Afonso narrando…
Eu não gosto de surpresa.
Na verdade… ninguém aqui gosta.
Mas diferente do Leonardo, que leva tudo na brincadeira, e do Felipe, que já chega desconfiando de tudo, eu prefiro outra coisa.
Controle.
E controle começa com informação.
Por isso eu tava ali.
Na entrada da Rocinha.
Esperando a tal caravana.
O sol já tava alto, batendo forte no asfalto, fazendo o ar subir quente. O movimento ao redor seguia normal — moto subindo, gente descendo, criança correndo, vendedor gritando.
Mas ali…
naquele ponto específico…
tava diferente.
Mais atento.
Mais armado.
Mais organizado.
Tinha dois caras posicionados mais à frente, outros espalhados nas laterais. Tudo discreto pra quem não conhece… mas pra quem é daqui, dá pra sentir.
Hoje não era um dia comum.
Encostei o braço no capô de um carro parado, olhando a rua lá embaixo.
Maria tava do meu lado.
Ela parecia calma.
Mas não era calma de verdade.
Era controle.
Eu reconheço.
Porque eu também faço isso.
Maria:
— Eles já devem estar chegando…
A voz dela saiu baixa.
Mas firme.
Olhei de lado pra ela.
Afonso:
— Devem.
Ela segurava a bolsa com força, como se aquilo desse alguma segurança.
Maria:
— Eu espero que dê tudo certo.
Soltei um ar pelo nariz.
Afonso:
— Vai dar.
Pausa.
— Se não tiver nada errado.
Ela ficou em silêncio.
Sentiu.
E era pra sentir mesmo.
Olhei de novo pra frente.
E então…
vi.
O ônibus.
Descendo a rua.
Grande.
Branco.
Chamando atenção de longe.
A rua pareceu desacelerar por um segundo.
As pessoas olhando.
Comentando.
Curiosas.
Normal.
Mas ali…
não era só curiosidade.
Era análise.
Fiquei reto, descruzando os braços.
Afonso:
— Chegaram.
Maria respirou fundo ao meu lado.
O ônibus foi se aproximando devagar, até parar logo à frente.
O motor ainda ligado.
O barulho pesado preenchendo o espaço.
Fiz um sinal com a mão.
Na hora, dois dos nossos já se aproximaram.
Tudo automático.
Tudo ensaiado.
A porta do ônibus abriu.
E aí começou.
Gente descendo.
Um por um.
Alguns olhando ao redor com curiosidade.
Outros com receio.
Outros tentando parecer tranquilos.
Mas ninguém engana.
Eu vejo.
Sempre vejo.
Afonso:
— Vamos começar.
Falei baixo.
Maria assentiu.
Me aproximei do primeiro que desceu.
Afonso:
— Documento.
Direto.
Sem rodeio.
Ele entregou.
Analisei.
Nome.
Foto.
Ok.
Fiz sinal pra passar.
E assim foi.
Um por um.
Sem pressa.
Mas sem vacilo.
Afonso:
— Próximo.
Maria começou a ajudar também, pegando lista, conferindo nomes.
Maria:
— Esse aqui tá na lista.
Assenti.
Mas ainda assim conferia.
Sempre.
As malas começaram a descer também.
E aí outro grupo entrou em ação.
Revistando.
Abrindo.
Checando.
Nada passa sem ver.
Nunca.
Um homem tentou brincar.
Homem:
— Tá parecendo aeroporto isso aqui, hein?
Nem respondi.
Só olhei.
E ele entendeu.
Na hora.
Silêncio.
Maria olhou de leve pra mim.
Mas não falou nada.
Ela tava aprendendo rápido.
Bom.
Muito bom.
O fluxo continuava.
Gente.
Mala.
Documento.
Tudo sendo checado.
Tudo sendo visto.
Até que…
um carro parou mais atrás.
Conhecido.
Não precisei nem olhar direito.
Leonardo desceu primeiro.
Como sempre.
Sorrindo.
Relaxado.
Como se tivesse indo pra festa.
Leonardo:
— Eita… já começou o show?
Soltei um riso curto.
Afonso:
— Chegou na hora.
Ele olhou ao redor.
Analisando.
Mas do jeito dele.
Leonardo:
— Tá movimentado isso aqui, hein…
Logo atrás…
Felipe.
Desceu do carro com a mesma presença de sempre.
Silêncio automático ao redor.
Até quem não conhece…
sente.
Ele não falou nada.
Só olhou.
Mas aquele olhar…
já dizia tudo.
Analisando.
Calculando.
Dominando.
Ele veio andando na nossa direção.
Devagar.
Mas firme.
Leonardo encostou perto de mim.
Leonardo:
— Cadê a tal da filha?
Revirei os olhos.
Afonso:
— Tu não presta.
Ele riu.
Leonardo:
— Só tô observando.
Felipe chegou.
Parou ao meu lado.
Felipe:
— E aí?
Afonso:
— Tudo sendo checado.
Ele olhou pro ônibus.
Depois pras pessoas.
Depois pras malas.
Felipe:
— Quero tudo limpo.
Afonso:
— Vai estar.
Ele assentiu.
Mas não relaxou.
Felipe nunca relaxa.
Leonardo cruzou os braços.
Leonardo:
— Até agora tá tranquilo.
Felipe virou levemente o rosto pra ele.
Felipe:
— Até agora.
Silêncio.
Pesado.
Como sempre.
Maria se aproximou um pouco mais, com a lista na mão.
Maria:
— Já conferimos boa parte…
Felipe olhou pra ela.
Sem expressão.
Felipe:
— Continua.
Ela assentiu.
E voltou.
Leonardo acompanhou ela com o olhar.
Eu vi.
Claro que vi.
Afonso:
— Para de olhar.
Ele riu baixo.
Leonardo:
— Eu nem fiz nada.
Afonso:
— Ainda.
Felipe ignorou.
Mas sabia.
Ele sempre sabe.
O movimento continuava.
Mas agora…
com ele ali…
tudo ficava mais intenso.
Mais atento.
Mais sério.
E no meio de tudo aquilo…
uma certeza se formava.
Essa caravana…
não ia passar despercebida.
Não com ele ali.
E muito menos…
com a gente olhando.