Serena narrando…
O barulho do motor era constante.
Grave.
Contínuo.
Como um coração batendo no fundo de tudo.
Eu não sabia quanto tempo tinha dormido, mas quando abri os olhos, o céu já não estava mais completamente escuro. Uma luz fraca começava a surgir no horizonte, pintando o céu de um tom meio azul, meio laranja.
A estrada se estendia à frente, longa, infinita.
E pela primeira vez…
eu estava nela.
De verdade.
Pisquei algumas vezes, tentando me situar. Meu corpo ainda doía, mas não da mesma forma de antes. Era uma dor mais leve, mais distante… como se estivesse ficando pra trás, aos poucos.
Encostei a cabeça no vidro do ônibus.
Estava frio.
Mas não me incomodava.
Na verdade… era bom.
Porque me fazia sentir presente.
Viva.
Olhei pela janela.
A paisagem passava devagar — campos, algumas casas isoladas, postes de luz, estrada vazia. Tudo parecia tão diferente do que eu estava acostumada.
Silencioso.
Aberto.
Livre.
Respirei fundo.
O ar parecia mais leve.
Ou talvez fosse só impressão.
Ou talvez fosse…
esperança.
Celine ainda estava ao meu lado, mas agora dormia, com a cabeça levemente inclinada pro lado. O rosto dela era tranquilo, sereno… como se nada no mundo pudesse abalar aquilo.
Eu queria ser assim.
Queria sentir aquela paz.
Mas dentro de mim ainda era tudo confuso.
Misturado.
Medo e vontade.
Dor e alívio.
Dúvida e… um começo de algo que eu ainda não sabia nomear.
Ajustei o moletom no corpo, puxando mais a touca, mesmo sem necessidade. Era automático. Como se esconder ainda fosse minha forma de proteção.
Passei a mão pelo rosto com cuidado.
Ainda doía.
Ainda estava inchado.
Mas já não era mais o mesmo desespero.
Porque agora… eu estava longe.
Muito longe.
Fechei os olhos por um segundo.
E as lembranças vieram.
O barraco.
O chão frio.
O olhar dele.
A voz.
O som.
O medo.
Abri os olhos rápido.
Serena:
— Não…
Sussurrei.
Como se pudesse empurrar aquilo pra longe.
E talvez pudesse.
Porque agora eu não estava mais lá.
O ônibus deu uma leve desacelerada.
Olhei ao redor.
Algumas pessoas começavam a acordar. Um homem bocejando, uma mulher ajeitando o cabelo, um voluntário caminhando pelo corredor.
Celine se mexeu ao meu lado, despertando devagar.
Celine:
— Bom dia…
A voz dela saiu suave, ainda sonolenta.
Olhei pra ela.
Serena:
— Bom dia…
Ela sorriu de leve, me analisando.
Celine:
— Dormiu um pouco?
Dei de ombros.
Serena:
— Acho que sim…
Ela assentiu.
Celine:
— Já é um começo.
Olhei de novo pra janela.
O céu agora estava mais claro.
Serena:
— Onde a gente tá?
Perguntei.
Ela se esticou um pouco, olhando pra frente, tentando se orientar.
Celine:
— A gente já rodou bastante…
Um dos voluntários passou pelo corredor e falou alto:
Voluntário:
— Gente, só avisando… acabamos de entrar em outro estado!
Meu coração travou.
Por um segundo.
Depois disparou.
Olhei rápido pra Celine.
Serena:
— Outro estado?
Minha voz saiu quase sem ar.
Ela sorriu.
Celine:
— Sim…
Aquela palavra bateu diferente dentro de mim.
Outro estado.
Outro lugar.
Outra vida.
Eu senti meus olhos encherem na hora.
Sem aviso.
Sem controle.
Serena:
— Eu… eu nunca saí de lá…
Falei baixo.
A voz falhando.
Celine me olhou com mais atenção.
Celine:
— Eu sei.
Engoli seco.
Olhei de novo pra estrada.
Mas agora… tudo parecia diferente.
Não era só estrada.
Era distância.
Era separação.
Era…
liberdade.
Uma lágrima escorreu.
Depois outra.
Serena:
— Eu realmente saí…
Falei quase em choque.
Celine segurou minha mão.
Celine:
— Saiu.
Fechei os olhos por um segundo.
Sentindo aquilo.
De verdade.
Serena:
— Eu achei que nunca ia conseguir…
Minha voz quebrou.
— Eu achei que ia ficar lá pra sempre…
Ela apertou minha mão.
Celine:
— Mas você conseguiu.
Respirei fundo.
Mas era difícil controlar.
Porque aquela sensação…
era grande demais.
Era como se algo dentro de mim estivesse finalmente respirando depois de muito tempo presa.
O voluntário voltou a falar:
Voluntário:
— Ainda temos mais umas quatro horas de viagem até o destino, pessoal!
Quatro horas.
Olhei pra Celine.
Serena:
— Quatro horas…
Ela assentiu.
Celine:
— Tá perto.
Perto.
Aquela palavra me deu um frio na barriga.
Serena:
— E como vai ser lá?
Perguntei.
Baixo.
Insegura.
Ela pensou por um segundo.
Celine:
— Diferente.
Soltei um meio sorriso.
Serena:
— Isso eu já imaginei…
Ela riu leve.
Celine:
— Mas não precisa ter medo.
Olhei pra ela.
Serena:
— Eu tenho.
Ela assentiu.
Celine:
— E tudo bem.
Pausa.
— Você não conhece. É normal.
Voltei o olhar pra frente.
Serena:
— Eu só… não sei como vai ser minha vida agora…
Minha voz saiu quase em pensamento.
Celine respondeu:
Celine:
— Vai ser construída.
Olhei pra ela.
Celine:
— Um dia de cada vez.
Silêncio.
Aquilo fazia sentido.
Mas ainda assim…
assustava.
Encostei de novo a cabeça no vidro.
Agora o sol já começava a aparecer de verdade, iluminando a estrada, revelando mais detalhes do mundo lá fora.
E pela primeira vez…
eu comecei a observar.
De verdade.
As árvores.
As casas.
As pessoas.
Tudo parecia novo.
Tudo parecia…
possível.
Serena:
— Eu quero fazer dar certo…
Falei baixo.
Celine:
— E vai.
Ela respondeu sem hesitar.
Serena:
— Eu não posso voltar…
Minha voz ficou mais firme.
Mais decidida.
— Eu não vou voltar.
Ela sorriu.
Celine:
— E não vai.
Fechei os olhos por um momento.
Respirei fundo.
E deixei aquela sensação crescer dentro de mim.
Mesmo com dor.
Mesmo com medo.
Mesmo sem saber o que vinha pela frente…
eu estava indo.
Indo pra algo novo.
Indo pra uma vida que eu ainda não conhecia.
Mas que…
pela primeira vez…
parecia minha.
E enquanto o ônibus seguia pela estrada, cortando quilômetros de distância entre quem eu fui…
e quem eu ainda podia me tornar…
eu senti.
De verdade.
Que alguma coisa estava começando.
E dessa vez…
eu não estava fugindo.
Eu estava escolhendo.