Buscando um novo rumo
Que faça sentido
Nesse Mundo Louco
Com o cotsção partido eu
Tomo cuidado
Pra que os desequilibrados
Não Abalem minha fé
Pra eu enfrentar
Com otimismo essa loucura
-Charlie Brown Jr.
Nicolas
A vida tem sido um tanto quanto ingrata comigo. Acho que em meus 25 anos de vida, sempre tive a sensação de que, quando tudo está dando muito certo, é porque devo conferir meu alicerce, porque o terremoto está se aproximando. Não foi diferente quando consegui um estágio remunerado em uma, até então, revista conceituada. As coisas se tornaram ainda melhores quando fui contratado depois que me formei, passei os primeiros meses esperando a minha carta de demissão, porque não era possível que tudo daria certo daquela vez. Ela não veio, mas a revista começou a decair mais e mais.
Com a crise financeira, todos os currículos que espalhei por aí não foram suficientes para me garantir um emprego que cobriria ao menos meu aluguel. E nossa, os aluguéis na grande São Paulo podem ser uma verdadeira facada. Morava em um apartamento tão pequeno que por vezes me sentia o próprio Harry Potter, vivendo no armário embaixo da escada da casa dos Dursley.
Mas aí descobri que a sede de São Paulo iria fechar. O desespero me bateu, até ser informado que havia sido escolhido para ocupar uma vaga no Rio, bastava estar disposto a me mudar. E parecia perfeito, minha família já havia trocado a capital paulista por Nova Friburgo, na região serrana, e isso me deixaria bem mais próximo deles. Sem falar que com a queda no preço do aluguel, consegui até mesmo trocar de carro.
Mas depois de um mês de férias, pegando a estrada semanalmente e trazendo caixas e mais caixas dentro do meu novo carro: um Corolla preto que o primeiro dono me vendeu por um preço bem abaixo do mercado, eu estava de volta ao trabalho. E pior, com um aperto estranho no peito que levava embora meu bom humor e animação.
A nuvem carregada que pousava na minha cabeça parecia mais um anuncio que as coisas não continuariam às mil maravilhas por muito mais tempo. Eu só não conseguia nem imaginar o que poderia desandar, já que tudo parecia estar verdadeiramente e completamente se encaixando pela primeira vez em muito tempo.
Era meio de novembro e apesar de, nas minhas primeiras semanas, o clima na Cidade Maravilhosa estar bem instável, com dias chuvosos e com o que os cariocas consideravam frio, no meu primeiro dia de trabalho o sol apareceu com força. Quando parei na padaria, para tomar meu café da manhã, o senhor de trás do balcão me disse sobre como estava fazendo uma “lua” tão grande, que nem parecia que havia caído um temporal no dia anterior. E aí eu já anotei mentalmente no meu dicionário do Rio, eles usavam lua para se referir ao sol forte.
Minha vontade era de ir trabalhar com roupa de praia, honestamente. Mas mantendo o profissionalismo, a calça de linho creme e a blusa de botões em manga curta e tom turquesa pareceram a opção mais fresca. Ou melhor, menos quente. Estava vendo que, em janeiro, acabaria fugindo para a serra em todos os fins de semana.
Nas ruas, no estacionamento onde aluguei uma vaga para meu carro e na portaria do prédio em que iria trabalhar, reparava em como as pessoas estava usando roupas pretas, calças quentes, jeans e camisas de manga longa como se ignorassem completamente o clima. Até gente de blazer, paletó e terno vi por ali. Aquele povo não sentia calor? Esperava que a redação tivesse um ar condicionado potente, porque não queria acumular duas pizzas de suor debaixo do braço, logo no primeiro dia.
Entrei no elevador junto de apenas um cara. Dei um bom dia em tom baixo, que logo foi respondido. Ele usava colete fluorescente e tinha o capacete da moto debaixo do braço, assim como uma caixa de papelão. Eu não era um reparador nato, mas naquele momento, reparar em volta me pareceu mais prudente do que abaixar a cabeça e me permitir afogar em meu próprio nervoso. Odiava primeiros dias.
Soltei uma alça da mochila de couro dos meus ombros, a puxando para frente e tirando o celular do bolso, conferindo a hora. O guardei e levantei o olhar assim que, parados em outro andar, uma voz me chamou a atenção:
—Ryan? Achei que não vinha hoje!
