Pré-visualização gratuita INÍCIO
TERROR NARRANDO
O casarão sempre foi visto como um lugar de poder. Quem passava pelo portão alto, com câmera em cada canto e seguranças atentos, sabia que ali não era apenas uma casa. Era território. Meu território. O sítio inteiro me pertence, e dentro dele ergui a fortaleza que sustenta o peso do meu nome.
Meu nome é Nathanael, mas quase ninguém ousa me chamar assim. Nas ruas, nas bocas, nos presídios, até na boca pequena da polícia, eu sou o Terror. Chefe do Comando Vermelho, dono de um império que movimenta dinheiro, armas e medo. Aos trinta e nove anos, aprendi que respeito se conquista no sangue, e quem falha em impor sua força é engolido sem piedade.
Mas dentro do casarão, eu não sou apenas o Terror. Aqui, nesse silêncio quebrado só pelo choro de uma criança ou pelo barulho discreto dos enfermeiros que entram e saem, eu sou marido. Eu sou pai. Eu sou um homem tentando segurar a vida da mulher que amo enquanto a doença tenta arrancar ela de mim.
Elizabeth. Trinta e cinco anos, a mulher que me conheceu muito antes de eu ser quem sou hoje. Quando todos só viam em mim um favelado prestes a se perder pro crime, ela enxergou mais. E, talvez por isso, seja tão difícil aceitar a ideia de perdê-la agora.
Já faz pouco mais de seis meses que a leucemia apareceu. O diagnóstico caiu sobre nós como uma sentença invisível. Trouxe médicos, remédios, exames, tratamentos. Trouxe também noites em claro, lágrimas escondidas e um medo que eu nunca senti nem quando tive uma pistola apontada na minha cara. Eu posso controlar uma guerra, mas não posso controlar o que corre no sangue da minha mulher.
E, mesmo assim, ela luta.
Entro no quarto devagar, ainda com o cheiro da pólvora preso nas roupas. Não importa o quanto eu tente separar os dois mundos, às vezes o comando exige que eu esteja no campo, que eu apareça pra manter a hierarquia. Mas com Elizabeth, eu tento deixar o Terror do lado de fora.
Ela está sentada na poltrona perto da janela, a pele mais pálida do que antes, os cabelos ralos depois das sessões de quimio. Mas ainda é ela. Ainda tem aquele olhar firme, capaz de me silenciar com uma palavra.
Elizabeth — Chegou tarde hoje — ela comenta, a voz suave, mas com a força de quem não gosta de ser enganada.
— Tive reunião com os caras — respondo, indo até ela. — Tá se sentindo como?
Elizabeth sorri, e esse sorriso dela é ao mesmo tempo lâmina e cura.
Elizabeth — Hoje foi um dia bom. Consegui comer sem passar mal.. já é vitória.
Me abaixo, beijo a testa dela e sinto o calor da febre escondido sob a pele fina. Me revolta pensar que tudo que eu construí, todo o poder que eu tenho, não serve pra salvar ela.
Do outro lado do quarto, o berço chama minha atenção. Dentro dele, minha pequena Raissa , nossa filha de nove meses, dorme tranquila. O nome foi escolha da Elizabeth, e eu não contestei. Elizabeth segue com os olhos até a filha e suspira.
Elizabeth — Você já reparou como ela dorme igual a você? Até parece que sonha com guerra.
Dou uma risada baixa, mas a dor ainda aperta no peito.
Raissa não é minha única responsabilidade aqui dentro. Tem também Safira.
Ela chegou na minha vida há anos, quando ainda era só uma garotinha de quatro anos, assustada e quebrada pelo destino. Um acidente levou toda a família dela. Toda, menos ela. Elizabeth era a única parente que restava, e não pensou duas vezes antes de trazer a menina pro casarão. Eu aceitei porque… como não aceitar?
Lembro até hoje do primeiro dia. Safira tinha o olhar vazio, como se estivesse perdido em algum lugar que ninguém alcançava. Mas Elizabeth, com a paciência que sempre teve, fez questão de dar a ela um lar. De dar carinho, educação, oportunidades. Cresceu aqui, como parte da família.
Hoje, já não é mais criança. Safira é adolescente . E às vezes me pego lembrando de como ela chegou pequena, agarrada no braço da Elizabeth, e de como agora anda pelos corredores como se já tivesse nascido aqui. A vida tem dessas.
Elizabeth — Nathanael..
— Fala, amor.
Elizabeth — Se alguma coisa acontecer comigo… — ela começa, e eu corto de imediato.
— Não fala isso.
Elizabeth — Mas você sabe que é uma possibilidade. Eu só quero que você prometa que vai cuidar delas. Da Raissa e da Safira.
Seguro a mão dela com força, tentando transferir toda a certeza que eu não tenho.
— Não precisa pedir isso. Eu vou cuidar. Sempre. Você vai vencer essa p***a, Liz. Mas se não… eu vou cuidar.
Ela sorri de novo, e as lágrimas ardem no meu olho. Mas Terror não chora. Não na frente dela.
Do lado de fora, escuto passos leves. Safira aparece na porta, segurando uma bandeja com chá e biscoitos. Os cabelos soltos caem sobre os ombros, e ela sorri de leve ao ver a tia.
Safira — Trouxe seu chá, tia — Elizabeth abre os braços, convidando a sobrinha a se aproximar. Eu observo em silêncio, como sempre. A cena é simples: a menina que ela criou, a mulher que eu amo, a filha que tivemos. Uma família que não nasceu das regras comuns, mas nasceu do nosso jeito.
E, no fundo, eu sei: se a doença vencer essa luta, será meu dever manter tudo isso de pé. O comando, a filha, a memória da Elizabeth.. e Safira.
Só que ainda não é hora de pensar no depois. Não enquanto Elizabeth respira, luta e sorri, mesmo cansada.
E eu, Terror, chefe do Comando, vou lutar junto. Contra quem for. Até contra a própria morte, se for preciso.
OBS: LANÇAMENTO , UM ROMANCE PROIBIDO E QUENTE ..
ESPERO QUE GOSTEM ..
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