Felipe narrando…
Assim que saí do saguão da igreja, senti o ar bater diferente no rosto.
Lá dentro era organizado demais.
Calmo demais.
E aquilo nunca combina com o lugar onde eu vivo.
Aqui fora… era o normal.
Barulho.
Gente.
Movimento.
Vida de verdade.
Passei a mão na nuca, soltando o ar devagar, enquanto descia os primeiros degraus.
Afonso veio logo atrás, tranquilo como sempre.
Leonardo já saiu rindo.
Leonardo:
— c*****o, Felipe… tu deu um gelo na galera lá dentro.
Nem olhei pra ele.
Felipe:
— Melhor assim.
Leonardo:
— Teve uma ali que ficou até pálida.
Afonso soltou um riso baixo.
Afonso:
— Tu também não pega leve, né?
Olhei pros dois.
Felipe:
— Quer que eu faça o quê? Passe a mão na cabeça?
Leonardo levantou as mãos.
Leonardo:
— Eu não falei nada não, chefe.
Continuei andando.
Sem pressa.
Mas com aquele peso de sempre nas costas.
Responsabilidade.
Controle.
E, principalmente…
vigilância.
Felipe:
— Agora é esperar.
Afonso:
— E observar.
Assenti.
Leonardo chutou uma pedrinha no chão.
Leonardo:
— Ah, mano… mó clima chato.
Olhei de canto pra ele.
Felipe:
— Tá achando que isso aqui é festa?
Leonardo:
— Ainda não…
Pausa.
— Mas podia virar.
Revirei os olhos.
Felipe:
— Tu só pensa merda.
Ele riu.
Leonardo:
— E tu não?
Dei um meio sorriso de canto.
Felipe:
— Eu ajo.
Afonso soltou um riso baixo.
Afonso:
— Isso é verdade.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, descendo a rua.
Mas aí…
eu falei.
Felipe:
— Vou dar uma saída.
Leonardo virou na hora.
Leonardo:
— Ihhhh…
Sorriso malicioso.
— Já sei.
Afonso nem precisou perguntar.
Afonso:
— Patrícia?
Assenti.
Felipe:
— Depois de hoje… eu mereço relaxar um pouco.
Passei a mão no pescoço.
Felipe:
— Esvaziar a cabeça…
Pausa.
— E o resto também.
Leonardo começou a rir alto.
Leonardo:
— Esse é meu chefe!
Afonso balançou a cabeça, rindo.
Afonso:
— Vocês não prestam.
Leonardo:
— Fala isso não… tu só disfarça melhor.
Afonso deu um leve empurrão nele.
Afonso:
— Cala a boca.
Eu ri baixo.
Fazia tempo que eu não ria assim.
Mas era isso.
Entre eles…
eu conseguia.
Leonardo passou a mão no queixo.
Pensativo.
Leonardo:
— p***a…
Pausa.
— Eu precisava de uma dessas também.
Olhei pra ele.
Felipe:
— Então vai atrás.
Ele fez uma careta.
Leonardo:
— Não é tão fácil assim não.
Ergui a sobrancelha.
Felipe:
— Pra tu?
Leonardo:
— Dessa vez é diferente.
Afonso já começou a rir antes mesmo dele terminar.
Afonso:
— Lá vem.
Felipe:
— Fala logo.
Leonardo suspirou.
Leonardo:
— Aquela lá…
Pausa.
— A filha da Maria.
Eu já sabia.
Só pelo jeito.
Felipe:
— A Luna.
Ele sorriu.
Leonardo:
— Essa mesma.
Balancei a cabeça.
Felipe:
— Tu não perde tempo mesmo.
Leonardo:
— p***a, Felipe… tu viu?
Pausa.
— A mina é um absurdo.
Afonso riu.
Afonso:
— Tu fala como se nunca tivesse visto mulher na vida.
Leonardo:
— Mas não é qualquer uma, não.
Pausa.
— Aquela ali…
Ele deu um leve assobio.
Leonardo:
— Dá trabalho.
Cruzei os braços.
Felipe:
— E tu gosta, né?
Ele abriu um sorriso.
Leonardo:
— Gosto.
Afonso balançou a cabeça.
Afonso:
— Problema é que nem todas são igual essas que tu tá acostumado.
Leonardo:
— Como assim?
Afonso:
— Tem mulher que não quer saber de dinheiro.
Pausa.
— Nem de cara cheio de poder.
Leonardo fez uma cara de dúvida.
Leonardo:
— E quer o quê então?
Afonso deu de ombros.
Afonso:
— Respeito.
Silêncio.
Curto.
Mas suficiente.
Eu fiquei quieto.
Pensando.
Leonardo riu, quebrando o clima.
Leonardo:
— Ihhh, respeito é f**a.
Afonso:
— Pra tu então…
Leonardo:
— Eu respeito, pô!
Afonso:
— Do teu jeito.
Eles começaram a discutir, meio rindo, meio falando sério.
Mas eu…
eu fiquei um pouco mais quieto.
Pensando no que o Afonso disse.
Felipe:
— Nem todas querem dinheiro…
Falei baixo.
Mais pra mim do que pra eles.
Afonso olhou pra mim.
Afonso:
— Não mesmo.
Leonardo deu de ombros.
Leonardo:
— Eu ainda prefiro as que querem.
Eu ri de canto.
Felipe:
— Porque é mais fácil.
Leonardo:
— Exatamente.
Afonso cruzou os braços.
Afonso:
— Fácil não é sempre melhor.
Silêncio.
De novo.
Mas dessa vez…
mais pesado.
Porque no fundo…
a gente sabia.
Eu respirei fundo.
Felipe:
— Melhor ou não…
Pausa.
— É o que funciona.
Voltei a andar.
Leonardo veio atrás.
Leonardo:
— Então hoje é noite de luxo, hein?
Felipe:
— Hoje é noite de paz.
Afonso riu.
Afonso:
— Do teu jeito.
Olhei pra ele.
Felipe:
— Sempre.
Leonardo passou o braço pelo meu ombro.
Leonardo:
— Só não vai sumir demais não, chefe.
Tirei o braço dele.
Felipe:
— Eu nunca sumo.
Pausa.
— Eu só escolho quando apareço.
Ele riu.
Leonardo:
— Aí sim.
Paramos na esquina.
Cada um já sabendo o caminho.
Afonso ficou ali.
Leonardo também.
Eu ajeitei a camisa.
Felipe:
— Fica de olho em tudo.
Afonso:
— Sempre.
Leonardo:
— Pode deixar.
Olhei pros dois.
Minha base.
Minha confiança.
E então virei.
Comecei a andar.
Porque a noite ainda nem tinha começado…
e eu já sabia exatamente como queria terminar ela.
Do meu jeito.
Como sempre.