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969 Palavras
Felipe narrando… Eu não gosto de improviso. E muito menos de gente entrando no meu território sem eu saber exatamente quem é, de onde veio e o que quer. Por isso, quando eu vi aquele monte de gente descendo do ônibus… com mala, mochila, cara de boa intenção… Eu já sabia. Ia dar trabalho. Cruzei os braços, observando cada movimento. Cada olhar. Cada gesto. Nada passava batido. Nada. Afonso já tava fazendo a parte dele — documento, lista, conferência. Organizado, como sempre. Leonardo do meu lado, mais relaxado, olhando tudo como se fosse entretenimento. Mas eu… eu não tava ali pra assistir. Felipe: — Para tudo. Minha voz saiu firme. Alta o suficiente pra cortar o barulho. Na hora. Tudo diminuiu. Os olhares vieram. Afonso levantou o rosto. Leonardo ficou em silêncio. E a caravana… travou. Eu dei um passo à frente. Felipe: — Ninguém entra. Pausa. — Ainda. O clima mudou na hora. Alguns trocaram olhares. Outros ficaram tensos. Normal. Eu caminhei devagar, passando por eles. Analisando. Felipe: — Aqui não é passeio. Falei olhando direto pra um dos caras. — Não é turismo. Continuei andando. Felipe: — E muito menos bagunça. Parei no meio. Virei de frente pra todos. Felipe: — Eu vou interrogar um por um. Silêncio. Pesado. Alguns engoliram seco. Felipe: — Quem tá limpo… entra. Pausa. — Quem não tiver… Dei um leve sorriso de canto. Frio. — Nem pisa. O recado tava dado. Leonardo soltou um “c*****o” baixo. Mas não falou mais nada. Afonso só observava. Eu virei o rosto pra Maria. Felipe: — Onde vai ficar essa gente toda? Ela respondeu rápido. Preparada. Maria: — Na igreja. Pausa. — Tem espaço pra todos. Analisei ela por um segundo. Felipe: — Todos? Maria assentiu. Maria: — Sim. — Já está tudo organizado. Cruzei os braços. Felipe: — Espero que esteja mesmo. Ela manteve a postura. Maria: — Está. Antes que eu falasse mais alguma coisa… a porta do ônibus abriu de novo. E foi aí que ela apareceu. Celine. Desceu com calma. Mas com presença. Olhou ao redor rápido, absorvendo tudo. E então viu Maria. Celine: — Maria! Ela abriu um sorriso e foi até ela, abraçando com cuidado. Um abraço verdadeiro. De quem se importa. Maria: — Você chegou… Celine: — Chegamos. Elas se afastaram. E então… Celine olhou pra mim. E diferente da maioria… ela não desviou. Caminhou até mim. Postura reta. Olhar firme. Mas educado. Celine: — Boa tarde. Pausa. — O senhor deve ser o responsável por aqui. A forma como ela falou… não era medo. Mas também não era desafio. Era respeito. Medido. Felipe: — Sou. Silêncio. Ela assentiu. Celine: — Eu sou Celine. Pausa. — Responsável pela caravana. Leonardo deu um passo pro lado, curioso. Afonso ficou atento. Eu continuei olhando pra ela. Felipe: — É? Ela assentiu. Celine: — Sim. Pausa. — Qualquer coisa pode falar diretamente comigo. Cruzei os braços. Felipe: — Então vamos falar. Ela esperou. Felipe: — Quero uma conversa. Pausa. — A sós. Leonardo levantou a sobrancelha. Afonso olhou pra mim. Mas ninguém interferiu. Celine apenas assentiu. Celine: — Claro. Felipe: — Vem. Virei sem esperar. Saí andando. E ouvi os passos dela vindo atrás. Levei ela até um espaço mais afastado, um canto vazio, sem muito movimento, mas ainda dentro da área. Pare. Virei de frente pra ela. Agora… só nós dois. O barulho ao redor parecia distante. Mas a tensão… não. Felipe: — Fala. Direto. Ela respirou fundo. Mas não demonstrou nervosismo. Interessante. Celine: — Nós viemos com um projeto social. Pausa. — Saúde, educação, assistência… Eu levantei a mão, interrompendo. Felipe: — Isso eu já sei. Pausa. — Quero saber o real motivo. Silêncio. Ela me olhou. Por alguns segundos. Como se estivesse escolhendo as palavras. Celine: — Ajudar. Soltei um riso curto. Felipe: — Não me faz perder tempo. A voz saiu mais dura. Mais baixa. Ela não recuou. Celine: — Eu não tô mentindo. Me aproximei um passo. Felipe: — Ninguém vem aqui só por isso. Pausa. — Ninguém. Ela sustentou meu olhar. Celine: — Tem gente que vem. Silêncio. Pesado. Eu analisei ela. Cada detalhe. Postura. Olhar. Respiração. Felipe: — E o que você ganha com isso? Pergunta direta. Ela respondeu sem hesitar: Celine: — Consciência tranquila. Aquilo me fez travar por um segundo. Só um segundo. Mas fez. Felipe: — Isso não paga nada. Celine: — Pra mim, paga. O silêncio voltou. Mas diferente. Eu dei um passo mais perto. Felipe: — E o resto? Pausa. — Todo mundo ali pensa igual você? Ela respondeu: Celine: — Nem todos. Pausa. — Mas todos estão aqui com um propósito. Felipe: — Qual? Ela respirou fundo. Celine: — Ajudar quem precisa. Balancei a cabeça. Felipe: — Isso aqui não é lugar de ingenuidade. Ela respondeu firme: Celine: — Eu sei. Pausa. — Mas também não é lugar sem esperança. Aquilo… aquilo me irritou. Felipe: — Esperança não protege ninguém. Celine: — Mas pode mudar alguém. Silêncio. Pesado. Direto. Eu fiquei olhando pra ela. Tentando achar. Alguma falha. Algum medo. Alguma mentira. Mas… não tinha. Ou ela era muito boa… ou era verdadeira. E isso… era raro. Felipe: — Eu vou observar. Pausa. — Tudo. Ela assentiu. Celine: — Pode. Felipe: — E se eu ver alguma coisa errada… Aproximei mais. Minha voz saiu mais baixa. Mais perigosa. — Eu paro tudo. Ela não recuou. Celine: — Entendi. Silêncio. Mais alguns segundos. Eu me afastei. Felipe: — Pode voltar. Ela assentiu. E saiu. Eu fiquei ali. Parado. Pensando. Olhando o movimento ao longe. E pela primeira vez… desde que essa caravana apareceu… eu não tinha certeza de uma coisa. Se eles eram um problema… ou algo pior. Porque gente de verdade… é mais perigosa do que qualquer mentira. E aquela mulher… parecia exatamente isso. De verdade.
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