Serena narrando…
A água ainda escorria pelo meu corpo quando eu desliguei o chuveiro.
Fiquei parada por alguns segundos ali.
Sem me mexer.
Sem pensar.
Só sentindo.
Sentindo a água levando embora a sujeira… o suor… o cheiro… um pouco da dor que parecia grudada em mim há anos.
Mas não levava tudo.
Nunca leva.
Passei a mão devagar pelo braço.
Ainda doía.
Os machucados ardiam com o contato da água.
Alguns mais fundos.
Outros mais recentes.
Outros antigos…
que nunca chegaram a sumir de verdade.
Respirei fundo.
O vapor do banheiro deixava tudo meio embaçado.
Quente.
Aconchegante.
E estranho.
Porque eu não estava acostumada com aquilo.
Banho quente.
Toalha limpa.
Privacidade.
Tudo aquilo parecia… luxo.
Peguei a toalha que a Luna tinha me dado.
Branca.
Cheirosa.
Limpa de verdade.
Sequei meu corpo devagar.
Com cuidado.
Como se qualquer movimento mais brusco pudesse quebrar alguma coisa dentro de mim.
Depois olhei pra roupa.
O pijama.
Dobradinho.
Em cima da pia.
Passei a mão pelo tecido.
Macio.
Leve.
Engoli seco.
Serena (pensando):
— Isso é meu agora?
A pergunta veio sem resposta.
Mas mesmo assim…
eu vesti.
Devagar.
Com cuidado.
Como se tivesse medo de sujar.
Ou de não merecer.
A blusa ficou um pouco larga.
O short também.
Mas confortável.
Muito confortável.
Mais do que qualquer coisa que eu já tinha usado na vida.
Passei a mão pelo cabelo molhado, tentando organizar.
Mas ele ainda estava embolado.
Pesado.
Cansado.
Igual a mim.
Respirei fundo.
E saí.
O quarto estava do mesmo jeito.
Organizado.
Cheiroso.
Seguro.
Luna estava sentada na cadeira.
Esperando.
Ela levantou o olhar quando me viu.
E ficou em silêncio por alguns segundos.
Me olhando.
Mas não daquele jeito que eu estava acostumada.
Não era julgamento.
Nem nojo.
Nem desprezo.
Era… outra coisa.
Algo que eu ainda não sabia identificar direito.
Mas que me deixava desconfortável mesmo assim.
Baixei o olhar.
Instintivamente.
Serena:
— Desculpa…
Falei baixo.
Ela franziu a testa na hora.
Luna:
— Por quê?
Eu dei de ombros.
Sem saber explicar.
Porque eu sempre pedia desculpa.
Por existir.
Por estar ali.
Por ocupar espaço.
Caminhei até a cama.
Devagar.
E sentei.
O colchão afundou um pouco.
Macio.
Muito diferente do chão duro que eu estava acostumada.
Passei a mão no lençol.
Limpo.
Quente.
Sem buraco.
Sem sujeira.
Sem cheiro r**m.
Aquilo me deu vontade de chorar.
Mas eu segurei.
Deitei devagar.
O corpo doeu.
Mas ao mesmo tempo…
relaxou.
Como se finalmente tivesse encontrado um lugar pra parar.
Fechei os olhos por um segundo.
Mas não dormi.
Porque eu sabia…
que aquilo não ia durar.
Ou pelo menos…
era o que minha cabeça dizia.
A cadeira fez um leve barulho.
Luna se mexeu.
E depois de alguns segundos…
falou.
Luna:
— Serena…
Abri os olhos.
Devagar.
E virei o rosto na direção dela.
Ela estava me olhando.
Séria.
Mas não dura.
Só… preocupada.
Luna:
— O que é tudo isso no teu corpo?
A pergunta veio direta.
Mas sem agressividade.
Mesmo assim…
doeu.
Engoli seco.
Olhei pro teto.
Sem responder.
Mas ela continuou.
Luna:
— Uma menina tão linda…
Pausa.
— E tão machucada.
Meu peito apertou.
Forte.
Porque ninguém nunca tinha falado aquilo pra mim.
Nunca.
Linda.
A palavra parecia… errada.
Fora do lugar.
Serena:
— Eu não sou…
Falei baixo.
Quase um sussurro.
Ela me interrompeu.
Luna:
— É sim.
Firme.
