Capítulo 3
Beatriz narrando
O som do despertador tocou às 6h30 da manhã, vibrando no criado-mudo com aquele barulho chato que sempre me fazia querer atirar o celular longe. Mas hoje… eu sorri.
Faltava exatamente um mês pro meu casamento.
Sentei na cama devagar, ainda sonolenta, e olhei o calendário colado na parede. Cada dia tinha um X vermelho riscado com canetinha. Cada risquinho era uma contagem regressiva pro que eu achava ser o dia mais feliz da minha vida.
Me espreguicei, peguei o celular e vi as mensagens da Jéssica, minha amiga e madrinha, me lembrando de ver os convites prontos e marcar a última prova do vestido.
Levantei, fui direto pro banheiro e liguei o chuveiro. A água quente escorria pelas costas e me dava aquela sensação de abraço. Enquanto lavava o cabelo, fiquei imaginando o penteado do grande dia. Coque? Trança? Solto com ondas? Eu ainda tava decidindo.
Passei meu sabonete preferido de lavanda e fiquei um tempinho a mais no banho, pensando no buffet, nas flores da igreja, na playlist da festa… tudo que eu sempre sonhei desde menina.
Depois, me enrolei na toalha e fui direto pro espelho. O rosto ainda inchadinho de sono, mas com aquele brilho de quem tá feliz, sabe?
Peguei meu creme corporal e fui passando com calma, massageando os braços, o colo, o pescoço. Uma rotina simples, mas que me ajudava a me sentir bem comigo mesma, mesmo com todas as cobranças que a gente ouve o tempo inteiro.
Sempre fui cheinha. Nunca fui de usar manequim pequeno, e isso nunca me impediu de sorrir ou viver. Mas, de uns tempos pra cá, dei uma engordada maior, ansiedade, correria, lanches rápidos entre uma tarefa e outra.
Terminei de me arrumar colocando uma calça preta de cintura alta e uma camisa branca com botão. Prendi o cabelo num r**o de cavalo, passei um batonzinho cor de boca e joguei um pouco de perfume no pulso.
Antes de sair, parei um segundo diante do espelho.
— Faltam trinta dias, Beatriz… trinta — falei em voz baixa, sorrindo sozinha.
Saí do quarto ajeitando a alça da bolsa no ombro e fui direto pra cozinha, já sentindo aquele cheirinho de café fresco invadir o corredor. O aroma quente, familiar, me fez sorrir antes mesmo de chegar.
Patrícia já tava ali, sentada à mesa, com o cabelo preso num coque desarrumado e o celular na mão, rolando alguma rede social. A mesa tava posta com pão francês, margarina, queijo branco e aquele café preto forte, do jeito que a gente gostava.
— Bom dia, noivinha — ela disse com um sorrisinho debochado, sem tirar os olhos do celular.
— Bom dia, folgada — brinquei, puxando a cadeira ao lado. — Já acordou cedo só pra se exibir?
Ela riu, largando o celular.
— Tô de folga hoje, esqueceu? Mas resolvi fazer um café decente pra gente. Tu vive saindo correndo e comendo bolacha no caminho.
— Eu agradeço, viu? Tava mesmo precisando de um café com gosto de lar.
Ela me olhou com carinho. Patrícia era mais que amiga, era minha irmã de vida. A gente se conhecia desde os muitos anos, crescemos juntas lá no interior e viemos dividir esse apê minúsculo em São Paulo com coragem e uns sonhos malucos na mala.
— E aí, ansiosa? — ela perguntou, enquanto passava margarina no pão. — Falta um mês, né?
— Vinte e nove dias, pra ser exata — respondi, com um brilho no olhar. — Hoje à noite vou encontrar o Henrique pra acertar os últimos detalhes. A gente ainda precisa resolver o DJ, o horário do cerimonial e confirmar o número de convidados.
— Tá ficando real mesmo, hein? Daqui a pouco tu tá casada! — ela disse, rindo.
— Nem fala… — soltei um suspiro longo. — Dá um frio na barriga. Às vezes acho que ainda tô sonhando.
Ela me encarou de leve, como quem queria dizer algo, mas pensou duas vezes.
— O importante é tu tá feliz, Bia. Tu merece um amor bonito.
Sorri, mas por dentro… tinha uma pontinha de dúvida. Pequena. Sufocada pela pressa dos preparativos e pela ideia de que tudo precisava dar certo. Eu queria tanto esse casamento. Tinha colocado tanta expectativa nisso, que não sobrava espaço pra pensar nas pequenas coisas que me incomodavam.
— Tô sim. Só tô nervosa. É muita coisa pra resolver.
— E você sempre foi perfeccionista — ela comentou, rindo. — Mas vai dar tudo certo, cê vai ver.
Terminamos o café entre risadas e conversas soltas. Depois me levantei, peguei minha bolsa e parei na porta antes de sair.
— Obrigada, de verdade. Pelo café, pela companhia, por tudo.
— Vai com calma, tá? Qualquer coisa me chama.
Assenti, ajeitando o cabelo no espelho do corredor. Naquele momento, tudo ainda era promissor. Tudo ainda era futuro.
E eu… eu ainda acreditava que estava a caminho do final feliz.
Desci pelo elevador ajeitando a bolsa no ombro e conferindo a agenda do dia no celular. A tela mostrava três lembretes só pela manhã: reunião do comitê de marketing, entrega de relatórios pendentes e conferência de reservas no buffet. Tudo cronometrado, como sempre.
Quando a porta do elevador se abriu no subsolo, senti aquele ar frio e abafado de garagem fechada. Caminhei até meu carro: um Celta prata 2011, simples, mas valente. Foi o primeiro bem que comprei com o próprio esforço, parcelado, suado, mas meu. Cada pedacinho daquele carro era prova das economias, das marmitas levadas de casa e das vezes que abri mão de sair no fim de semana pra guardar dinheiro.
Entrei, liguei o motor e ajeitei os retrovisores. A playlist tocava baixinho no rádio, uma música romântica qualquer, daquelas que a gente canta sozinha no carro sem nem perceber. Respirei fundo, coloquei o cinto e saí do prédio.
A cidade já estava viva. São Paulo não dorme nunca. O trânsito na Marginal Tietê era o mesmo de sempre: engarrafado, buzinas impacientes, motoqueiros ziguezagueando entre os carros. Mas eu já tava acostumada. Liguei o pisca, mudei de faixa e segui meu caminho.
Vinte minutos.
Era o tempo médio até o prédio da Ferrarezi Group, onde eu trabalhava há dois anos como secretária do CEO. Um prédio moderno, espelhado, de vinte andares, cravado no coração empresarial da cidade.
Enquanto dirigia, meu pensamento voava.
No vestido que ia provar de novo na próxima semana. Na lembrancinha dos padrinhos que eu ainda não tinha resolvido.
No Vinicius, que eu ia encontrar mais tarde pra ajustar os detalhes da festa.
E no fundo, bem no fundo, aquela vozinha que às vezes aparecia, perguntando se tudo tava mesmo certo. Se o amor dele era do jeito que eu sonhava. Mas eu calava essa voz.
Eu preferia acreditar no futuro que tava construindo.
Virei à direita na rua do escritório e já dava pra ver a fachada da empresa. Imponente. Luxuosa. Lugar de gente grande.
Estacionei na garagem como todos os dias. Desliguei o motor e fiquei um segundinho com as mãos no volante.
Hoje ia ser mais um dia cheio.
Mas eu tava pronta.
Continua.....