Maria narrando…
Eu sabia que aquele lugar não era pra mim.
E ainda assim… eu entrei.
O cheiro foi a primeira coisa que me atingiu. Mistura de cigarro, suor, dinheiro e algo mais pesado… algo que não dá pra explicar, mas que você sente na pele. Um ambiente carregado, vivo, perigoso.
E no meio de tudo aquilo…
ele.
Felipe.
Mesmo sem ninguém me dizer quem era, eu sabia.
Porque o ambiente mudava ao redor dele.
As pessoas ficavam mais atentas.
Mais tensas.
Mais cuidadosas.
Era como se tudo girasse em volta dele.
E de certa forma… girava mesmo.
Respirei fundo antes de dar mais um passo pra dentro. Eu sentia o peso dos olhares em cima de mim. Não era curiosidade comum. Era análise. Era desconfiança.
E com razão.
Eu era uma estranha.
Uma mulher entrando ali… sozinha.
Mas eu não podia recuar.
Não agora.
A pasta nas minhas mãos parecia mais pesada do que realmente era. Não eram só papéis. Era minha justificativa. Meu motivo de estar ali. Minha tentativa de mostrar que eu não era ameaça.
Mesmo sabendo que, pra eles… todo mundo é.
Felipe:
— Tu vai ficar.
A voz dele foi firme.
Sem espaço pra dúvida.
Sem espaço pra escolha.
Senti um arrepio subir pela minha coluna.
Maria:
— Agora?
Perguntei, mesmo sabendo a resposta.
Felipe:
— Agora.
O silêncio ao redor pareceu aumentar.
Eu engoli seco.
Mas não abaixei a cabeça.
Não podia.
Não ali.
Não na frente dele.
Respirei fundo, tentando manter a postura.
Maria:
— Tudo bem.
Minha voz saiu mais firme do que eu me sentia por dentro.
Ele me analisava.
De cima a baixo.
Sem pressa.
Sem disfarçar.
Como se estivesse desmontando cada pedaço de mim.
E talvez estivesse mesmo.
Felipe deu um leve sinal com a cabeça, e um dos homens ao redor se afastou, abrindo espaço.
Leonardo cruzou os braços, encostado na mesa, com um meio sorriso no rosto.
Leonardo:
— Boa sorte.
Aquilo não ajudou.
Afonso, mais sério, só observava.
Felipe virou de leve, caminhando alguns passos.
Felipe:
— Vem.
Não era convite.
Era ordem.
E eu fui.
Segui ele até uma parte mais afastada, onde o barulho ainda existia, mas parecia mais controlado. Ele parou e virou de frente pra mim.
Agora… era só nós dois.
Meu coração estava acelerado.
Mas eu mantive o olhar firme.
Felipe cruzou os braços.
Felipe:
— Fala.
Simples.
Direto.
Seco.
Respirei fundo.
Maria:
— Meu nome é Maria.
Ele não respondeu.
Só continuou olhando.
Esperando.
Maria:
— Eu sou nova aqui…
Pausa.
— Cheguei há pouco tempo na comunidade.
Ele inclinou levemente a cabeça.
Felipe:
— Já percebi.
O tom dele não era simpático.
Nem um pouco.
Maria continuei:
Maria:
— Eu vim com a equipe da igreja… mas não sou só voluntária.
Ele estreitou o olhar.
Felipe:
— Então é o quê?
Engoli seco.
Maria:
— Eu sou esteticista.
Pausa.
— E tô montando um salão aqui.
Aquilo pareceu surpreender ele por um segundo.
Mas só por um segundo.
Felipe:
— Salão?
Maria:
— Sim.
Assenti.
— Tô organizando tudo ainda… mas em breve eu vou abrir.
O silêncio veio.
Pesado.
Ele continuava me analisando.
Felipe:
— E por que aqui?
Pergunta direta.
Resposta difícil.
Respirei fundo.
Maria:
— Porque eu precisei recomeçar.
Ele não reagiu.
Mas eu continuei.
Maria:
— Meu marido morreu.
O olhar dele mudou.
Não muito.
Mas o suficiente pra eu perceber.
Felipe:
— Morreu como?
A pergunta veio sem cuidado.
Sem filtro.
Mas eu já esperava.
Maria:
— Acidente.
Minha voz saiu mais baixa.
— Ele era motorista.
Felipe ficou em silêncio por um segundo.
Depois…
Felipe:
— Nome.
Maria:
— Olavo.
O silêncio que veio depois… foi diferente.
Pesado.
Mas não da mesma forma de antes.
Os olhos dele mudaram.
Levemente.
Felipe:
— Olavo…
Ele repetiu.
Como se puxasse da memória.
E então… veio.
Felipe:
— Dirigia pra gente.
Aquilo não foi pergunta.
Foi constatação.
Assenti.
Maria:
— Sim.
Ele passou a mão pelo queixo.
Pensando.
Felipe:
— Era direito.
Simples.
Mas aquilo disse muito.
Maria:
— Ele era um bom homem.
Minha voz saiu firme.
Porque era verdade.
Felipe olhou pra mim de novo.
Mas agora…
com outro tipo de atenção.
Felipe:
— Nunca roubou.
Assenti.
Maria:
— Nunca.
Ele soltou o ar pelo nariz.
Felipe:
— Raro.
Silêncio.
Por alguns segundos, o clima mudou.
Não ficou leve.
Mas ficou… diferente.
Menos hostil.
Mas não por muito tempo.
Porque ele voltou.
Felipe:
— E tua filha?
Franzi levemente a testa.
Maria:
— Como você sabe?
Ele deu de ombros.
Felipe:
— Eu sei de tudo que entra aqui.
Respirei fundo.
Maria:
— Eu tenho uma filha.
Felipe:
— Nome.
Maria:
— Luna.
Ele assentiu de leve.
Felipe:
— Quantos anos?
Maria:
— Vinte e quatro.
Ele cruzou os braços de novo.
Felipe:
— Tá contigo?
Maria:
— Tá.
Pausa.
— Ela veio comigo.
O olhar dele ficou mais sério.
Felipe:
— Então presta atenção.
Dei um leve passo pra trás, quase instintivo.
Felipe:
— Aqui não é lugar de vacilo.
A voz dele ficou mais baixa.
Mais perigosa.
— Muito menos pra mulher.
Meu coração apertou.
Mas eu mantive o olhar.
Maria:
— Eu sei.
Ele deu um passo mais perto.
Felipe:
— Sabe mesmo?
Respirei fundo.
Maria:
— Eu sei que não posso errar.
Silêncio.
Pesado.
Ele me encarou por mais alguns segundos.
Como se decidisse alguma coisa.
E então…
se afastou um pouco.
Felipe:
— Vou ver isso aí.
Apontou com a cabeça pros papéis.
Maria:
— Tudo bem.
Ele começou a se virar.
Mas parou.
Sem olhar pra mim.
Felipe:
— E tua filha…
Pausa.
— Mantém ela longe de problema.
Engoli seco.
Maria:
— Vou manter.
Ele assentiu de leve.
E saiu.
Simples assim.
Sem despedida.
Sem mais nada.
Eu fiquei ali.
Parada.
Respirando.
Tentando entender tudo aquilo.
Mas uma coisa era certa.
Eu tinha entrado em um lugar onde…
cada passo importava.
E agora…
eu não podia mais errar.