreram lentamente meu rosto escondido pela máscara.
E então fixaram nos meus outra vez.
Profundos.
Como se tentassem decorar alguma coisa.
A voz saiu baixa.
Rouca.
Intensa demais:
— Qual é o seu nome?
Meu coração literalmente falhou.
Porque aquela pergunta…
meu Deus.
Ninguém perguntava meu nome.
Homens perguntavam preços.
Desejos.
Disponibilidade.
Mas não meu nome.
Nunca meu nome.
A resposta automática já estava pronta na ponta da língua.
Anne.
Sempre Anne.
Era regra.
Todas as garotas da casa usavam o mesmo nome.
Uma corrente invisível.
Uma forma de apagar quem éramos.
Mas olhando nos olhos daquele homem…
alguma coisa dentro de mim simplesmente quebrou.
Porque pela primeira vez…
eu queria existir.
Queria ser vista.
De verdade.
A garganta queimou violentamente.
Os olhos começaram a arder.
E antes que eu pudesse me impedir…
sussurrei:
— Luna.
Silêncio.
Meu Deus.
O mundo inteiro pareceu parar.
Porque eu nunca dizia meu nome.
Nunca.
Mas aquele homem…
aquele homem olhava pra mim como se Luna fosse a coisa mais bonita que ele já ouviu.
Os olhos escuros suavizaram imediatamente.
E aquilo…
aquilo acabou comigo.
Porque ninguém nunca reagiu ao meu nome daquele jeito antes.
Como se fosse importante.
Como se eu fosse importante.
A respiração falhou completamente.
As lágrimas começaram a subir desesperadamente.
Não.
Não ali.
Não naquela festa.
Mas já era tarde.
Porque alguma coisa tinha quebrado dentro de mim.
Ou talvez…
alguma coisa tivesse finalmente acordado.
Dei um passo pra trás imediatamente.
Assustada comigo mesma.
Com o que estava sentindo.
O homem franziu minimamente a testa.
Preocupado.
Meu Deus.
Até preocupação existia naquele olhar.
Não consegui suportar.
Virei rapidamente antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
E saí correndo.
Atravessei o salão ignorando vozes, música e olhares.
As lágrimas já escorriam pelo meu rosto quando alcancei os jardins enormes da mansão.
A chuva fria atingiu imediatamente minha pele.
Mas eu continuei andando.
Desesperada.
Ofegante.
As mãos tremiam enquanto arrancava a máscara do rosto.
Meu Deus.
Meu Deus.
Por que aquilo doía tanto?
Encostei-me numa coluna de mármore tentando respirar.
Mas as lágrimas não paravam.
Porque pela primeira vez em anos…
alguém tinha olhado pra mim como se eu fosse humana.
E eu não sabia mais sobreviver sendo vista daquele jeito.
A voz dele ainda ecoava dentro da minha cabeça.
“Qual é o seu nome?”
Luna.
Meu nome era Luna.
Não Anne.
Não fantasia.
Não personagem.
Luna.
E naquele instante…
chorando sozinha sob a chuva…
eu entendi que não conseguiria continuar vivendo daquela forma.
Porque aquele homem desconhecido tinha me mostrado uma coisa perigosa:
eu ainda existia dentro de mim.
Fechei os olhos sentindo a chuva misturar-se às lágrimas.
E naquele momento…
eu decidi.
Nunca mais seria quem eles queriam que eu fosse.
Nunca mais entregaria meu nome.
Nunca mais pisaria numa festa fingindo não sentir nada.
Eu seria apenas eu.
Luna.
Desde aquele dia…
eu rejeitei convites.
Rejeitei festas.
Homens ricos.
Hotéis luxuosos.
As agentes da casa começaram a ficar irritadas comigo rapidamente.
Claro.
Porque garotas como eu não podiam simplesmente desaparecer.
Éramos investimento.
Dinheiro.
Mercadoria bonita.
Mas alguma coisa dentro de mim tinha mudado naquela noite.
Ou talvez…
tivesse finalmente despertado.
Passei dias inteiros trancada no pequeno apartamento alugado olhando pela janela enquanto a chuva caía sobre Milão.
Sem conseguir dormir direito.
Sem conseguir esquecer.
Os olhos dele.
Meu Deus.
Os olhos daquele homem me perseguiam o tempo inteiro.
Porque ninguém nunca quis saber quem eu era antes.
Nunca.
Homens queriam meu corpo.
Minha boca.
Minha submissão.
Mas aquele desconhecido…
aquele homem de terno escuro…
quis meu nome.
Luna.
Só lembrar da forma como ele pronunciou silenciosamente meu nome com os olhos…
já fazia minha garganta apertar.
Às vezes eu me pegava pensando coisas absurdas.
Como:
“Será que ele percebeu que eu estava tremendo?”
Ou:
“Será que ele tentou me procurar naquela noite?”
