6- MENTIRA

1009 Palavras
Capítulo 6 ARTHUR NARRANDO: O silêncio da minha sala foi interrompido pelo toque insistente do celular. Revirei os olhos ao ver o nome da minha mãe na tela. Respirei fundo antes de atender. Já sabia o que vinha. — Oi, mãe. — Arthur, meu filho! Que bom que atendeu. Achei que ia ignorar minha ligação de novo. — Tô no trabalho, mãe. Sempre tô. — falei seco, apoiando o cotovelo na mesa e massageando as têmporas. — Trabalho, trabalho, trabalho… parece que você vive pra essa empresa. Não tem espaço pra mais nada nessa vida, é? — Mãe, o que foi? — O que foi? O que foi, Arthur? Vai ter o casamento do seu primo Leandro daqui duas semanas e você ainda nem me deu resposta! Vai ou não vai? Fechei os olhos. m*l lembrava que isso tava perto. — Não sei ainda, mãe. Tem muita coisa rolando aqui… — Arthur! — ela cortou, com aquele tom dramático de sempre. — Por favor. Toda a família vai. Você nunca aparece em nada. Já basta ter largado aquela moça da Júlia sem maiores explicações… — ela soltou um suspiro, do outro lado. — Eu falei tanto de vocês dois pros meus amigos… fiquei até sem jeito depois. — Mãe… eu já te falei que aquilo acabou porque eu não amava mais ela. Só isso. — respondi, firme. Era a versão que eu tinha sustentado até hoje. Ela nunca soube da traição. Nunca soube que fui deixado às vésperas do casamento como um i****a. Não contei. Não quis ver pena no olhar dela. Só disse que não era o que eu queria e que já estava com outra pessoa. Outra mentira que virou um nó. — Pois é por isso mesmo que eu insisto, Arthur. Se você tá com outra pessoa, leva ela no casamento. Quero conhecer. Todo mundo quer. Já falei até com a Tia Lúcia. Ela vai separar uma mesa pra vocês dois. — Mãe, não tem necessidade disso. — Tem sim! Você já tá com essa mulher há meses e ninguém conhece. Não tem uma foto, uma ligação, nada! Tá me escondendo do quê? — ela disse, num tom quase ofendido. Fiquei em silêncio por um momento, olhando pela janela da minha sala, tentando pensar rápido. A namorada que eu inventei pra justificar o fim com a Júlia não existia. Nunca existiu. E agora a cobrança chegou. — Arthur? Alô? — Tô aqui… — falei, passando a mão no rosto. — Tá bom, mãe. Eu vou. No casamento. E levo a… a minha namorada. — Ah! Até que enfim! — ela comemorou, animada. — Quero só ver essa mulher que conseguiu amolecer esse seu coração de pedra. Deve ser uma santa! Engoli seco. Uma santa? Não tinha ninguém. Nenhuma mulher, nenhum nome, nenhuma desculpa. — A gente se vê lá, mãe. Preciso voltar pro trabalho agora. — Tudo bem, meu filho. Mas olha… fico feliz. De verdade. Vai fazer bem pra você. Eu sei que você finge que tá bem, mas mãe sente. E eu só quero ver meu filho feliz de novo. Desliguei o telefone antes que minha garganta engasgasse. Olhei pro teto, depois pra minha própria mão apoiada sobre a mesa. A mentira que inventei por orgulho tava voltando como um soco no estômago. Duas semanas. Um casamento de família. E uma noiva que não existe. Ou melhor… ainda não. Fiquei sentado por alguns minutos, encarando o nada. Minha cabeça já tava começando a latejar. Duas semanas. Casamento de família. E eu preso na própria mentira. Pensei, pela primeira vez, em contratar alguém. Uma acompanhante. Uma mulher bonita, elegante, treinada pra se portar bem. Seria simples. Contrato, pagamento, aparência impecável e fim da encenação. Mas… não. Por mais que eu tivesse me tornado esse homem frio, calculista, ainda havia limites que eu me recusava a ultrapassar. Não queria levar uma prostituta pro casamento do meu primo. Não queria apresentar uma mentira dessas pra minha mãe, olhar nos olhos dela e fingir que aquela mulher fazia parte da minha vida. Suspirei, encostando a nuca na cadeira. Fechei os olhos. Tentei pensar em alguma ex, alguma amiga, alguma mulher com quem eu já tivesse algum tipo de contato decente. Nada. Minha vida era tão superficial, tão blindada, que no momento em que eu realmente precisava de alguém… não tinha ninguém. O celular tocou de novo. Vibração familiar. Eliane. Revirei os olhos. Ela era uma das mulheres que eu via com frequência. Linda, corpo impecável, sempre cheirosa, sempre disposta. Mas não passava disso. Pensei por um segundo se ela poderia quebrar o galho. Mas só o pensamento já me fez rejeitar a ideia..Eliane era sensual, ousada, exagerada. Aquela energia dela funcionava pra uma noite em hotel, não pra um jantar em família com minha mãe analisando cada detalhe. Atendi mesmo assim. — Arthur… — ela disse com aquela voz melosa e arrastada. — Tava morrendo de saudade de você. Me recostei na cadeira, já arrependido de ter atendido. — Oi, Eliane. — Vai fazer o quê hoje à noite, hein? Tava pensando em passar no seu apartamento… ou a gente podia sair. Um vinho, uma massagem… — soltou uma risadinha — Daquelas que você gosta. — Não vai dar hoje. Tô atolado de trabalho — respondi, direto. — Ahhh, Arthur… você vive atolado de trabalho. Vai se esconder até quando? — Não tô me escondendo de nada. Só tenho coisa demais pra resolver, Eliane. A gente se fala outro dia. Silêncio do outro lado. Ela não gostava de ser dispensada. — Tá bom… você quem sabe. Mas não esquece de mim, hein? — Não esqueço. Boa noite. Desliguei antes que ela falasse mais. E larguei o celular na mesa com mais força do que devia. Nada fazia sentido. E pela primeira vez em muito tempo… eu não conseguia encontrar uma solução pra uma situação. Minha cabeça doía. A pressão nas têmporas pesava. E o tempo corria. Olhei pela janela. Lá embaixo, a cidade continuava pulsando. E eu ali, preso na minha própria armadura, sem saber como sair. Continua.....
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR