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1041 Palavras
Maria narrando… Tem coisa que a gente entende no olhar. Não precisa de explicação. Não precisa de detalhe. Não precisa de história completa. Eu entendi a Serena no momento em que vi aqueles olhos. E Celine também. Porque diferente de mim… ela já conhecia. Ela já tinha visto. Já tinha ouvido. Já tinha sentido. E isso mudava tudo. Eu fiquei parada por alguns segundos depois de falar com a Serena, tentando manter a postura, mas por dentro… minha cabeça já tava correndo. Rápido. Muito rápido. Porque ali não era qualquer lugar. Ali era a Rocinha. E ali… quem mandava… era ele. Olhei de canto. Felipe. Parado. Observando tudo. Como sempre. Nada passava por ele. Nada. Meu estômago revirou. Maria (pensando): — Se ele vê essa menina… Respirei fundo. Não podia deixar. Não daquele jeito. Não com ela machucada, sem documento, encolhida como se estivesse pronta pra apanhar de novo a qualquer momento. Aquilo não era só vulnerabilidade. Era risco. E aqui… risco não tem segunda chance. Olhei pra Serena mais uma vez. Ela tava no mesmo lugar. Quieta. Com a touca cobrindo quase todo o rosto. Tentando desaparecer. Meu coração apertou. Maria: — Fica aqui. Falei baixo. Quase sem mexer os lábios. — Não sai daí. Ela assentiu rápido. Como quem obedece sem questionar. Como quem já aprendeu que obedecer… é sobreviver. Aquilo doeu. Mas não dava tempo de sentir. Eu me afastei. Devagar. Sem chamar atenção. E fui direto até Celine. Ela estava voltando. Sozinha. Depois de falar com Felipe. Mas o rosto dela… continuava o mesmo. Calmo. Firme. Controlado. Mesmo depois de encarar alguém como ele. Aproximei. Diminuí o passo. E falei baixo. Maria: — Celine… Ela virou na hora. Mas quando viu meu olhar… já entendeu que não era algo simples. Celine: — O que foi? Cheguei mais perto. Discreta. Maria: — É a menina. Ela não perguntou qual. Não precisou. Só olhou na direção. E encontrou Serena. Na mesma posição. No mesmo estado. E naquele momento… eu vi. Ela já sabia. Já conhecia. Já entendia. Celine respirou fundo. Celine: — Eu sei. A voz saiu baixa. Pesada. Eu franzi levemente a testa. Maria: — Você trouxe ela, né? Ela assentiu. Sem esconder. Celine: — Eu não podia deixar ela lá. Silêncio. Mas não era um silêncio de dúvida. Era de concordância. Maria: — Ela não tem documento. Celine: — Eu sei. Maria: — E tá muito machucada. Celine fechou os olhos por um segundo. Celine: — Eu sei. Aquilo me deu mais certeza ainda. Ela não estava surpresa. Ela estava preocupada. E isso era diferente. Muito diferente. Olhei de novo na direção do Felipe. Ele ainda observava tudo. Maria: — Se ele vê ela… Celine completou, baixa: Celine: — Ele não vai deixar entrar. Pausa. — Ou vai querer saber demais. Assenti. Maria: — E ela não aguenta. Celine ficou em silêncio. Pensando. Mas não por muito tempo. Ela sempre foi rápida. Celine: — O que você quer fazer? Respirei fundo. Maria: — Tirar ela daqui. Pausa. — Agora. Celine me olhou. Firme. Celine: — Pra onde? Maria: — Pra minha casa. Silêncio. Pesado. Mas não negativo. Celine: — E depois? Maria: — Depois a gente resolve. Pausa. — Mas aqui… ela não pode ficar. Celine olhou novamente pra Serena. E dessa vez… com ainda mais cuidado. Mais proteção. Mais responsabilidade. Celine: — Ela já passou demais. Baixo. Quase pra ela mesma. Voltou o olhar pra mim. Celine: — Tá. Assenti. Mas ela continuou: Celine: — Vai com cuidado. Pausa. — Ele tá olhando tudo. Eu sabia. Maria: — Eu sei. Celine: — E a gente não pode levantar suspeita. Maria: — Não vai. Mas por dentro… eu sabia. Tudo ali era um risco. Mesmo assim… eu não ia deixar aquela menina ali. Não ia. Me afastei de Celine e fui procurar Luna. E quando eu encontrei minha filha… o problema ficou ainda maior. Porque Luna não passa despercebida. Nunca. Ela estava encostada perto de duas meninas, conversando, rindo de alguma coisa. Linda. Confiante. Chamando atenção sem esforço. O cabelo liso caindo nas costas. O corpo marcado na roupa. O jeito de se mover… de olhar… de existir. Ela sabia. Sempre soube. E gostava. Suspirei. Maria (pensando): — Agora não… Fui até ela. Maria: — Luna. Ela virou na hora. Sorrindo. Luna: — Oi, mãe. Mas quando viu meu olhar sério… o sorriso diminuiu. Luna: — O que foi? Me aproximei. Falei baixo. Maria: — Eu preciso que você faça uma coisa. Ela ficou atenta na hora. Luna: — Fala. Olhei ao redor. Leonardo. Já olhando. Claro. Sempre. Respirei fundo. Maria: — Tá vendo aquela menina ali? Apontei discretamente. Luna seguiu. E quando viu Serena… a expressão dela mudou. Na hora. Luna: — Aquela? Maria: — Essa. Ela olhou melhor. Mais atenta. E então viu. Os machucados. A postura. O medo. Luna: — Meu Deus… Baixo. Chocado. Voltou pra mim. Luna: — O que aconteceu com ela? Maria: — Depois. Pausa. — Agora escuta. Me aproximei mais. Maria: — Você vai lá. — Vai chamar ela. — E vai levar direto pra casa. Luna arregalou os olhos. Luna: — Agora? Maria: — Agora. Firme. — Sem chamar atenção. — Sem ninguém perceber. Ela olhou ao redor. E então viu. Leonardo. O olhar dele nela. Fixo. Sem vergonha. Luna soltou um meio sorriso. Luna: — Complicado isso aqui… Revirei os olhos. Maria: — Foco. Ela riu baixo. Luna: — Tá bom. Mas depois ficou séria. De verdade. Luna: — Ele sabe? Maria: — Não. Pausa. — E não pode saber. Ela assentiu. Agora entendendo. Luna: — Entendi. Maria: — Vai. E ela foi. Do jeito dela. Confiante. Segura. E chamando atenção mesmo sem querer. Leonardo acompanhou. Na cara. Sem disfarçar. Luna chegou até Serena. Abaixou levemente. Luna: — Ei… Serena levantou o olhar devagar. Assustada. Com medo. Mas Luna suavizou. Luna: — Calma. Baixo. — Vem comigo. Serena hesitou. Mas Luna estendeu a mão. Luna: — Confia. Silêncio. Pesado. Mas então… Serena segurou. Devagar. E levantou. E naquele momento… eu soube. A gente tinha conseguido. Por enquanto. Mas no fundo… eu sabia. Aquilo ainda ia dar problema. E grande. Porque naquele lugar… ninguém passa despercebido por muito tempo. E aquela menina… não ia conseguir se esconder pra sempre.
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