Maria narrando…
Tem coisa que a gente entende no olhar.
Não precisa de explicação.
Não precisa de detalhe.
Não precisa de história completa.
Eu entendi a Serena no momento em que vi aqueles olhos.
E Celine também.
Porque diferente de mim… ela já conhecia.
Ela já tinha visto.
Já tinha ouvido.
Já tinha sentido.
E isso mudava tudo.
Eu fiquei parada por alguns segundos depois de falar com a Serena, tentando manter a postura, mas por dentro… minha cabeça já tava correndo.
Rápido.
Muito rápido.
Porque ali não era qualquer lugar.
Ali era a Rocinha.
E ali…
quem mandava…
era ele.
Olhei de canto.
Felipe.
Parado.
Observando tudo.
Como sempre.
Nada passava por ele.
Nada.
Meu estômago revirou.
Maria (pensando):
— Se ele vê essa menina…
Respirei fundo.
Não podia deixar.
Não daquele jeito.
Não com ela machucada, sem documento, encolhida como se estivesse pronta pra apanhar de novo a qualquer momento.
Aquilo não era só vulnerabilidade.
Era risco.
E aqui…
risco não tem segunda chance.
Olhei pra Serena mais uma vez.
Ela tava no mesmo lugar.
Quieta.
Com a touca cobrindo quase todo o rosto.
Tentando desaparecer.
Meu coração apertou.
Maria:
— Fica aqui.
Falei baixo.
Quase sem mexer os lábios.
— Não sai daí.
Ela assentiu rápido.
Como quem obedece sem questionar.
Como quem já aprendeu que obedecer…
é sobreviver.
Aquilo doeu.
Mas não dava tempo de sentir.
Eu me afastei.
Devagar.
Sem chamar atenção.
E fui direto até Celine.
Ela estava voltando.
Sozinha.
Depois de falar com Felipe.
Mas o rosto dela…
continuava o mesmo.
Calmo.
Firme.
Controlado.
Mesmo depois de encarar alguém como ele.
Aproximei.
Diminuí o passo.
E falei baixo.
Maria:
— Celine…
Ela virou na hora.
Mas quando viu meu olhar…
já entendeu que não era algo simples.
Celine:
— O que foi?
Cheguei mais perto.
Discreta.
Maria:
— É a menina.
Ela não perguntou qual.
Não precisou.
Só olhou na direção.
E encontrou Serena.
Na mesma posição.
No mesmo estado.
E naquele momento…
eu vi.
Ela já sabia.
Já conhecia.
Já entendia.
Celine respirou fundo.
Celine:
— Eu sei.
A voz saiu baixa.
Pesada.
Eu franzi levemente a testa.
Maria:
— Você trouxe ela, né?
Ela assentiu.
Sem esconder.
Celine:
— Eu não podia deixar ela lá.
Silêncio.
Mas não era um silêncio de dúvida.
Era de concordância.
Maria:
— Ela não tem documento.
Celine:
— Eu sei.
Maria:
— E tá muito machucada.
Celine fechou os olhos por um segundo.
Celine:
— Eu sei.
Aquilo me deu mais certeza ainda.
Ela não estava surpresa.
Ela estava preocupada.
E isso era diferente.
Muito diferente.
Olhei de novo na direção do Felipe.
Ele ainda observava tudo.
Maria:
— Se ele vê ela…
Celine completou, baixa:
Celine:
— Ele não vai deixar entrar.
Pausa.
— Ou vai querer saber demais.
Assenti.
Maria:
— E ela não aguenta.
Celine ficou em silêncio.
Pensando.
Mas não por muito tempo.
Ela sempre foi rápida.
Celine:
— O que você quer fazer?
Respirei fundo.
Maria:
— Tirar ela daqui.
Pausa.
— Agora.
Celine me olhou.
Firme.
Celine:
— Pra onde?
Maria:
— Pra minha casa.
Silêncio.
Pesado.
Mas não negativo.
Celine:
— E depois?
Maria:
— Depois a gente resolve.
Pausa.
— Mas aqui… ela não pode ficar.
