Serena narrando…
O ônibus começou a diminuir a velocidade.
E foi ali que eu senti.
No peito.
Forte.
Como se meu coração tivesse entendido antes mesmo da minha cabeça.
Eu me ajeitei no banco, ainda meio sonolenta, mas com uma sensação estranha tomando conta de mim. Não era medo… não exatamente. Era… expectativa.
Celine abriu os olhos ao meu lado, percebendo o movimento.
Celine:
— Estamos chegando…
Minha respiração travou.
Serena:
— Já?
Ela assentiu, com um sorriso leve.
Celine:
— Já.
Olhei pela janela.
E foi ali que tudo mudou.
Porque, de repente… eu vi.
O mar.
Lá no fundo.
Imenso.
Azul.
Brilhando com a luz do sol que já dominava o céu.
Eu fiquei parada.
Sem piscar.
Sem respirar direito.
Serena:
— Meu Deus…
Sussurrei.
A voz saiu falha.
Baixa.
Mas carregada.
Celine olhou na mesma direção.
Celine:
— É lindo, né?
Mas eu nem consegui responder.
Porque aquilo…
aquilo era maior do que tudo que eu já tinha visto na vida.
Muito maior.
Eu cresci vendo barro.
Casa simples.
Rua de terra.
Céu fechado.
E agora…
aquilo.
Aberto.
Infinito.
Bonito.
De um jeito que doía.
Meus olhos começaram a encher.
Sem aviso.
Sem controle.
Uma lágrima escorreu.
Depois outra.
Serena:
— Eu nunca vi isso…
Minha voz saiu tremendo.
Celine sorriu.
Celine:
— Agora você tá vendo.
Levei a mão ao rosto, limpando as lágrimas, mas elas continuavam vindo.
Porque não era só o mar.
Era tudo.
A cidade.
Os prédios.
O movimento.
A vida.
Tudo parecia… vivo demais.
Intenso demais.
Diferente demais.
E pela primeira vez…
eu não me senti presa.
Eu me senti…
pequena.
Mas livre.
Serena:
— É tão bonito…
Falei baixo.
Mais pra mim do que pra ela.
O ônibus entrou em uma área mais movimentada. Carros, pessoas, barulho… tudo mais rápido, mais cheio.
Meu coração batia forte.
Serena:
— Eu tô com medo…
Confessei.
Celine olhou pra mim.
Celine:
— Eu sei.
Ela segurou minha mão.
Celine:
— Mas isso aqui também pode ser o seu começo.
Engoli seco.
Assenti de leve.
O ônibus continuou avançando, subindo algumas ruas, entrando em caminhos mais apertados.
E então…
a voz do motorista veio:
Motorista:
— Atenção, pessoal… estamos chegando na Rocinha!
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Serena:
— Rocinha…
Repeti baixo.
O nome parecia pesado.
Importante.
Desconhecido.
Olhei pela janela.
Agora já não era mais só cidade bonita.
Era diferente.
Mais próximo do que eu conhecia.
Mas ainda assim…
mais intenso.
Mais cheio.
Mais vivo.
Celine:
— É aqui.
Minha respiração acelerou.
Serena:
— É aqui…
O ônibus começou a diminuir ainda mais a velocidade.
E então, uma mulher lá da frente falou alto:
Mulher:
— Pessoal, vamos organizar os documentos! Todo mundo com identidade em mãos, por favor!
Meu coração parou.
Literalmente.
Por um segundo.
Depois disparou.
Forte.
Descompassado.
Olhei pra frente.
As pessoas começaram a mexer nas bolsas.
Pegar documentos.
Organizar.
Natural.
Simples.
Pra elas.
Mas não pra mim.
Meu corpo gelou.
Serena:
— Celine…
Minha voz saiu fraca.
Ela virou na hora.
Celine:
— O que foi?
Olhei pra ela, desesperada.
Serena:
— Eu… eu não tenho…
Ela franziu a testa.
Celine:
— Não tem o quê?
Engoli seco.
Serena:
— Documento…
O silêncio entre a gente foi rápido.
Mas pesado.
Minha respiração começou a falhar.
Serena:
— Eu não trouxe nada…
Minha voz tremia.
— Nada…
Olhei ao redor.
Todo mundo pegando documento.
Todo mundo preparado.
Menos eu.
Serena:
— E se eu não puder entrar?
O desespero começou a crescer.
Meu peito apertou.
Serena:
— E se eles me mandarem embora?
Minha visão começou a embaçar.
Serena:
— Eu não posso voltar…
A voz saiu quebrada.
Desesperada.
Celine segurou meu rosto com cuidado.
Celine:
— Ei…
Ela falou firme.
Mas com calma.
— Olha pra mim.
Tentei focar nela.
Mesmo com o medo tomando conta.
Celine:
— Ninguém vai te mandar embora.
Serena:
— Mas eu não tenho nada…
Celine:
— E eu tô aqui.
Pausa.
— Eu vou resolver.
Minha respiração ainda estava descontrolada.
Serena:
— Você tem certeza?
Ela assentiu.
Celine:
— Tenho.
Apertei a mão dela com força.
Como se aquilo fosse a única coisa me segurando ali.
O ônibus parou de vez.
O barulho lá fora aumentou.
Gente.
Voz.
Movimento.
Era real.
Celine:
— Fica tranquila.
Ela levantou.
Celine:
— Eu vou falar com eles.
Segurei a mão dela antes que ela saísse.
Serena:
— Não me deixa…
Minha voz saiu pequena.
Ela sorriu.
Celine:
— Não vou.
Pausa.
— Eu prometo.
Soltei devagar.
Vendo ela se afastar pelo corredor.
E eu fiquei ali.
Sentada.
Parada.
Com o coração na boca.
Com medo.
Muito medo.
Mas ao mesmo tempo…
com algo que eu nunca tive antes.
Uma chance.
E eu não podia perder.
Não agora.
Não depois de tudo.
Olhei pela janela.
A Rocinha estava ali.
Na minha frente.
E eu…
estava prestes a entrar.
Ou não.
E essa dúvida…
me destruía por dentro.