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A Teoria do Chaos e do Chocolate

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Sinopse

Há anos Vincent Vane, um dos historiadores mais renomados da América, esqueceu o que era o sabor de um doce. Sua vida se resumia a restaurar o que o passado deixou para trás: livros milenares, mapas náuticos e tratados em latim. E café. Muito café preto e amargo.

Sua rotina no 4B era um santuário de silêncio e regras inquebráveis. No mundo de Vincent, o que é antigo é seguro; o que é presente é perigoso. Ele nunca mudava nada, porque mudar significava arriscar-se a perder de novo.

Até que a porta ao lado se abriu.

Catalina Montoya.

Ela era o caos solar em forma de confeiteira. Cheirando a baunilha, falando com as mãos e trazendo o barulho da vida para um corredor que Vincent tentou manter como um mausoléu.

Ele queria distância. Ela precisava de socorro.

E entre o açúcar dela e o amargo dele, Vincent vai descobrir que algumas coisas, como o coração, não podem ser restauradas em silêncio.

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Baunilha e Papel Velho
Vincent Vane O despertador tocou. Meus olhos protestaram por meio segundo antes que eu os abrisse para encarar mais um dia. Cinco da manhã em ponto. Rolei na cama vazia até encontrar a beirada dela. O silêncio do apartamento era meu único aliado, quase meu melhor amigo. Levantei-me da cama, sentindo o chão gelado do quarto enviar um pequeno choque térmico por todo meu corpo. Em passos lentos entrei primeiro no banheiro. O reflexo no espelho me encarou como se eu fosse seu inimigo matinal. E talvez eu fosse. Não havia um único fio de cabelo no lugar. A barba de uma semana começava a pinicar meu queixo. — Não me olha assim, aquele quadro precisa ser restaurado. — resmunguei para o reflexo e abri a torneira. O contato com a água gelada ajudou com o despertar, mas não era suficiente. Saí do banheiro secando o rosto com uma toalha áspera. O café era o próximo passo da minha coreografia mecânica. Eu sabia exatamente quantos gramas de grãos precisava moer para que o amargor fosse o suficiente para calar os fantasmas da madrugada. Mas, enquanto a água começava a aquecer, o meu "melhor amigo", o silêncio, foi esfaqueado. Primeiro, veio o som metálico de chaves lutando contra uma fechadura no corredor. Depois, o baque de algo pesado atingindo o chão de madeira do 4C. E, por fim, o rastro de algo que não pertencia ao meu mundo de poeira e pergaminhos. Baunilha. Um cheiro doce, invasivo e absurdamente quente começou a serpentear pelas frestas da minha porta, contaminando o ar estéril do meu santuário. Olhei para o relógio na parede. 05:15 da manhã. A vizinha nova tinha chegado. E toda a paz que eu tinha com o silêncio havia morrido naquele instante. Eu podia ouvir pelas paredes finas o som de caixas sendo abertas, objetos rolando, rodinhas de mala arrastando. Quem faz uma mudança às cinco da manhã? Enquanto eu passava o meu café, eu ouvia uma melodia passando pelas festas. A voz era tão doce quanto o cheiro. Mas irritante da mesma forma. A melodia era estrangeira, saltitante, cheia de consoantes que eu não conseguia identificar de imediato, mas que soavam como um insulto à minha quietude. Eu conhecia o silêncio de bibliotecas monásticas e de arquivos subterrâneos, mas não conhecia o som de alguém que parecia... Feliz às cinco da manhã. — Inacreditável .— murmurei, despejando a água quente sobre o pó de café com uma precisão que beirava a obsessão. Eu tentei focar no fluxo do líquido, no aroma terroso que deveria me aterrar ao presente. Mas a vizinha do 4C tinha outros planos. Um estrondo metálico, algo como uma pilha de panelas atingindo o chão, reverberou pela parede comum, fazendo a minha caneca de cerâmica vibrar sobre o balcão. O quadro de 1860 estava na sala, esperando por mim. Ele era frágil. Ele era insubstituível. E ele não sobreviveria a um terremoto causado por uma vizinha desastrada. Larguei a chaleira. Meus dedos formigaram, uma mistura de ansiedade técnica e irritação genuína. Eu não queria interações humanas, eu não queria vizinhos, e eu certamente não queria baunilha no meu sistema respiratório. Caminhei até a porta, cada passo dado com a força de quem está prestes a declarar guerra. Eu ia acabar com aquela sinfonia de mudanças antes mesmo do sol nascer. Abri a porta devagar para que o calor do corredor não invadisse meu apartamento de uma vez. Havia umas centenas de caixas espalhadas pela porta do 4C. Parecia que um navio de carga havia naufragado no nosso corredor de carvalho. E no meio dos destroços de papelão e fita adesiva, o caos tinha um rosto. Ela estava de costas para mim, agachada sobre uma caixa que parecia conter metade da