Ridículo.
Completamente ridículo.
Mas eu não conseguia impedir.
Porque pela primeira vez em muitos anos…
um homem me fez sentir alguma coisa diferente de medo ou nojo.
Sentada no chão frio do apartamento numa madrugada silenciosa, abracei os próprios joelhos tentando controlar as lágrimas outra vez.
Eu estava cansada.
Cansada de sobreviver.
Cansada de me esconder atrás de outro nome.
Fechei lentamente os olhos lembrando da voz rouca dele.
“Qual é o seu nome?”
Cristo.
Aquela pergunta me destruiu inteira.
Porque eu percebi uma coisa terrível naquela noite:
eu sentia saudade de mim mesma.
A garota que sonhava estudar.
Escrever livros.
Viver uma vida normal.
Luna.
Não Anne.
Nunca mais Anne.
As ligações começaram no terceiro dia.
A agente da casa insistindo.
Clientes perguntando por mim.
Convites milionários.
Ignorei todos.
Até Eduardo apareceu na porta do meu apartamento.
Meu corpo inteiro gelou quando ouvi as batidas.
Fortes.
Impacientes.
Olhei pelo olho mágico e senti o estômago revirar imediatamente.
Eduardo.
Os olhos escuros carregados daquela obsessão doentia de sempre.
Abri a porta apenas o suficiente pra olhar pra ele.
— O que você quer?
O sorriso dele surgiu lentamente.
Frio.
Possessivo.
— Você sumiu.
Cruzei os braços tentando esconder o próprio desconforto.
— Eu tava cansada.
Os olhos dele percorreram lentamente meu corpo.
Como se ainda tivesse direito sobre mim.
Nojo.
— Você tá recusando clientes importantes.
A garganta queimou de raiva.
Porque era sempre assim.
Nunca importava como eu me sentia.
Só o dinheiro.
Só os homens.
Eduardo aproximou-se um pouco mais da porta.
— Não esquece quem ajudou você a sair da rua.
Meu corpo inteiro endureceu imediatamente.
Manipulação.
Sempre manipulação.
Mas alguma coisa agora era diferente.
Porque pela primeira vez…
eu não sentia medo suficiente pra obedecer.
Talvez porque um desconhecido me olhou como ser humano.
E isso muda tudo.
Respirei fundo lentamente.
— Eu não vou voltar pras festas.
O sorriso desapareceu do rosto dele.
Os olhos escureceram imediatamente.
Perigosos.
— Você acha que pode simplesmente sair?
Meu coração acelerou.
Mas permaneci firme.
Porque dentro da minha cabeça ainda existia aquele homem mascarado me olhando como se eu merecesse mais.
Mais do que aquilo.
Mais do que sobreviver.
Eduardo aproximou-se perigosamente.
A voz baixa.
Fria.
— Você pertence a essa vida.
Não.
A palavra ecoou dentro de mim imediatamente.
Não.
Pela primeira vez…
eu sabia disso.
Talvez ainda não soubesse quem eu seria.
Mas sabia exatamente quem não queria mais ser.
Levantei lentamente os olhos pra ele.
E respondi:
— Eu pertenço a mim.
O silêncio caiu entre nós.
Pesado.
Violento.
Eduardo me observou por longos segundos.
Ódio puro atravessando o olhar.
Então sorriu de novo.
Mas agora parecia ainda mais doente.
— Isso foi por causa daquele homem na festa?
Meu coração tropeçou violentamente.
Meu Deus.
Eduardo percebeu.
Claro que percebeu.
Ele percebia tudo que envolvia posse.
Aproximei imediatamente a mão da porta tentando encerrá-la.
— Vai embora.
Mas antes que eu fechasse…
ele segurou a porta com força.
Os olhos presos nos meus.
— Você vai lembrar de mim quando ele cansar de brincar de salvador.
A garganta queimou imediatamente.
Porque talvez ele estivesse errado sobre muitas coisas…
mas naquela parte…
meu maior medo era exatamente aquele.
Que tudo tivesse sido apenas um olhar bonito numa festa luxuosa.
Nada mais.
Eduardo finalmente soltou a porta.
Mas antes de ir embora…
disse baixo:
— Homens como ele não ficam.
Fechei a porta imediatamente depois que ele saiu.
As mãos tremendo.
A respiração falhando.
Então escorreguei lentamente até o chão do apartamento.
Sozinha.
Silenciosa.
Mas dessa vez…
não chorei de desespero.
Chorei porque pela primeira vez na vida…
eu queria algo diferente pra mim.
Fechei os olhos lembrando do homem mascarado.
Do jeito como me olhou.
Do jeito como quis saber meu nome.
E naquele instante…
abracei os próprios joelhos sentindo o peito apertar.
Porque se um dia eu pudesse agradecer aquele desconhecido…
eu diria:
obrigada por perguntar meu nome.