Serena narrando…
O ônibus parou.
De verdade dessa vez.
O motor ainda estava ligado, vibrando debaixo dos meus pés, mas tudo em mim já tinha parado antes mesmo dele desligar.
Meu coração.
Minha respiração.
Meus pensamentos.
Tudo travado.
Olhei pela janela mais uma vez.
A Rocinha estava ali.
Na minha frente.
Gente andando de um lado pro outro.
Moto passando.
Som alto vindo de algum lugar.
Criança correndo.
Vozes.
Muitas vozes.
Era… vivo.
Muito vivo.
E ao mesmo tempo…
intenso demais.
Engoli seco.
Minhas mãos estavam suadas.
Meu corpo ainda doía.
Meu rosto ainda ardia.
E naquele momento…
eu me senti pequena.
Muito pequena.
Celine passou por mim no corredor.
Celine:
— Pode ir descendo com calma, tá?
Assenti de leve.
Mas não me mexi na hora.
Esperei.
As pessoas começaram a levantar.
Pegando suas bolsas.
Se ajeitando.
Descendo.
Uma por uma.
Natural.
Simples.
Como se fosse só mais um dia.
Mas pra mim…
não era.
Nunca foi.
Levantei devagar.
Minhas pernas estavam fracas.
Não sei se pela dor…
ou pelo medo.
Talvez os dois.
Ajeitei o moletom no corpo.
Puxei mais a touca.
Escondendo o máximo que eu conseguia do meu rosto.
Do meu olho roxo.
Do meu lábio machucado.
Das marcas.
Não queria que ninguém visse.
Não queria chamar atenção.
Já bastava tudo.
Fiquei por último.
Sempre.
Saí do ônibus com cuidado, descendo os degraus devagar.
Quando meus pés tocaram o chão…
eu senti.
Era real.
Eu estava ali.
Na Rocinha.
Mas ao mesmo tempo…
eu queria desaparecer.
Olhei ao redor.
E a primeira coisa que senti foi vergonha.
Vergonha.
Porque todo mundo parecia… normal.
Limpo.
Arrumado.
Inteiro.
E eu…
eu não.
Meu moletom largo, sujo.
Meu tênis velho.
Meu rosto machucado.
Meu corpo dolorido.
Eu parecia…
errada naquele lugar.
Deslocada.
Baixei a cabeça na hora.
Evitei olhar nos olhos de qualquer pessoa.
Caminhei devagar, me aproximando de um grupo de meninas que estavam juntas, conversando baixo.
Fiquei ali.
Um pouco afastada.
Sem falar nada.
Sem olhar muito.
Só…
tentando me esconder.
Puxei ainda mais a touca, cobrindo quase metade do rosto.
Minhas mãos tremiam.
Eu não sabia onde colocar.
Não sabia o que fazer.
Não sabia como agir.
Então só fiquei.
Quieta.
Parada.
Tentando ser invisível.
As pessoas iam sendo chamadas.
Documento.
Nome.
Perguntas.
Eu escutava tudo.
Cada palavra.
Cada tom.
E meu coração ia apertando mais.
Porque eu sabia.
Eu não tinha nada.
Nada.
Olhei pro chão.
Respirei fundo.
Serena:
— Vai dar certo…
Sussurrei.
Mas nem eu acreditei.
O tempo parecia não passar.
Mas ao mesmo tempo…
tudo acontecia rápido demais.
Gente entrando.
Gente sendo liberada.
E eu ali.
Parada.
Sozinha.
Até que senti.
Uma mão.
Segurando meu braço.
Levei um susto na hora.
Olhei rápido.
Era Maria.
Ela me puxou com cuidado.
Mas firme.
Maria:
— Ei…
A voz dela saiu baixa.
Mas direta.
— Vem cá.
Meu corpo travou.
Serena:
— Eu… eu tô bem…
Falei rápido.
Quase automático.
Ela me olhou.
De verdade.
E naquele olhar…
não tinha julgamento.
Mas tinha preocupação.
Maria:
— Não tá, não.
Engoli seco.
