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963 Palavras
Felipe narrando… Eu não gosto de repetir regra. Muito menos de explicar o óbvio. Mas quando entra gente de fora… eu faço questão. Porque aqui não é passeio. Não é missãozinha bonitinha de igreja. E muito menos lugar pra gente distraída. Fiquei parado por alguns segundos observando o movimento depois que liberamos a entrada. Um por um. Documento, cara, postura… tudo passou pelo meu olhar. Quem não serve, eu corto na hora. Quem serve… eu deixo entrar, mas nunca sem saber exatamente com quem tô lidando. Afonso veio pro meu lado, fechando o caderno. Afonso: — Tudo conferido. Assenti. Felipe: — Quero gente rodando por perto. Afonso: — Já deixei dois em cada ponto. Leonardo apareceu logo atrás, com aquele sorriso de sempre. Leonardo: — Tá tranquilo demais isso aí. Virei o rosto devagar pra ele. Felipe: — Tranquilo demais é o que dá merda. Ele riu. Leonardo: — Tu vê problema até onde não tem. Felipe: — É por isso que eu ainda mando aqui. Silêncio. Ele levantou as mãos, rendido. Leonardo: — Tá bom, chefe. Voltei a olhar pra frente. O pessoal da caravana já tava sendo direcionado pra igreja. Alguns ainda olhavam ao redor, curiosos, outros claramente desconfortáveis. Normal. Eles não fazem ideia de onde estão pisando. Felipe: — Bora. Comecei a andar. Sem esperar. Os dois vieram atrás. Descemos a rua principal, passando pelo movimento normal do morro. Música alta em algum bar, cheiro de comida, gente cumprimentando com respeito — alguns só no olhar, outros com um “fala, chefe” baixo. Tudo no controle. Sempre. Chegamos na igreja. O saguão já tava organizado. Mesas montadas, comida sendo preparada, gente da caravana ajudando. Um clima… diferente. Mais leve. Mais… organizado. Aquilo me incomodava um pouco. Mas não o suficiente pra perder o foco. Parei na entrada. Observei. E então entrei. Na hora, o ambiente mudou. Sempre muda. O barulho diminuiu. As conversas abaixaram. Os olhares vieram. Eu caminhei devagar até o centro do salão. Felipe: — Todo mundo aqui. Minha voz saiu firme. Sem esforço. Mas com peso. As pessoas foram se juntando. Algumas rápidas. Outras hesitantes. Mas vieram. Afonso ficou do meu lado esquerdo. Leonardo do direito. Minha base. Sempre. Cruzei os braços. Olhei um por um. Sem pressa. Deixando o silêncio trabalhar. Porque silêncio também impõe respeito. Felipe: — Presta atenção. Pausa. — Eu não gosto de repetir. Andei dois passos à frente. Felipe: — Vocês entraram aqui hoje. — Mas isso aqui não é lugar de qualquer um. Olhei direto pra um dos caras que parecia mais descontraído. Felipe: — Aqui tem regra. Pausa. — E regra não é sugestão. Silêncio. Pesado. Afonso tomou a palavra. Afonso: — Horário de circulação é respeitado. — Áreas restritas não são pra curiosidade. — E qualquer movimentação fora do comum… chega até a gente. Ele falava calmo. Mas firme. Do jeito dele. Leonardo completou: Leonardo: — E evita gracinha, tá? — Aqui não é zona sul não. Alguns riram nervoso. Mas pararam quando eu olhei. Felipe: — Aqui não tem espaço pra erro. Pausa. — E muito menos pra esperto. Andei mais um pouco. Felipe: — Ninguém faz nada sem autorização. — Ninguém anda onde não deve. — Ninguém fala o que não deve. Minha voz ficou mais baixa. Mais pesada. Felipe: — E principalmente… Pausa. Olhei todos. Um por um. Felipe: — Ninguém me desrespeita. Silêncio total. Agora ninguém ria. Ninguém respirava direito. E foi aí que eu deixei claro. Do jeito que precisava. Felipe: — Porque aqui… Inclinei levemente a cabeça. Felipe: — Eu sou o dono da p***a toda. O peso caiu. Direto. Sem filtro. Sem suavizar. Felipe: — E nada… Pausa. — Nada acontece sem passar por mim. Silêncio. Pesado. Definitivo. Leonardo cruzou os braços, com um sorriso de canto. Afonso observava. E eu continuei. Felipe: — Vocês vieram ajudar? Dei de ombros. Felipe: — Beleza. — Faz teu trabalho. — Cuida do que tu veio fazer. Pausa. — E não se mete no que não é teu. Olhei pra uma mulher mais velha. Felipe: — Quer ajudar? — Ajuda. — Mas não tenta entender coisa que não é pra você. Voltei pro centro. Felipe: — Aqui funciona. — E funciona do meu jeito. Afonso falou: Afonso: — Qualquer problema, procura a gente. Leonardo completou: Leonardo: — Ou evita problema que é melhor ainda. Alguns assentiram. Outros só ficaram em silêncio. Mas todos entenderam. Eu vi. Felipe: — Vocês vão ficar na igreja. — Se sair, avisa. — Se precisar de algo, fala. Pausa. — Mas não pisa fora da linha. Minha voz desceu mais. Felipe: — Porque aqui… Pausa. — a linha é fina. Silêncio. Mais alguns segundos. E então… virei. Felipe: — Afonso. Afonso: — Já organizo tudo. Felipe: — Leonardo. Leonardo: — Tô de olho. Assenti. E comecei a sair. Mas antes de atravessar a porta… parei. Sem virar. Felipe: — E só mais uma coisa. O silêncio voltou na hora. Felipe: — Eu não gosto de surpresa. Pausa. — Então não me dá motivo. Saí. Sem esperar resposta. Porque não precisava. Lá fora, o ar parecia diferente. Mais pesado. Ou talvez fosse só a sensação de sempre. Controle. Afonso saiu logo atrás. Afonso: — Foi direto. Felipe: — Tem que ser. Leonardo veio depois, rindo baixo. Leonardo: — Tu assusta essa galera toda. Olhei pra ele. Felipe: — Melhor assustar do que enterrar. Silêncio. Ele não respondeu. Porque sabia. Afonso encostou no muro. Afonso: — Agora é observar. Assenti. Felipe: — Sempre. Olhei de volta pra igreja. O movimento continuava. Mas agora… dentro da linha. Do jeito que tem que ser. E eu sabia. Se alguém ali vacilar… eu vou ser o primeiro a saber. E o último a esquecer. Porque aqui… quem manda… sou eu. E isso não muda.
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