Felipe narrando…
A noite no morro sempre começa antes mesmo do sol ir embora.
Mas tem noite…
que a gente escolhe como vai terminar.
E eu já tinha decidido a minha.
Desci a rua com Afonso do meu lado, o movimento já começando a mudar. A música aumentando, as luzes acendendo, os bares enchendo… e aquela energia que só quem vive isso entende.
Afonso olhou de lado pra mim.
Afonso:
— Tu vai mesmo?
Soltei um riso curto.
Felipe:
— Depois daquele dia? Eu vou é aproveitar.
Ele deu de ombros.
Afonso:
— Então hoje eu vou junto.
Olhei pra ele, levantando a sobrancelha.
Felipe:
— Vai largar o posto?
Afonso:
— Tá tudo organizado.
Pausa.
— E eu também não sou de ferro.
Balancei a cabeça, rindo de leve.
Felipe:
— Então bora.
Seguimos até a boate.
E só de chegar perto já dava pra sentir.
O grave batendo no peito.
As luzes piscando.
Gente entrando e saindo.
Riso alto.
Cheiro de bebida, cigarro, perfume barato misturado.
Vida noturna.
Do jeito que eu conheço.
Entramos.
Na hora, abriram espaço.
Sempre abrem.
Olhar de respeito.
De medo.
De quem sabe quem eu sou.
Fui direto.
Sem parar.
Sem olhar pros lados.
Porque eu já sabia quem estava me esperando.
E ela estava.
Encostada no balcão.
Vestido curto.
Justo.
Olhar direto.
Segurando um copo.
Patrícia.
Ela me viu na mesma hora.
E sorriu.
Aquele sorriso que ela sempre usava comigo.
Safado.
Provocante.
Patrícia:
— Demorou, amor.
Cheguei perto.
Encostei nela de leve.
Felipe:
— Tava ocupado, p***a.
Ela riu.
Patrícia:
— Eu sei…
Pausa.
— Mas agora você é só meu.
Ela já me entregou o copo.
Bebi.
Sem nem perguntar o que era.
Desceu queimando.
Do jeito que eu gosto.
Ela puxou outra coisa.
Discreta.
Já pronta.
Olhei.
E dei um meio sorriso.
Felipe:
— Tu me conhece.
Patrícia:
— Melhor do que você pensa.
Afonso ficou mais afastado, já se misturando no ambiente, pegando uma bebida também.
Eu nem liguei.
Minha noite…
já tinha começado.
E dali pra frente…
foi só descida.
Bebida atrás de bebida.
Sem contar.
Sem pensar.
O som alto.
O corpo quente.
A cabeça ficando leve.
E aquela sensação que eu sempre buscava…
de desligar.
De não pensar em nada.
Patrícia colada em mim.
O tempo todo.
Rindo.
Provocando.
Me puxando.
Me prendendo naquele mundo.
E eu deixei.
Porque era isso que eu queria.
Esquecer.
Mesmo que fosse só por algumas horas.
Fumei.
Mais de uma vez.
Misturei tudo.
Bebida.
Fumaça.
Noite.
E ela.
Sempre ali.
Presente.
Disponível.
Sem cobrança.
Sem pergunta.
Do jeito que eu precisava.
A música mudava.
As pessoas giravam.
O tempo passava.
E eu nem percebia.
Porque quanto mais eu bebia…
menos eu pensava.
E isso…
era perfeito.
Em algum momento, ela me puxou.
Patrícia:
— Vem.
Nem perguntei.
Só fui.
Subimos.
Pro reservado.
Mais silêncio.
Mais privacidade.
E ali…
a noite continuou.
Sem pausa.
Sem limite.
Sem sentimento.
Só corpo.
Só impulso.
Do jeito que sempre foi.
E como sempre…
eu não pensei em nada além daquele momento.
Horas passaram.
Eu sei porque quando saí de lá…
o corpo já estava pesado.
A cabeça girando.
E o mundo…
um pouco fora do lugar.
A luz lá fora já começava a mudar.
O céu clareando.
Aquele azul fraco anunciando o amanhecer.
Passei a mão no rosto.
Sentindo o cansaço bater.
Mas não parei.
Nunca paro.
Patrícia ainda estava lá.
Encostada.
Cansada também.
Mas satisfeita.
Ela me olhou.
Patrícia:
— Já vai?
Nem respondi de cara.
Só peguei o dinheiro.
E joguei em cima da mesa.
Sem contar.
Nunca conto.
Felipe:
— Fica com isso.
Ela sorriu.
Já acostumada.
Patrícia:
— Volta quando quiser.
Olhei pra ela.
Felipe:
— Eu sempre volto.
Mas sem emoção.
Sem promessa.
Só fato.
Virei.
E saí.
Sem olhar pra trás.
Nunca olho.
Desci.
Saí da boate.
O ar da manhã bateu no rosto.
Mais frio.
Mais real.
Mas eu ainda estava meio longe.
Por dentro.
Entrei no carro.
Liguei.
E segui direto.
Sem parar.
Sem pensar.
A estrada curta até a boca parecia mais longa naquele estado.
Mas eu conhecia cada pedaço.
Cada curva.
Cada subida.
Cheguei.
Estacionei.
Desci.
E na hora…
os olhares vieram.
O cheiro também.
Álcool.
Fumaça.
Noite.
Tudo ainda grudado em mim.
Um dos caras se aproximou.
Soldado:
— Bom dia, chefe.
Olhei pra ele.
Felipe:
— Dia já começou?
Ele deu um meio sorriso.
Soldado:
— Já.
Passei por ele.
Entrando.
Sem parar.
Sem dar atenção.
Porque ali…
era outro mundo.
Outra realidade.
E eu já tava de volta.
Do jeito que sempre foi.
Do jeito que sempre vai ser.
Sem pausa.
Sem descanso.
Porque na minha vida…
não existe parar.
Só existe seguir.
E manter o controle.
Sempre.