Serena narrando…
Eu ainda estava tentando entender onde eu estava.
Tudo parecia acontecer rápido demais, ao mesmo tempo em que cada segundo parecia pesado dentro de mim. O barulho ao redor era alto, constante, cheio de vida — gente falando, moto passando, vozes se misturando, passos apressados… e eu ali, no meio de tudo aquilo, me sentindo completamente deslocada.
Foi quando eu vi ela.
Ou melhor…
quando ela veio até mim.
A menina parou na minha frente com uma naturalidade que me deixou ainda mais desconfortável. Ela era… linda. Não tinha outra palavra.
Cabelo liso, caindo perfeito pelas costas, pele bem cuidada, corpo desenhado de um jeito que chamava atenção sem esforço. A postura dela era firme, confiante, como alguém que sabia exatamente o efeito que causava nas pessoas.
E eu…
eu me senti ainda menor.
Instintivamente, puxei mais a touca do moletom, tentando esconder meu rosto. Como se aquilo fosse suficiente pra apagar tudo que estava estampado em mim — o olho roxo, o lábio cortado, a sujeira, o cansaço, o cheiro… meu Deus, o cheiro.
Senti uma vontade enorme de desaparecer.
Luna:
— Ei…
A voz dela era suave, mas segura.
Levantei o olhar devagar, com medo.
Ela me olhava de um jeito diferente.
Sem nojo.
Sem julgamento.
Aquilo me confundiu.
Luna:
— Vem comigo.
Simples assim.
Sem explicação.
Sem pergunta.
Mas estendeu a mão.
E aquilo…
aquilo me desmontou um pouco por dentro.
Porque ninguém fazia isso.
Ninguém estendia a mão pra mim.
Hesitei por um segundo.
Talvez mais.
Mas então…
segurei.
Devagar.
Como se tivesse medo até disso.
Ela puxou de leve.
E eu levantei.
Minhas pernas ainda estavam fracas, meu corpo dolorido, mas eu fui.
Porque eu não tinha outra opção.
E talvez…
porque eu quisesse acreditar.
Começamos a andar.
Lado a lado.
Mas eu não conseguia acompanhar o ritmo dela direito. Ela andava com firmeza, enquanto eu tentava não tropeçar, não chamar atenção, não fazer nada errado.
Mantive a cabeça baixa.
O tempo todo.
Não queria olhar ninguém nos olhos.
Não queria que olhassem pra mim.
Mas mesmo assim…
eu sentia.
Os olhares.
Alguns curiosos.
Outros rápidos.
Outros mais demorados.
Aquilo me deixava nervosa.
Serena (pensando):
— Eles estão vendo…
Engoli seco.
Puxei mais a manga do moletom, escondendo as mãos.
Luna percebeu.
Claro que percebeu.
Ela deu uma leve diminuída no passo, como se ajustasse o ritmo ao meu.
Luna:
— Relaxa…
Falou baixo.
Quase como se não quisesse que ninguém mais ouvisse.
— Só anda.
Assenti de leve.
Mas não respondi.
Não conseguia.
Minha garganta parecia travada.
Continuamos andando.
E eu comecei a observar.
Mesmo com medo…
eu observava.
As casas.
As vielas.
As cores.
Tudo tão diferente do que eu conhecia.
Mais apertado.
Mais cheio.
Mas ao mesmo tempo…
mais vivo.
Tinha música saindo de algum lugar.
Cheiro de comida.
Crianças correndo descalças.
Gente rindo.
Discutindo.
Vivendo.
E aquilo me deixou confusa.
Porque…
como um lugar assim podia ser tão bonito e assustador ao mesmo tempo?
Luna seguia firme.
Confiante.
Como se aquele lugar fosse extensão dela.
E talvez fosse.
Mas eu não consegui evitar.
Olhei pra ela de novo.
E a comparação veio na hora.
Ela…
linda.
Cheirosa.
Inteira.
E eu…
quebrada.
Suja.
Machucada.
Senti vergonha.
Forte.
Pesada.
Serena (pensando):
— O que ela tá fazendo comigo?
Baixei ainda mais a cabeça.
Quase escondendo o rosto completamente.
Mas foi aí que aconteceu.
Uma voz masculina surgiu perto.
Leonardo:
— Eita…
Meu corpo travou na hora.
Senti um arrepio subir pela espinha.
Não precisei olhar pra saber que era alguém importante.
O jeito da voz.
A confiança.
O tom.
Luna parou.
Mas não soltou minha mão.
Luna:
— Fala.
Simples.
Natural.
Como se já conhecesse.
Eu continuei com a cabeça baixa.
Sem coragem de levantar.
Leonardo se aproximou.
Dava pra sentir.
Leonardo:
— Tu é nova por aqui, né?
A pergunta era pra ela.
Não pra mim.
E eu agradeci por isso.
Luna soltou um leve sorriso.
Luna:
— Sou.
Leonardo:
— Já vi.
Pausa.
— Difícil passar despercebida assim.
O tom dele mudou.
Mais… interessado.
Eu entendi.
Mesmo sem olhar.
Luna soltou um riso baixo.
Luna:
— Problema seu.
Ele riu.
Leonardo:
— Gosto de problema.
Meu coração batia rápido.
Muito rápido.
Eu queria sair dali.
Sumir.
Mas não podia.
Fiquei parada.
Imóvel.
Tentando não existir.
Leonardo pareceu reparar em mim.
Leonardo:
— E esse aí?
Meu corpo gelou.
Na hora.
Mas Luna respondeu antes de qualquer coisa.
Luna:
— Primo.
Mentira.
Na lata.
Sem hesitar.
Leonardo deu uma olhada rápida.
E por causa da minha roupa larga…
da touca…
da forma como eu estava…
ele nem percebeu.
Leonardo:
— Ah…
Desinteressado.
— Tranquilo então.
E voltou o foco pra ela.
Leonardo:
— Tu vai ficar por aqui?
Luna deu de ombros.
Luna:
— Talvez.
Leonardo:
— Talvez é pouco.
Ela cruzou os braços de leve.
Luna:
— E você é muito curioso.
Ele riu.
Leonardo:
— Só tô puxando assunto.
Pausa.
— Ou tu não gosta?
Ela inclinou levemente a cabeça.
Luna:
— Depende.
Leonardo:
— Do quê?
Luna:
— De quem pergunta.
Silêncio.
Mas um silêncio… carregado.
Diferente.
Eu conseguia sentir.
Mesmo sem olhar.
Leonardo:
— Então eu vou ter que me apresentar direito.
Luna:
— Vai.
Ele deu um passo mais perto.
Leonardo:
— Leonardo.
Pausa.
— Mas pode me chamar de Léo.
Luna sorriu de leve.
Luna:
— Eu vejo.
Meu coração ainda estava acelerado.
Minhas mãos suando.
Minha cabeça baixa.
Mas minha mente…
prestando atenção em tudo.
Porque naquele momento…
eu entendi uma coisa.
Ali…
eu era invisível.
E pela primeira vez na vida…
isso me protegeu.
Luna apertou levemente minha mão.
Um sinal.
Discreto.
Luna:
— A gente vai indo.
Leonardo:
— Já?
Luna:
— Já.
Sem dar espaço.
Sem prolongar.
E puxou de leve.
E eu fui.
Sem olhar pra trás.
Sem falar nada.
Mas com o coração ainda disparado.
E uma certeza estranha crescendo dentro de mim.
Eu não pertencia ali.
Mas ao mesmo tempo…
talvez…
aquele fosse exatamente o lugar onde minha vida estava começando.