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1007 Palavras
Serena narrando… Eu nem percebi direito o caminho. Só fui andando. Seguindo a Luna. Ainda com a cabeça baixa, com o corpo dolorido, com a mente cheia demais pra conseguir organizar qualquer pensamento. Mas uma coisa eu percebia. A forma como ela andava. Segura. Como se tudo ali fosse dela. Como se nada pudesse atingi-la. E aquilo… me deixava ainda mais encolhida. Eu não era assim. Nunca fui. Cada passo meu parecia errado. Cada olhar que eu sentia vindo de alguém me deixava mais tensa. Mais nervosa. Mais… deslocada. Mas Luna não soltou minha mão. Nem por um segundo. E isso… isso foi o que me manteve andando. Subimos uma viela mais estreita, depois viramos em outra, passamos por algumas casas, escadas, portas abertas, gente olhando, gente ignorando… Tudo tão rápido. Tão intenso. Mas finalmente… ela parou. Luna: — Chegamos. Minha respiração travou por um segundo. Levantei o olhar devagar. Era uma casa simples por fora. Mas bem cuidada. Pintura recente. Porta arrumada. Sem aquela aparência abandonada que eu estava acostumada. Luna soltou minha mão só pra pegar a chave. E abriu. Quando a porta se abriu… eu senti. O cheiro. Limpo. Aconchegante. Quente. Totalmente diferente de tudo que eu conhecia. Ela entrou primeiro. Luna: — Entra. Fiquei parada por um segundo. Na porta. Como se tivesse medo de pisar ali. Mas então… entrei. Devagar. E olhei ao redor. A sala era simples. Mas linda. Tudo organizado. Sofá limpo. Almofadas bem arrumadas. Uma mesinha com flores. Televisão na parede. Nada exagerado. Mas tudo… cuidado. Aquilo me deu um aperto no peito. Porque parecia… lar. De verdade. Fechei a porta atrás de mim, sem fazer barulho. E foi quando eu vi. O quadro. Na parede. Uma foto. Luna. Mais nova. Sorrindo. Ao lado de uma mulher… que eu reconheci como Maria. E um homem. Provavelmente o pai dela. Os três juntos. Felizes. Aquilo… aquilo me pegou. Porque eu não tinha isso. Nunca tive. Olhei rápido pra baixo. Antes que alguém percebesse. Mas Luna percebeu. Claro que percebeu. Ela seguiu meu olhar até o quadro. E ficou em silêncio por um segundo. Luna: — Meu pai. Falou baixo. Sem tristeza exagerada. Mas com respeito. Assenti de leve. Serena: — Ele… parece legal. Minha voz saiu tímida. Ela deu um meio sorriso. Luna: — Era. Pausa. — Muito. Silêncio. Mas não era desconfortável. Era… real. Ela então virou. Luna: — Vem. E começou a andar. Eu segui. Passamos por um pequeno corredor até chegar em um quarto. Ela abriu a porta. Luna: — Pode entrar. E eu entrei. O quarto dela era… bonito. Organizado. Cama arrumada. Lençol limpo. Cheiroso. Um espelho grande. Roupas dobradas. Tudo no lugar. Aquilo me deixou ainda mais envergonhada. Porque eu sabia. Eu não combinava com aquilo. Luna foi direto até o guarda-roupa. Abriu. E pegou uma toalha. Branca. Limpa. Dobradinha. E então virou pra mim. Luna: — Você precisa tomar um banho. Aquilo não foi uma pergunta. Foi um cuidado. Engoli seco. Serena: — Eu… preciso… Minha voz saiu baixa. Vergonhosa. Ela se aproximou. Luna: — Quer ajuda? Balancei a cabeça rápido. Serena: — Não… eu consigo… Mas eu não conseguia. Nem falar direito eu estava conseguindo. Luna assentiu. Mas ficou ali. Me olhando. Esperando. Eu levei a mão até o moletom. Tentei puxar. Mas meu braço doeu. Forte. Travou. Respirei fundo. Tentei de novo. Mas meu corpo não respondia direito. E aquilo… aquilo me desesperou um pouco. Serena: — Eu… Minha voz falhou. Não consegui terminar. Luna percebeu. Na hora. Ela se aproximou mais. Com cuidado. Luna: — Calma. Baixo. — Eu ajudo. Meu coração acelerou. Serena: — Não precisa… Mas precisava. E eu sabia. Ela não perguntou de novo. Só começou. Devagar. Com cuidado. Segurou a barra do moletom. E puxou. Devagar. Pra não machucar. Mas mesmo assim… doeu. Fechei os olhos. Respirei fundo. Mas não reclamei. Ela continuou. E quando o moletom saiu… o silêncio caiu. Pesado. Muito pesado. Eu não precisei olhar pra saber. Eu senti. A reação dela. O corpo dela travou. A respiração dela mudou. Luna: — Meu Deus… Sussurrou. Eu abri os olhos devagar. Mas não consegui olhar direto pra ela. Olhei pro chão. Porque eu sabia. Meu corpo estava marcado. Roxo. Cortado. Ferido. Por todos os lados. Braços. Costas. Barriga. Pernas. Tudo. Não tinha um lugar limpo. E aquilo… não dava pra esconder. Luna não falou por alguns segundos. E aquele silêncio… me esmagou. Serena: — Desculpa… Falei baixo. Sem nem saber por quê. Mas parecia que eu precisava pedir. Ela reagiu na hora. Luna: — Ei. Se aproximou. Segurou meu rosto com cuidado. Me fazendo olhar pra ela. Luna: — Você não tem que pedir desculpa. A voz dela saiu firme. Mas cheia de emoção. Luna: — Nunca. Senti meus olhos encherem. Mas não chorei. Eu já tinha chorado demais. Luna olhou meu corpo de novo. Com mais calma agora. Mas ainda chocada. Luna: — Quem fez isso com você? Silêncio. Eu não respondi. Não conseguia. Ela entendeu. Respirou fundo. E então… algo mudou no olhar dela. Não era mais só choque. Era… decisão. Luna: — Você tá segura aqui. Falou firme. Direto. — Ninguém vai encostar em você. Meu peito apertou. Forte. Porque… eu nunca tinha ouvido isso antes. Nunca. Luna passou a mão de leve no meu braço. Com cuidado. Luna: — A gente vai cuidar disso. Pausa. — De você. Engoli seco. Serena: — Por quê? A pergunta saiu sem pensar. Ela franziu levemente a testa. Luna: — Como assim? Serena: — Por que você tá me ajudando? Silêncio. Ela me olhou. De verdade. Luna: — Porque alguém precisa. Pausa. — E porque eu quero. Simples. Mas forte. E aquilo… aquilo mexeu comigo. Muito. Ela pegou a toalha de novo. Luna: — Vem. — Vou te levar no banheiro. Assenti. Devagar. E fui. Mas dessa vez… não me sentindo tão sozinha. Porque pela primeira vez… alguém estava ali. Por mim. De verdade. E talvez… talvez aquilo fosse o começo de algo novo. Não só uma fuga. Mas uma chance. De viver. De verdade.
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