produção de cobre da França. O dólmã de chef estava desabotoado no colarinho, as mangas dobradas revelando braços finos, mas que pareciam carregar o peso do mundo sem reclamar. O cabelo escuro estava preso em um nó que desafiava as leis da gravidade. — Com licença — eu disse. Minha voz soou mais grave do que o normal no corredor vazio, o tom que eu usava para encerrar debates em conferências. Ela deu um pulo, soltando um som abafado de surpresa, e se virou tão rápido que quase derrubou uma torre de livros de receitas. Meus olhos pararam no rosto dela. Ela tinha olhos cor de mel que pareciam processar mil informações por segundo, e olheiras escuras por baixo deles. Parecia alguém exatamente como todos os seres humanos parecem à essa hora. Exausta. — Ay! Dios! — ela sussurrou, levando a mão ao peito e soltou um suspiro. — O senhor quase me mata de susto! — O barulho é excessivo. — disparei, cruzando os braços e ignorando o fato de que o perfume dela agora era uma névoa espessa ao meu redor. — Eu tenho material sensível no 4B. Restauros de importância nacional. E as suas panelas estão fazendo o meu balcão vibrar. Catalina, eu sabia o nome e me recusava a pronunciar, me encarou por um segundo, as sobrancelhas erguidas. Ela me mediu de cima a baixo, do meu cabelo bagunçado à minha calça de pijama escura, com uma audácia que ninguém tinha tido comigo em anos. — Me desculpe, senhor. Eu tropecei numa caixa. — ela respondeu, olhando ao redor. — E o ajudante da mudança me deixou na mão. Então eu... Aí, deixa. Vou tomar mais cuidado. Por um segundo eu me senti o pior ser humano do planeta. Só um mesmo. Mas foi o suficiente. Eu deveria ter batido a porta. Deveria ter voltado para o meu café e para o meu quadro de 1860, deixando que ela se resolvesse com as leis da gravidade e as caixas de papelão. Mas as olheiras dela eram profundas demais. E o jeito como ela tentou empurrar aquela caixa de cobre com o pé, uma tentativa falha de liberar o caminho, me deu um nó no estômago que eu não sentia há muito tempo. — Espere. — eu disse, antes que meu cérebro pudesse filtrar a ordem. Catalina parou, a mão na maçaneta da própria porta, e me olhou por cima do ombro. O olhar dela não era de derrota, era de uma resiliência irritante. — O quê? Vai me dar uma multa por ruído? — Eu não dou multas. — Bufei, dando um passo para fora do meu santuário e entrando naquele campo minado de papelão. — Mas se você derrubar isso de novo, vai acordar o sindico no 5º andar. E ele é muito menos paciente que eu. Me agachei perto da caixa maior. Meus dedos, acostumados a tocar pergaminhos com a delicadeza de um cirurgião, agarraram as abas de papelão. O peso era absurdo. O que ela tinha ali dentro? Chumbo? — Não precisa, senhor... — Só me diz onde devo colocar. — resmunguei, sentindo uma vontade absurda de largar tudo ali e voltar para minha toca. — Na cozinha, por favor. — Ela abriu a porta por completo, dando espaço para que eu entrasse. O apartamento dela era o oposto do meu. Onde o meu era sombra e ordem, o 4C era uma explosão de caixas abertas, plantas que pareciam ter sobrevivido a um furacão e o cheiro de baunilha que agora me atingia como uma parede sólida. Atravessei a sala com o peso tensionando meus trapézios, sentindo o olhar dela queimando nas minhas costas. Coloquei a caixa sobre o balcão de granito com um baque controlado. — Pronto. — Limpei as mãos na calça do pijama, evitando olhar ao redor. Eu não queria conhecer os detalhes da vida dela. Detalhes geravam conexões, e conexões eram perigosas. — Tente não derrubar mais nada. O silêncio é um recurso escasso neste prédio. — Eu vou tentar, prometo. — Ela estava encostada no batente da porta, os braços cruzados. O cansaço ainda estava lá, mas havia um brilho novo nos olhos cor de mel. Um brilho de diversão. — E obrigada... Senhor "Importância Nacional". — É Vincent. — soltei, já caminhando em direção à saída, sentindo que meu oxigénio estava acabando naquele ambiente tão... Adocicado. — Vincent. — o modo como ela disse meu nome, com o sotaque arrastado, fez a palavra soar estranha aos meus próprios ouvidos. — Eu sou a Catalina. Mas acho que você já sabia disso. Não respondi. Voltei para o 4B e bati a porta, girando a tranca com uma pressa que beirava o pânico. Encostei as costas na madeira fria e fechei os olhos. O silêncio estava lá, me esperando como um velho amigo. Mas, pela primeira vez em anos, ele parecia insuficiente. E o meu café, que antes era o ápice da minha manhã, agora tinha gosto de cinzas. Eu precisava focar no quadro de 1860. Precisava me perder no passado. Porque o presente tinha acabado de se mudar para a porta ao lado, e ele cheirava a doce de leite e problemas.

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