Felipe narrando…
O dia ainda nem tinha esquentado direito quando eu já tava de volta em casa.
Subi direto, sem falar muito com ninguém. Os seguranças abriram caminho, como sempre, e eu entrei sem nem olhar pros lados. Minha cabeça ainda tava rodando nas coisas da academia… na caravana… naquela sensação que não saía de mim.
Alguma coisa não encaixava.
E quando não encaixa… eu não ignoro.
Fui direto pro banheiro, arrancando a regata e jogando no chão. Abri o chuveiro no frio, entrando debaixo da água sem nem esperar esquentar.
A água bateu no corpo, levando o suor embora, mas não a tensão.
Fechei os olhos por um segundo.
Felipe:
— Igreja…
Murmurei baixo.
Balancei a cabeça.
Não confiava.
Não confiava em gente que aparece do nada querendo ajudar.
Não confiava em movimento que eu não controlo.
E muito menos em gente de fora entrando no meu território.
Passei a mão pelo rosto, respirando fundo.
Terminei o banho rápido, sem enrolação. Saí, me sequei e já me vesti ali mesmo — calça escura, camisa preta, corrente no pescoço, relógio pesado no pulso.
Peguei a arma e encaixei na cintura.
Sempre.
Saí do quarto já no ritmo de sempre.
Sem pausa.
Sem descanso.
Desci as escadas e atravessei a sala, pegando a chave da Hilux no caminho.
Jéssica apareceu na cozinha.
Jéssica:
— Vai sair já, chefe?
Felipe:
— Vou.
Nem parei.
Ela ainda tentou:
Jéssica:
— Quer café?
Felipe:
— Depois.
Saí.
O ar já tava mais quente agora, o morro mais cheio, mais barulhento. Entrei no carro, liguei e desci direto.
Meu destino era um só.
A boca.
O centro.
Onde tudo gira.
Onde o controle acontece.
Onde ninguém vacila.
Cheguei em poucos minutos. Assim que estacionei, um dos soldados já veio abrir a porta.
Soldado:
— Bom dia, chefe.
Felipe:
— Fala.
Desci e entrei direto, sem perder tempo.
Lá dentro, o movimento já tava acontecendo.
Dinheiro sendo contado.
Carga sendo separada.
Gente indo e vindo.
E no meio disso tudo…
Leonardo e Afonso.
Os dois já estavam lá.
Leonardo encostado na mesa, contando dinheiro com uma pilha na frente.
Afonso mais afastado, com caderno aberto, anotando tudo, organizado como sempre.
Leonardo olhou pra mim e sorriu de lado.
Leonardo:
— Aí sim… achei que ia dormir depois do treino.
Felipe:
— Dormir é pra quem pode.
Afonso levantou o olhar.
Afonso:
— Já tem coisa pra resolver.
Felipe:
— Sempre tem.
Me aproximei da mesa, olhando o movimento.
Felipe:
— E aí?
Leonardo jogou um maço de dinheiro na pilha.
Leonardo:
— Contabilidade da noite. Tudo certo.
Afonso completou:
Afonso:
— Carga da manhã já tá separada. Saída em uma hora.
Assenti.
Felipe:
— E a entrada?
Afonso:
— Confirmada. Final da tarde.
Tudo fluindo.
Do jeito que tem que ser.
Mas minha cabeça não tava só nisso.
Olhei pra Afonso.
Felipe:
— E a caravana?
Ele fechou o caderno devagar.
Afonso:
— Chega hoje.
Meu maxilar travou.
Felipe:
— Hoje?
Afonso assentiu.
Afonso:
— Final da tarde também.
Soltei um riso curto.
Sem humor.
Felipe:
— Bonito.
Leonardo levantou o olhar.
Leonardo:
— Tu ainda com isso?
Virei pra ele.
Felipe:
— Ainda.
Afonso puxou alguns papéis da mesa.
Afonso:
— Já comecei a levantar informação.
Colocou na minha frente.
— Nome, função, origem… o que deu pra conseguir até agora.
Peguei os papéis, passando o olho rápido.
Médico.
Professor.
Voluntário.
Assistente social.
Tudo muito certinho.
Muito limpo.
Muito organizado.
Felipe:
— Tá fácil demais.
Afonso:
— Pode ser só isso mesmo.
Levantei o olhar.
Felipe:
— Ou pode não ser.
Silêncio.
Leonardo suspirou.
Leonardo:
— Tu não muda.
Felipe:
— E não vou.
Nesse momento, um dos caras entrou.
Soldado:
— Chefe… tem uma mulher aí fora.
Nem olhei.
Felipe:
— Quem?
Soldado:
— Disse que é da caravana.
Afonso virou o rosto na hora.
Afonso:
— Já?
Soldado:
— Trouxe uns papéis.
Troquei um olhar com Afonso.
Felipe:
— Manda entrar.
Alguns segundos depois, ela apareceu.
Maria.
Dava pra ver de cara que não era daqui.
Arrumada demais.
Postura diferente.
Mas não parecia assustada.
Isso já me chamou atenção.
Ela entrou com uma pasta na mão, olhando ao redor rápido, mas tentando manter a calma.
Maria:
— Bom dia…
Ninguém respondeu de imediato.
Eu fiquei só olhando.
Ela deu um passo à frente.
Maria:
— Eu sou Maria… sou esteticista e voluntária da equipe que tá chegando.
Afonso se aproximou, pegando a pasta da mão dela.
Afonso:
— Pode deixar.
Ele abriu, começando a analisar.
Maria continuou:
Maria:
— Eu trouxe os dados das pessoas que estão vindo… pra facilitar a organização…
Minha voz cortou ela no meio.
Felipe:
— Quem pediu isso?
Ela travou.
Só por um segundo.
Maria:
— Eu… achei melhor antecipar…
Dei um passo na direção dela.
Felipe:
— Aqui ninguém “acha” nada.
O clima pesou na hora.
Ela engoliu seco.
Mas não recuou.
Interessante.
Maria:
— Eu só quis ajudar.
Soltei um riso curto.
Felipe:
— Ajuda demais atrapalha.
Silêncio.
Afonso continuava olhando os papéis.
Leonardo observando tudo, quieto agora.
Eu continuei olhando pra ela.
Analisando.
Cada detalhe.
Felipe:
— Tu sabe onde tu tá?
Ela respondeu baixo, mas firme:
Maria:
— Sei.
Aproximei mais um pouco.
Felipe:
— Sabe mesmo?
Ela não desviou o olhar.
Maria:
— Sei que aqui não é lugar de erro.
Aquilo me fez parar.
Por um segundo.
Mas não aliviei.
Felipe:
— Então não erra.
Afonso fechou a pasta.
Afonso:
— Tá tudo aqui.
Me entregou.
Olhei.
Mais nomes.
Mais informações.
Mais coisa pra analisar.
Levantei o olhar de novo pra ela.
Felipe:
— Tu vai ficar.
Ela franziu a testa.
Maria:
— Como assim?
Felipe:
— Quero conversar contigo.
Silêncio.
Pesado.
Direto.
Ela respirou fundo.
Maria:
— Agora?
Olhei nos olhos dela.
Felipe:
— Agora.
Leonardo soltou um “ih” baixo.
Afonso ficou quieto.
E eu continuei ali.
Parado.
Esperando.
Porque uma coisa era certa.
Eu não confiava nela.
E não confiava em ninguém que chegava sem ser chamado.
E se ela tava ali…
Então eu ia descobrir exatamente o porquê.