Serena narrando…
Depois de tudo que eu falei…
de tudo que saiu de dentro de mim…
eu me senti… vazia.
Não de um jeito r**m.
Mas como se tivesse tirado um peso que eu carregava há muito tempo.
E mesmo assim…
ainda doía.
Meu corpo ainda doía.
Minha cabeça ainda estava cheia.
Mas tinha algo diferente.
Eu não estava mais sozinha naquele momento.
Luna ainda estava ali.
Sentada ao meu lado.
Presente.
E isso…
isso era novo pra mim.
Ela se levantou devagar da cama.
Luna:
— Você deve estar com fome.
Eu nem tinha pensado nisso.
Mas quando ela falou…
meu estômago respondeu na hora.
Baixinho.
Constrangido.
Eu fiquei com vergonha.
Mas ela só deu um sorrisinho de canto.
Luna:
— Vem.
Falou simples.
— Vou fazer alguma coisa pra gente comer.
Assenti.
Devagar.
E levantei da cama.
Meu corpo reclamou.
Mas menos do que antes.
Talvez por causa do banho.
Ou talvez…
porque eu estava em um lugar diferente.
Seguimos até a cozinha.
E aquilo me chamou atenção na hora.
Era simples.
Mas organizada.
Tudo no lugar.
Panelas limpas.
Cheiro bom.
Casa de verdade.
Luna já foi direto pra pia, pegando uma panela.
Luna:
— Vou fazer uma sopinha.
Pausa.
— De feijão.
Aquilo me fez engolir seco.
Porque fazia tempo…
muito tempo…
que eu não comia algo feito assim.
Com cuidado.
Com calma.
Fiquei encostada na parede, observando.
Ela se movimentava com facilidade.
Sabia onde tudo estava.
Como fazer.
Como alguém que já estava acostumada com aquilo.
Enquanto eu…
só olhava.
Luna colocou água, tempero, mexeu…
e o cheiro começou a subir.
Quente.
Aconchegante.
Meu estômago apertou.
Mas dessa vez…
não era dor.
Era fome.
Fome de verdade.
Depois de alguns minutos em silêncio, eu falei.
Baixinho.
Serena:
— Sua mãe…
Ela virou o rosto de leve.
Luna:
— O que tem?
Eu hesitei.
Mas perguntei.
Serena:
— Ela tá em casa?
Luna voltou a mexer na panela.
Luna:
— Não.
Pausa.
— Ela tá na igreja.
Assenti.
Serena:
— Ainda?
Ela sorriu de leve.
Luna:
— Minha mãe é dessas.
Pausa.
— Quando se envolve… vai até o fim.
Mexeu mais um pouco.
Luna:
— Ela deve voltar tarde hoje.
Silêncio.
Mas não desconfortável.
Serena:
— Ela é boa.
Falei sem pensar.
Ela olhou pra mim.
E sorriu.
De verdade.
Luna:
— É.
Pausa.
— Ela é.
E voltou pro que estava fazendo.
Fiquei ali.
Observando.
Sentindo.
Tentando entender aquela realidade nova.
Depois de um tempo, ela desligou o fogo.
Pegou dois pratos.
Serviu.
E me entregou um.
Luna:
— Cuidado, tá quente.
Segurei com as duas mãos.
Com cuidado.
E fui até a mesa.
Sentamos.
Frente a frente.
Olhei pro prato.
A sopa simples.
Mas perfeita.
Dei a primeira colherada.
E na hora…
meu peito apertou.
Porque estava bom.
Muito bom.
Quente.
Saboroso.
De verdade.
Eu não consegui segurar.
As lágrimas vieram.
Silenciosas.
Caindo devagar.
Luna percebeu.
Claro que percebeu.
Mas não falou nada.
Só continuou comendo.
Respeitando.
E aquilo foi ainda mais importante.
Comemos em silêncio.
Mas um silêncio bom.
Diferente.
Depois que terminamos, ela recolheu tudo.
Lavou.
Organizou.
E então voltou pra mim.
Luna:
— Vamos dormir.
Assenti.
Porque o cansaço bateu de vez.
Forte.
Seguimos pro quarto.
Ela ajeitou a cama.
Arrumou o travesseiro.
Organizou tudo.
Como se já estivesse acostumada a cuidar de alguém.
Luna:
— Você dorme aqui.
Apontou.
— Eu fico do outro lado.
Assenti.
Sem discutir.
Deitei.
Devagar.
O corpo afundou no colchão.
Macio.
Quente.
Seguro.
Puxei o lençol.
E pela primeira vez…
eu não senti medo de fechar os olhos.
Luna apagou a luz.
E deitou também.
O quarto ficou em silêncio.
Mas não vazio.
Eu ainda conseguia ouvir a respiração dela.
Calma.
Tranquila.
E aquilo…
aquilo me acalmou.
Serena (pensando):
— Eu tô segura…
E essa foi a última coisa que eu pensei…
antes de dormir.
Um sono pesado.
Profundo.
Sem pesadelo.
Sem grito.
Sem dor.
Só… descanso.
Quando eu abri os olhos de novo…
já era outro dia.
Demorei alguns segundos pra entender.
A luz entrando pela janela.
Clara.
Suave.
O quarto silencioso.
Meu corpo…
menos pesado.
Menos dolorido.
Mas ainda cansado.
Virei o rosto devagar.
E vi.
Luna.
Ainda dormindo.
De lado.
Respiração tranquila.
Cabelo espalhado no travesseiro.
Bonita.
Mesmo assim.
Eu fiquei quieta.
Sem me mexer.
Sem fazer barulho.
Só observando.
E sentindo.
Uma sensação estranha.
Mas boa.
De calma.
De paz.
De… começo.
Puxei um pouco mais o lençol.
E continuei deitada.
Porque pela primeira vez…
eu não precisava fugir.
E talvez…
eu pudesse ficar.