Sem hesitar.
Olhei pra ela.
Confusa.
E ela continuou:
Luna:
— E não devia estar assim.
Silêncio.
Pesado.
Minha garganta travou.
Mas dessa vez…
eu não consegui fugir.
Porque ela estava ali.
Me olhando.
Esperando.
E não com julgamento.
Mas com… cuidado.
Respirei fundo.
Uma vez.
Duas.
E então…
eu falei.
Devagar.
Serena:
— Eu moro…
Parei.
Corrigi.
— Morava…
A palavra doeu.
Mas ao mesmo tempo…
libertou um pouco.
Serena:
— Em um barraco.
Pausa.
— No interior.
Olhei pro lado.
Sem conseguir encarar ela direto.
Serena:
— Meu pai…
Minha voz falhou.
Respirei fundo.
Tentei de novo.
Serena:
— Meu pai bebe.
Pausa.
— Usa droga.
Silêncio.
Luna não falou nada.
Só ouviu.
Serena:
— Minha mãe também.
Pausa.
— Mas ela…
Engoli seco.
— Ela nunca fez nada.
Minha voz começou a tremer.
Serena:
— Ela só… assistia.
As lágrimas começaram a acumular.
Mas eu continuei.
Porque se eu parasse…
eu não ia conseguir voltar.
Serena:
— Desde pequena…
Pausa.
— eu aprendi a ficar quieta.
— A não responder.
— A não olhar.
Minha respiração ficou irregular.
Serena:
— Porque qualquer coisa…
— qualquer coisa…
A voz quebrou.
— virava motivo.
Fechei os olhos.
E dessa vez…
não consegui segurar.
As lágrimas escorreram.
Quentes.
Pesadas.
Serena:
— Ele batia.
Pausa.
— Por tudo.
— Por nada.
— Só porque queria.
Meu corpo tremeu.
Mesmo deitada.
Serena:
— E quando não era ele…
— era a vida.
Soltei um riso fraco.
Sem graça.
Serena:
— Fome.
— Frio.
— medo…
Minha voz ficou mais baixa.
Serena:
— Sempre medo.
Silêncio.
Luna ainda não tinha falado nada.
Mas eu sentia.
Ela estava ali.
Presente.
Serena:
— Eu cresci assim.
Pausa.
— Achando que era normal.
Olhei pro teto.
As lágrimas ainda escorrendo.
Serena:
— Que eu merecia.
Silêncio.
Pesado.
Longo.
Serena:
— Até que…
Respirei fundo.
Serena:
— a igreja apareceu.
Pausa.
— E a Celine…
Um leve alívio passou pelo meu peito ao falar o nome dela.
Serena:
— Ela me viu.
Pausa.
— De verdade.
Minha voz suavizou.
Serena:
— E disse que eu podia sair.
— Que eu não precisava viver assim.
Olhei pra Luna.
Pela primeira vez.
Direto.
Serena:
— Mas eu tinha medo.
Pausa.
— Muito medo.
Minha voz ficou firme.
Mesmo com as lágrimas.
Serena:
— Só que naquele dia…
Engoli seco.
Serena:
— ele bateu mais forte.
Pausa.
— Muito mais.
Meu corpo se encolheu levemente.
Serena:
— E eu achei…
Pausa.
— que não ia aguentar.
Silêncio.
Serena:
— Então eu fui.
Simples.
Mas pesado.
Serena:
— Sem nada.
— Sem documento.
— Sem roupa.
— Sem saber pra onde.
Olhei pra baixo.
Serena:
— Só fui.
As lágrimas continuavam.
Mas agora…
mais calmas.
Mais leves.
Serena:
— Porque qualquer coisa…
Pausa.
— era melhor do que ficar.
Silêncio.
Luna finalmente se mexeu.
Levantou da cadeira.
E veio até a cama.
Sentou ao meu lado.
Com cuidado.
Sem invadir.
Mas presente.
Luna:
— Você foi muito forte.
Eu balancei a cabeça.
Serena:
— Eu só fugi.
Ela negou.
Luna:
— Não.
Pausa.
— Você escolheu viver.
Aquilo me atingiu.
De um jeito diferente.
Eu não sabia o que dizer.
Não sabia o que sentir.
Mas algo dentro de mim…
mexeu.
E pela primeira vez…
eu não me senti só.
De verdade.