Ela me puxou um pouco mais pra perto.
Maria:
— Tá doendo?
A pergunta foi simples.
Mas me desmontou.
Assenti de leve.
Serena:
— Tá…
Minha voz saiu pequena.
Quase sumindo.
Ela levantou um pouco meu queixo.
Com cuidado.
E foi aí que ela viu.
De verdade.
O olho roxo.
O corte.
As marcas.
O olhar dela mudou.
Na hora.
Maria:
— Meu Deus…
Sussurrou.
Mas sem fazer escândalo.
Sem chamar atenção.
Só… sentindo.
Ela passou o olhar pelo meu rosto, analisando.
Com cuidado.
Com calma.
Como se tivesse medo de me machucar mais.
Maria:
— Você é só uma menina…
Aquilo me fez baixar o olhar na hora.
Vergonha.
Forte.
Pesada.
Serena:
— Eu tô bem…
Mentira.
Mas eu precisava dizer.
Ela não acreditou.
Maria:
— Qual o seu nome?
Respirei fundo.
Serena:
— Serena…
Ela repetiu baixo:
Maria:
— Serena…
Como se guardasse.
Como se fosse importante.
E talvez fosse.
Ela inclinou a cabeça.
Maria:
— O que aconteceu com você?
O silêncio veio.
Pesado.
Eu não queria falar.
Não ali.
Não daquele jeito.
Mas…
eu já tinha chegado até ali.
E esconder…
não ia mudar nada.
Engoli seco.
Serena:
— Eu… fugi.
Minha voz saiu falhando.
Baixa.
— Da minha casa.
Ela ficou em silêncio.
Esperando.
Serena:
— Eu não aguentava mais…
Senti meus olhos encherem.
Mas segurei.
Com força.
Serena:
— E aí… eu vi a caravana…
Pausa.
— E fui.
Simples assim.
Mas não era simples.
Nunca foi.
Maria respirou fundo.
Ela entendeu.
Eu vi.
Mas junto com isso…
veio outra coisa.
Preocupação.
Ela olhou ao redor.
Depois voltou pra mim.
Maria:
— Você trouxe documento?
Meu corpo gelou.
Na hora.
Balancei a cabeça devagar.
Serena:
— Não…
Silêncio.
Pesado.
Maria passou a mão no rosto.
Pensando.
Rápido.
Muito rápido.
Maria:
— Você não tem nada?
Serena:
— Nada…
Minha voz saiu fraca.
— Eu só… saí.
Ela me olhou de novo.
E dessa vez…
eu vi.
O problema.
De verdade.
Maria:
— Isso vai complicar…
Sussurrou.
Mais pra ela do que pra mim.
Meu coração disparou.
Serena:
— Eu… eu vou ter que ir embora?
A pergunta saiu desesperada.
Na hora.
Sem controle.
Ela me olhou rápido.
Maria:
— Calma…
Mas ela não parecia calma.
E isso me desesperou mais ainda.
Serena:
— Eu não posso voltar…
Minha voz quebrou.
— Eu não posso…
Senti as lágrimas vindo.
De novo.
Mas agora…
de medo.
De verdade.
Maria segurou meu rosto.
Com firmeza.
Mas com cuidado.
Maria:
— Ei… olha pra mim.
Tentei focar.
Mas estava difícil.
Muito difícil.
Maria:
— A gente vai ver isso.
Mas o tom dela…
não era certeza.
Era tentativa.
E eu senti.
Serena:
— Eu não tenho pra onde ir…
Sussurrei.
Quase sem voz.
Ela ficou em silêncio por um segundo.
Pensando.
Calculando.
E então…
olhou pra frente.
Onde eles estavam.
Onde ele estava.
Felipe.
Eu ainda não sabia quem ele era.
Mas eu sentia.
Que tudo ali…
girava em torno dele.
Maria respirou fundo.
E eu percebi.
Ela sabia.
Que eu…
ia ser problema.
E naquele momento…
o medo voltou.
Mais forte.
Mais pesado.
Porque talvez…
eu tivesse fugido de um inferno…
pra cair em outro.