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874 Palavras
Felipe narrando… Assim que saí do saguão da igreja, senti o ar bater diferente no rosto. Lá dentro era organizado demais. Calmo demais. E aquilo nunca combina com o lugar onde eu vivo. Aqui fora… era o normal. Barulho. Gente. Movimento. Vida de verdade. Passei a mão na nuca, soltando o ar devagar, enquanto descia os primeiros degraus. Afonso veio logo atrás, tranquilo como sempre. Leonardo já saiu rindo. Leonardo: — c*****o, Felipe… tu deu um gelo na galera lá dentro. Nem olhei pra ele. Felipe: — Melhor assim. Leonardo: — Teve uma ali que ficou até pálida. Afonso soltou um riso baixo. Afonso: — Tu também não pega leve, né? Olhei pros dois. Felipe: — Quer que eu faça o quê? Passe a mão na cabeça? Leonardo levantou as mãos. Leonardo: — Eu não falei nada não, chefe. Continuei andando. Sem pressa. Mas com aquele peso de sempre nas costas. Responsabilidade. Controle. E, principalmente… vigilância. Felipe: — Agora é esperar. Afonso: — E observar. Assenti. Leonardo chutou uma pedrinha no chão. Leonardo: — Ah, mano… mó clima chato. Olhei de canto pra ele. Felipe: — Tá achando que isso aqui é festa? Leonardo: — Ainda não… Pausa. — Mas podia virar. Revirei os olhos. Felipe: — Tu só pensa merda. Ele riu. Leonardo: — E tu não? Dei um meio sorriso de canto. Felipe: — Eu ajo. Afonso soltou um riso baixo. Afonso: — Isso é verdade. Ficamos em silêncio por alguns segundos, descendo a rua. Mas aí… eu falei. Felipe: — Vou dar uma saída. Leonardo virou na hora. Leonardo: — Ihhhh… Sorriso malicioso. — Já sei. Afonso nem precisou perguntar. Afonso: — Patrícia? Assenti. Felipe: — Depois de hoje… eu mereço relaxar um pouco. Passei a mão no pescoço. Felipe: — Esvaziar a cabeça… Pausa. — E o resto também. Leonardo começou a rir alto. Leonardo: — Esse é meu chefe! Afonso balançou a cabeça, rindo. Afonso: — Vocês não prestam. Leonardo: — Fala isso não… tu só disfarça melhor. Afonso deu um leve empurrão nele. Afonso: — Cala a boca. Eu ri baixo. Fazia tempo que eu não ria assim. Mas era isso. Entre eles… eu conseguia. Leonardo passou a mão no queixo. Pensativo. Leonardo: — p***a… Pausa. — Eu precisava de uma dessas também. Olhei pra ele. Felipe: — Então vai atrás. Ele fez uma careta. Leonardo: — Não é tão fácil assim não. Ergui a sobrancelha. Felipe: — Pra tu? Leonardo: — Dessa vez é diferente. Afonso já começou a rir antes mesmo dele terminar. Afonso: — Lá vem. Felipe: — Fala logo. Leonardo suspirou. Leonardo: — Aquela lá… Pausa. — A filha da Maria. Eu já sabia. Só pelo jeito. Felipe: — A Luna. Ele sorriu. Leonardo: — Essa mesma. Balancei a cabeça. Felipe: — Tu não perde tempo mesmo. Leonardo: — p***a, Felipe… tu viu? Pausa. — A mina é um absurdo. Afonso riu. Afonso: — Tu fala como se nunca tivesse visto mulher na vida. Leonardo: — Mas não é qualquer uma, não. Pausa. — Aquela ali… Ele deu um leve assobio. Leonardo: — Dá trabalho. Cruzei os braços. Felipe: — E tu gosta, né? Ele abriu um sorriso. Leonardo: — Gosto. Afonso balançou a cabeça. Afonso: — Problema é que nem todas são igual essas que tu tá acostumado. Leonardo: — Como assim? Afonso: — Tem mulher que não quer saber de dinheiro. Pausa. — Nem de cara cheio de poder. Leonardo fez uma cara de dúvida. Leonardo: — E quer o quê então? Afonso deu de ombros. Afonso: — Respeito. Silêncio. Curto. Mas suficiente. Eu fiquei quieto. Pensando. Leonardo riu, quebrando o clima. Leonardo: — Ihhh, respeito é f**a. Afonso: — Pra tu então… Leonardo: — Eu respeito, pô! Afonso: — Do teu jeito. Eles começaram a discutir, meio rindo, meio falando sério. Mas eu… eu fiquei um pouco mais quieto. Pensando no que o Afonso disse. Felipe: — Nem todas querem dinheiro… Falei baixo. Mais pra mim do que pra eles. Afonso olhou pra mim. Afonso: — Não mesmo. Leonardo deu de ombros. Leonardo: — Eu ainda prefiro as que querem. Eu ri de canto. Felipe: — Porque é mais fácil. Leonardo: — Exatamente. Afonso cruzou os braços. Afonso: — Fácil não é sempre melhor. Silêncio. De novo. Mas dessa vez… mais pesado. Porque no fundo… a gente sabia. Eu respirei fundo. Felipe: — Melhor ou não… Pausa. — É o que funciona. Voltei a andar. Leonardo veio atrás. Leonardo: — Então hoje é noite de luxo, hein? Felipe: — Hoje é noite de paz. Afonso riu. Afonso: — Do teu jeito. Olhei pra ele. Felipe: — Sempre. Leonardo passou o braço pelo meu ombro. Leonardo: — Só não vai sumir demais não, chefe. Tirei o braço dele. Felipe: — Eu nunca sumo. Pausa. — Eu só escolho quando apareço. Ele riu. Leonardo: — Aí sim. Paramos na esquina. Cada um já sabendo o caminho. Afonso ficou ali. Leonardo também. Eu ajeitei a camisa. Felipe: — Fica de olho em tudo. Afonso: — Sempre. Leonardo: — Pode deixar. Olhei pros dois. Minha base. Minha confiança. E então virei. Comecei a andar. Porque a noite ainda nem tinha começado… e eu já sabia exatamente como queria terminar ela. Do meu jeito. Como sempre.
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