Luna narrando…
Eu já tinha visto muita coisa nesse morro.
Gente chegando cheia de esperança… e quebrando depois.
Gente forte… desmoronando.
E gente quebrada…
tentando fingir que tava inteira.
Mas a Serena…
era diferente.
Ela não fingia.
Ela não escondia.
Ela só… sobrevivia.
E aquilo me pegou de um jeito que eu não tava esperando.
Eu sentei ao lado dela na cama, observando com mais calma agora. Depois do banho, depois de tirar aquela camada de sujeira e dor aparente… dava pra ver melhor.
E foi aí que eu percebi de verdade.
Ela era linda.
Muito.
Não era uma beleza forçada, montada… não.
Era natural.
Do tipo que chama atenção sem tentar.
Cabelo longo, mesmo bagunçado, ainda bonito.
Rosto delicado… mesmo marcado.
Corpo…
Eu olhei rápido.
Mas não tinha como não notar.
Cintura fina.
Pernas grossas.
Curvas que muita mulher daria tudo pra ter.
E aquilo me revoltou um pouco.
Luna (pensando):
— Como alguém faz isso com uma menina assim?
Respirei fundo.
Passei a mão de leve no braço dela.
Com cuidado.
Porque eu sabia que qualquer toque podia doer.
Luna:
— Serena…
Ela virou o rosto devagar pra mim.
Ainda com aquele olhar inseguro.
Como se estivesse esperando algo r**m a qualquer momento.
Aquilo partia o coração.
Luna:
— Você é muito linda.
Falei direto.
Sem rodeio.
Sem suavizar.
Ela travou.
Na hora.
Serena:
— Eu… não sou…
Eu ri baixo.
Mas não de deboche.
Luna:
— É sim.
Pausa.
— E eu não falo isso pra qualquer uma não.
Ela desviou o olhar.
Envergonhada.
E eu percebi.
Ela realmente não fazia ideia.
Do quanto era.
E isso…
isso me deu ainda mais vontade de ajudar.
Luna:
— E outra coisa…
Ela voltou a me olhar.
Devagar.
Eu sorri de leve.
Mas firme.
Luna:
— A partir de agora…
Pausa.
— você é minha amiga.
Ela arregalou os olhos.
Como se não entendesse.
Como se aquilo fosse grande demais.
Serena:
— Amiga?
Assenti.
Luna:
— Minha melhor amiga.
Simples.
Direto.
Porque eu já tinha decidido.
Ela não ia passar por aquilo sozinha.
Não mais.
Serena me olhou como se estivesse tentando acreditar.
Mas sem conseguir.
Serena:
— Mas… você nem me conhece…
Dei de ombros.
Luna:
— Conheço o suficiente.
Pausa.
— E isso já basta.
Silêncio.
Mas não era pesado.
Era… novo.
Pra ela.
E pra mim também.
Luna:
— E eu vou te ajudar.
Falei firme.
Sem hesitar.
Luna:
— A se cuidar.
— A se recuperar.
— A voltar a se olhar no espelho sem medo.
Pausa.
— A viver de verdade.
Ela engoliu seco.
Eu vi.
Mas não desviou.
Serena:
— Por quê?
De novo aquela pergunta.
Sempre.
Respirei fundo.
Luna:
— Porque ninguém merece viver daquele jeito.
Pausa.
— E porque agora você não tá mais sozinha.
Aquilo ficou no ar.
Por alguns segundos.
E então…
ela relaxou um pouco.
Não totalmente.
Mas um pouco.
E já era um começo.
Ficamos em silêncio.
Mas não por muito tempo.
Porque ela falou.
Baixinho.
Serena:
— Luna…
Olhei pra ela.
Luna:
— Oi.
Ela hesitou.
Mas perguntou.
Serena:
— Aquele… menino…
Pausa.
— que falou com você…
Eu já sabia.
Mas fiz cara de quem não entendeu.
Luna:
— Qual?
Ela desviou o olhar.
Serena:
— O… Léo.
Soltei um sorriso de canto.
Ah…
então ela reparou.
Mesmo daquele jeito.
Interessante.
Luna:
— Leonardo.
Corrigi.
Mas sem peso.
Luna:
— Mas todo mundo chama de Léo mesmo.
Ela assentiu.
Serena:
— Quem ele é?
Encostei um pouco na cabeceira.
Pensando.
Luna:
— Eu não conheço ele direito.
Pausa.
— Cheguei tem pouco tempo aqui também.
Ela me olhou com atenção.
Eu continuei.
Luna:
— Mas já ouvi falar.
Pausa.
— Ele é um dos subcomandantes do morro.
Serena arregalou os olhos.
Serena:
— Subcomandante?
Assenti.
Luna:
— É.
Pausa.
— Ele… o Afonso…
— e o Felipe.
O nome ficou no ar.
Mas eu não aprofundei.
Ainda não.
Luna:
— Eles que mandam aqui.
Serena ficou quieta.
Processando.
Serena:
— Ele pareceu…
Pausa.
— diferente.
Eu ri.
Luna:
— Diferente como?
Ela deu de ombros.
Serena:
— Não sei…
Pausa.
— confiante.
Soltei um riso leve.
Luna:
— Isso ele é mesmo.
Pausa.
Inclinei a cabeça de leve.
Luna:
— E outra coisa também.
Ela me olhou.
Curiosa.
Luna:
— Ele é gato.
Falei sem vergonha.
Sem filtro.
Porque era verdade.
Serena arregalou levemente os olhos.
Surpresa.
Serena:
— Você acha?
Eu ri.
Luna:
— Acho não…
Pausa.
— tenho certeza.
Ela desviou o olhar de novo.
Mas dessa vez…
não era vergonha.
Era… outra coisa.
Talvez curiosidade.
Talvez só tentando entender aquele mundo novo.
Luna (pensando):
— Essa menina ainda vai descobrir muita coisa…
Olhei pra ela.
Mais calma agora.
Mais leve.
Mas ainda frágil.
E naquele momento…
eu tive certeza.
Ela chegou quebrada.
Mas não ia ficar assim.
Não comigo.
Porque agora…
ela tinha alguém.
E eu…
já tinha decidido.
Eu não ia soltar ela.