Pré-visualização gratuita 1- PIETRA
~Um ano atras~
Minha mãe estava saindo de casa com pressa para a rodoviária do Rio de Janeiro, - uma tia minha, irmã dela, estava doente e a minha mãe preocupada, foi cuidar dele num final de semana.
Pela primeira vez, a casa era minha.
Eu tinha acabado de fazer 18 anos, tinha ganhado uma bolsa para cursar técnico em enfermagem. Eu tinha 1,60m, porque tanto minha mãe quanto minha tia, eram baixinhas. Era morena clara, os cabelos pretos cacheados e olhos castanhos. Morava na Rocinha desde que eu nasci com a minha mãe, o meu pai ninguém sabe, como a maioria das pessoas, eu era uma das estatísticas sem pai no registo, mas o amor da minha mãe sempre foi suficiente.
O problema de morar na Rocinha com uma mãe superprotetora é que, até aquela noite de sábado, o meu mundo se resumia a ir para o curso e voltar para trancar a porta por dentro. Minha única amiga era a Íris, minha dupla nas aulas práticas, mas ela morava no asfalto e nossa rotina acabava quando o sinal batia. Eu não conhecia as festas, não conhecia a curtição. Só ouvia o eco das músicas subindo o morro.
Mas com a casa vazia e aquela chave pesando no meu bolso, o som do funk que batia na janela não parecia um aviso; parecia que o mundo lá fora estava finalmente me chamando. Era a minha chance.
Eu me arrumei com o que tinha no armário. Lavei meu único par de tênis brancos com escova de dente, coloquei um short jeans curto e uma blusinha preta simples. No espelho, eu parecia uma menina tentando brincar de ser mulher. Meu olhar de nervoso, entregava logo de cara o quanto eu era boba e assustada. Mesmo assim, tomei coragem e desci as vielas sozinha, com o coração na boca, achando que todo mundo na rua sabia que eu era uma intrusa.
O meu destino era o Baile da Gaiola, na quadra do Grêmio.
Quando cheguei, o som do grave do paredão era tão violento que sacudia o chão e fazia cada osso do meu corpo tremer. A quadra estava entupida. O cheiro do narguilé misturado com cheiro de cerveja e perfumes caros formava uma fumaça grossa no ar, com tudo mudando de cor por causa das luzes coloridas no teto. Fiquei paralisada, espremida perto de um poste, segurando um copo de plástico com energético que eu fingia que tinha álcool. Eu não tinha um grupo para rir ou dançar. Só ficava ali, puxando a barra do short para baixo a cada cinco minutos, com vergonha das minhas pernas e com medo de alguém notar o meu deslocamento.
Foi aí que a fumaça abriu e ele apareceu.
Ele não andava pelo baile, ele parecia o dono do lugar. Alto, com a barriga tanquinho aparecendo por cima da bermuda de marca, ele usava um cordão de ouro grosso com um pingente de cifrão que brilhava no escuro. O cabelo dele estava cortado na régua perfeita, com as pontinhas pintadas de loiro, e ele ostentava um sorriso de lado que mostrava que ele sabia exatamente o poder que tinha.
Naquela época, ele ainda não era o "02", mas já andava com os crias da contenção e tinha pose de chefe.
Nossos olhos se cruzaram por um segundo. Fiquei vermelha na hora, olhei para o chão e dei um gole no energético quente para disfarçar. Só que o Breno não era homem de aceitar que uma mulher desviasse o olhar dele.
Não deu nem dois minutos e um cheiro forte de perfume importado, meio doce, parou do meu lado. Quando levantei a cabeça, ele estava escorado no mesmo poste que eu, com um copo de uísque e gelo de coco na mão, me medindo de cima a baixo.
— Tá perdida, princesa? — a voz dele saiu rouca perto do meu ouvido, por causa do som alto. — Nunca te vi por aqui. E olha que eu conheço cada palmo da Rocinha. Cada morador eim
— Não tô perdida não — respondi, tentando parecer firme, embora minhas mãos estivessem geladas. — Só tô curtindo o baile.
Ele deu uma risada sincera, meio debochada como se já tivesse percebido que eu não estava acostumada com aquilo, mesmo vivendo na favela. Ele chegou mais perto, eu sintia o calor vindo dele, o perfume, o cheiro do whisky. Era o perigo fantasiado de sonho.
— Curtindo sozinha? Uma neném linda dessas, com esses cachos e esses olhos de santa, perdida no meio do bolo? — Ele estendeu a mão, cheia de anéis de ouro. — Meu nome é Breno. Mas pode me chamar de teu protetor da noite se você quiser.
Eu dei uma risada boba, daquelas que entregam toda a nossa inocência de bandeja para quem não presta. Tinha achado fofo, o neném que saiu da boca dele, a educação, o gesto.
— Pietra — falei, tocando a mão dele. A pegada dele era grande, firme e muito quente.
Naquela noite, o Breno não saiu do meu lado. Ele me levou para perto do camarote, pegou bebida e passou o baile me ouvindo. Contei sobre o curso, sobre como a Íris me ajudava a estudar e sobre o meu sonho de trabalhar num hospital grande no asfalto para tirar minha mãe dali. Ele ouvia tudo balançando a cabeça, olhando no fundo dos meus olhos como se eu fosse a joia mais rara daquela quadra inteira. Como se tudo aquilo que eu quisesse, tivesse encantado ele.
— Você é diferente dessas garotas daqui, Pietra — ele sussurrou, com a boca encostada no meu pescoço, me fazendo arrepiar inteira.
— Você é pura. Tem cheiro de menina limpa, de família. Homem nenhum aqui é maluco de triscar em você se estiver do meu lado.
Aquelas palavras grudaram na minha mente. Pela primeira vez na vida, eu não me senti invisível ou a menina sem graça do barraco do fundo. Ele estava me colocando em um pedestal. Quando o dia clareou, ele fez questão de me acompanhar até a porta de casa.
Não tentou nenhuma safadeza; me deu só um beijo calmo na testa e um selinho demorado, prometendo me ligar no dia seguinte. Estendendo o celular dele para eu por meu numero e assim que eu devolvi, ele fez questão de ligar e confirmar que o numero estava certo.
Subi as escadas flutuando, com o peito explodindo de felicidade, a barriga borbulhava. Olhei para a casa vazia e, pela primeira vez, não me senti sozinha. Agora eu tinha o Breno.
Eu era tão boba, tão inocente. Não tinha idéia que eu estava assinando um contrato com o próprio d***o. O príncipe encatado que cuidou de mim no baile, que me escutou, meses depois, iria me deixar entre a vida e a morte.
Não sabia que o jeito doce, o toque calmo, mudaria para roupas rasgadas, abandono do meu sonho. Eu não sabia que ele transformaria a minha vida num inferno de trancas, hematomas e choro escondido.
Ali, olhando o sol nascer pela fresta da telha, eu era só a Pietra: uma menina boba, apaixonada e completamente cega para o monstro que tinha acabado de me escolher.