Felipe narrando…
Fiquei olhando ela sair por alguns segundos.
Maria andava com cuidado, mas não era fraca. Dava pra ver. Mesmo sendo nova ali, mesmo sentindo o peso daquele lugar… ela não abaixava a cabeça.
Isso já dizia muito.
Mas não dizia tudo.
E no meu mundo… só metade nunca é suficiente.
Voltei o olhar pra Afonso, que ainda estava com a pasta aberta na mão, analisando os papéis com aquela calma irritante de sempre.
Leonardo já tava encostado na mesa de novo, com aquele sorriso de quem tá pensando besteira.
Sempre.
Felipe:
— Já viu tudo?
Afonso assentiu.
Afonso:
— Pelo menos no papel… tá limpo.
Soltei um riso baixo.
Felipe:
— No papel até santo é perfeito.
Leonardo soltou uma risada.
Leonardo:
— Tu não confia em nada, né?
Felipe:
— Confio no que eu vejo.
Dei dois passos pra frente, pegando a pasta da mão do Afonso e folheando mais uma vez.
Nomes.
Funções.
Origem.
Tudo organizado.
Tudo bonito.
Mas aquilo não me convencia.
Nunca convence.
Fechei a pasta com força, jogando de volta na mesa.
Felipe:
— Fica de olho.
Afonso:
— Já tô.
Leonardo se esticou, apoiando o cotovelo na mesa.
Leonardo:
— E a mulherzinha?
Levantei o olhar pra ele.
Felipe:
— Qual?
Ele riu.
Leonardo:
— A tal da Maria.
Fiquei em silêncio por um segundo.
Felipe:
— Não é problema.
Afonso completou:
Afonso:
— Pelo menos não parece.
Cruzei os braços.
Felipe:
— Parece não quer dizer nada.
Pausa.
— Mas ela não fica aqui.
Leonardo arqueou a sobrancelha.
Leonardo:
— Vai mandar embora?
Balancei a cabeça.
Felipe:
— Vou mandar sair da boca.
Eles me olharam.
Felipe:
— Lugar dela não é aqui dentro.
Afonso assentiu.
Afonso:
— Concordo.
Peguei o rádio na mesa, apertando o botão.
Felipe:
— Fala.
A voz respondeu na hora.
Soldado:
— Fala, chefe.
Felipe:
— A mulher que saiu agora… Maria.
Pausa.
— Quero dois vapor acompanhando.
Leonardo virou o rosto na hora.
Leonardo:
— Ih…
Felipe continuei:
Felipe:
— Discreto.
— Só pra garantir que ninguém mexa.
Soltei o botão.
Leonardo já tava rindo.
Leonardo:
— Olha só… o chefe preocupado.
Virei pra ele devagar.
Felipe:
— Não é preocupação.
Pausa.
— É respeito.
O sorriso dele diminuiu um pouco.
Felipe:
— O marido dela trabalhou pra gente.
Afonso falou:
Afonso:
— Olavo.
Assenti.
Felipe:
— Era correto.
Pausa.
— Gente assim é difícil de achar.
Leonardo coçou a barba.
Leonardo:
— É… disso aí eu lembro.
Fiquei em silêncio por um segundo.
Felipe:
— Então ninguém encosta nela.
Olhei direto pra Leonardo.
Felipe:
— Nem nela… nem em quem tá com ela.
O olhar dele mudou.
Mas só um pouco.
Leonardo:
— Ih… já tem mais gente no pacote?
Afonso soltou um riso baixo.
Afonso:
— Ele tá curioso.
Leonardo ignorou.
Leonardo:
— Quem tá com ela?
Cruzei os braços.
Felipe:
— A filha.
Silêncio.
Um segundo.
Dois.
E aí…
Leonardo abriu um sorriso.
Aquele sorriso.
Conhecido.
Perigoso.
Leonardo:
— Filha?
Balancei a cabeça, já sabendo.
Felipe:
— Nem começa.
Ele riu.
Leonardo:
— Qual o nome?
Felipe:
— Luna.
Ele repetiu baixo:
Leonardo:
— Luna…
Afonso já começou a rir.
Afonso:
— Pronto.
Felipe:
— Pronto o quê?
Afonso:
— Já era.
Leonardo abriu os braços.
Leonardo:
— p***a, qual foi? Só perguntei o nome.
Olhei pra ele.
Felipe:
— Eu te conheço.
Leonardo:
— E eu não posso conhecer a menina?
Felipe:
— Não.
Direto.
Sem pensar.
Ele fez cara de indignado.
Leonardo:
— c*****o, Felipe…
Felipe:
— Respeita.
Silêncio.
Ele me encarou.
Mas não recuou.
Leonardo:
— Eu não falei nada demais.
Felipe:
— Tu não falou ainda.
Pausa.
— Mas vai falar.
Afonso riu mais alto dessa vez.
Afonso:
— Ele nem viu a menina e já tá assim.
Leonardo apontou pra ele.
Leonardo:
— Cala a boca, p***a.
Depois voltou pra mim.
Leonardo:
— Eu só quero conhecer.
Felipe:
— Pra quê?
Ele deu de ombros.
Leonardo:
— Pra ver qual é.
Balancei a cabeça.
Felipe:
— Tu não vê nada.
Ele riu.
Leonardo:
— Tu não manda nisso não.
O clima deu uma leve tensionada.
Mas não era briga.
Era… rotina.
Felipe:
— Eu mando sim.
Falei baixo.
Mas firme.
Ele me encarou.
Segurou o olhar.
E depois…
sorriu.
Leonardo:
— Tá bom, chefe.
Pausa.
— Vou respeitar.
Mas eu conhecia aquele sorriso.
Afonso também.
Porque ele falou na hora:
Afonso:
— Não vai nada.
Leonardo apontou pra ele de novo.
Leonardo:
— Tu tá muito engraçado hoje.
Afonso:
— Eu te conheço.
Eu soltei um riso curto.
Felipe:
— Todo mundo conhece.
Leonardo levantou as mãos.
Leonardo:
— Beleza, beleza…
Pausa.
— Mas se ela aparecer por aí…
Felipe:
— Não aparece.
Ele sorriu.
Leonardo:
— A gente nunca sabe.
Revirei os olhos.
Felipe:
— Se eu souber de gracinha…
Parei.
Olhei direto pra ele.
— Tu sabe.
Silêncio.
Ele assentiu.
Mais sério agora.
Leonardo:
— Sei.
Pausa.
— Relaxa.
Afonso fechou o caderno.
Afonso:
— Pelo menos essa caravana vai dar assunto.
Leonardo riu.
Leonardo:
— Já começou.
Eu balancei a cabeça.
Felipe:
— E vai piorar.
Olhei ao redor.
Movimento.
Barulho.
Controle.
Tudo funcionando.
Mas lá no fundo…
aquela sensação continuava.
De que alguma coisa tava pra acontecer.
E eu não gosto disso.
Porque quando eu sinto…
geralmente eu tô certo.
E se essa tal de caravana…
tá chegando…
Então o jogo tá começando.
E eu já tô pronto.