Celine olhou novamente pra Serena.
E dessa vez…
com ainda mais cuidado.
Mais proteção.
Mais responsabilidade.
Celine:
— Ela já passou demais.
Baixo.
Quase pra ela mesma.
Voltou o olhar pra mim.
Celine:
— Tá.
Assenti.
Mas ela continuou:
Celine:
— Vai com cuidado.
Pausa.
— Ele tá olhando tudo.
Eu sabia.
Maria:
— Eu sei.
Celine:
— E a gente não pode levantar suspeita.
Maria:
— Não vai.
Mas por dentro…
eu sabia.
Tudo ali era um risco.
Mesmo assim…
eu não ia deixar aquela menina ali.
Não ia.
Me afastei de Celine e fui procurar Luna.
E quando eu encontrei minha filha…
o problema ficou ainda maior.
Porque Luna não passa despercebida.
Nunca.
Ela estava encostada perto de duas meninas, conversando, rindo de alguma coisa.
Linda.
Confiante.
Chamando atenção sem esforço.
O cabelo liso caindo nas costas.
O corpo marcado na roupa.
O jeito de se mover…
de olhar…
de existir.
Ela sabia.
Sempre soube.
E gostava.
Suspirei.
Maria (pensando):
— Agora não…
Fui até ela.
Maria:
— Luna.
Ela virou na hora.
Sorrindo.
Luna:
— Oi, mãe.
Mas quando viu meu olhar sério…
o sorriso diminuiu.
Luna:
— O que foi?
Me aproximei.
Falei baixo.
Maria:
— Eu preciso que você faça uma coisa.
Ela ficou atenta na hora.
Luna:
— Fala.
Olhei ao redor.
Leonardo.
Já olhando.
Claro.
Sempre.
Respirei fundo.
Maria:
— Tá vendo aquela menina ali?
Apontei discretamente.
Luna seguiu.
E quando viu Serena…
a expressão dela mudou.
Na hora.
Luna:
— Aquela?
Maria:
— Essa.
Ela olhou melhor.
Mais atenta.
E então viu.
Os machucados.
A postura.
O medo.
Luna:
— Meu Deus…
Baixo.
Chocado.
Voltou pra mim.
Luna:
— O que aconteceu com ela?
Maria:
— Depois.
Pausa.
— Agora escuta.
Me aproximei mais.
Maria:
— Você vai lá.
— Vai chamar ela.
— E vai levar direto pra casa.
Luna arregalou os olhos.
Luna:
— Agora?
Maria:
— Agora.
Firme.
— Sem chamar atenção.
— Sem ninguém perceber.
Ela olhou ao redor.
E então viu.
Leonardo.
O olhar dele nela.
Fixo.
Sem vergonha.
Luna soltou um meio sorriso.
Luna:
— Complicado isso aqui…
Revirei os olhos.
Maria:
— Foco.
Ela riu baixo.
Luna:
— Tá bom.
Mas depois ficou séria.
De verdade.
Luna:
— Ele sabe?
Maria:
— Não.
Pausa.
— E não pode saber.
Ela assentiu.
Agora entendendo.
Luna:
— Entendi.
Maria:
— Vai.
E ela foi.
Do jeito dela.
Confiante.
Segura.
E chamando atenção mesmo sem querer.
Leonardo acompanhou.
Na cara.
Sem disfarçar.
Luna chegou até Serena.
Abaixou levemente.
Luna:
— Ei…
Serena levantou o olhar devagar.
Assustada.
Com medo.
Mas Luna suavizou.
Luna:
— Calma.
Baixo.
— Vem comigo.
Serena hesitou.
Mas Luna estendeu a mão.
Luna:
— Confia.
Silêncio.
Pesado.
Mas então…
Serena segurou.
Devagar.
E levantou.
E naquele momento…
eu soube.
A gente tinha conseguido.
Por enquanto.
Mas no fundo…
eu sabia.
Aquilo ainda ia dar problema.
E grande.
Porque naquele lugar…
ninguém passa despercebido por muito tempo.
E aquela menina…
não ia conseguir se esconder pra sempre.