Acompanhei a voz rouca, até me deparar com sua dona. Não, não era aquela rouquidão comum nas pessoas que fumaram durante a vida inteira, tampouco a que poderia ser comparada com um resfriado ou algo do tipo. Era aquela sonoridade naturalmente baixa e meio profunda, que soava tão bem.
Eu adorava, era um apreciador de tons mais roucos. Inclusive sempre procurava por músicas de cantores que tinham a voz nesse estilo. Me acalmava. Mas aquela garota, ela tinha os olhos azuis mais brilhantes que eu já tinha visto. Talvez fosse por conta de seus cabelos pretos, extremamente brilhosos e parecendo muito escuro para a sua pele clara, mesmo com a aparencia bronzeada, ou porque sua roupa também era dessa cor, mas a cor da minha blusa turquesa parecia pouco “oceânica” perto dos olhos dela.
—Pipa— O cara ao meu lado falou, equilibrando o pacote e o capacete, para abraçá-la— Eu também achei que não viria. Mas ordens da chefe, conhece?
—Desde que nasci. Me levou um pacote de fraudas na maternidade— A garota revirou os olhos, enquanto falava. Ela me encarou de cima abaixo, por breves segundos, com um olhar de julgamento, por sinal, antes de se virar para o cara que agora eu sabia que se chamava Ryan.
Mas Pipa? Era referente ao brinquedo ou era apelido de algum nome? Porque eu só conseguia lembrar da irmã da Kate Middleton, qual será que era o nome verdadeiro dela? Vai ver ela chamava Pipa mesmo, já vi tanto nome esquisito por aí, que não duvidava. Se dissesse que continuei prestando atenção na conversa daqueles dois, estaria mentindo. Na verdade, a análise do nome da garota de olhos brilhantes durou tempo o suficiente para que todos nós chegássemos ao décimo, dos doze andares do prédio.
Os dois desceram do elevador na minha frente, me questionei se algum outro escritório funcionava naquele andar ou se eles também eram funcionários da revista. Porém, no primeiro passo para fora eu já estava dentro da redação, me provando que realmente aquele era um escritório único daquele andar.
Me senti como uma barata tonta por um segundo. Eu conseguia ver, de onde estava, várias mesas e salas cercadas por vidro, com pessoas andando para todos os lados. Não havia alguma recepção?
Até tinha visto um balcão ali por perto, bem abaixo do logo da empresa, preso à parede. Algumas poltronas espalhadas, mas ninguém por ali, para quem eu poderia pedir uma informação e me localizar. Onde estavam meus colegas de São Paulo?
A garota na minha frente, Pipa, que agora já estava a vários passos de distância de mim, começou a falar alto e em espanhol, no que eu jurava serem palavras não muito educadas, com uma mulher de cabelos compridos e grisalhos parada em sua frente.
Eu que não me meteria entra aquelas duas, para perguntar alguma coisa. Isso é, até eu reconhecer a mulher mais velha como Estela, minha chefe. Quer dizer, chefe de todo mundo, dona da revista e pessoa por trás dos planos que irão revolucioná-la. Só queria entender porque ela demorou tanto e precisou quase falir para, então, ter a ideia brilhante de envolver tecnologia nos negócios.
Mas agora, como iria me aproximar de minha chefe se ela e a louca do elevador estavam, aparentemente, brigando em espanhol? Essa sensação de estar perdido, de não saber o que fazer ou para onde ir, era o grande motivo para eu odiar primeiros dias de trabalho em lugares novos.
Ah, mas você está na revista desde a faculdade, não deve ter tido tantas experiências como essa e por isso deve odiar a sensação de algo novo. Olha, não é bem assim. Antes de precisar começar a estagiar, passei por pelo menos meia dúzia de empresas, trabalhando em diversas funções, em busca de uma grana para conseguir ajudar em casa e, anosmais tarde, ser capaz de me sustentar sozinho.
—Com licença— criei coragem para me aproximar.
—Nicolas! — Estela mudou completamente o tom de voz, assim como o idioma— Chegou cedo— Ela abriu um sorriso enorme e eu não sabia responder se era completamente verdadeiro— Que ótimo, venha para minha sala para começarmos a conversar e te deixar a par das coisas aqui no Rio.
—Claro, tudo bem! — Concordei, a seguindo.
—Filipa, tu também! — Olhei para trás de mim, vendo-a bufar e, mais uma vez, revirar os olhos brilhantes. Então o nome dela era Filipa!
E sobre o meu dicionário carioca? Adicionei o “tu”, parece que essa também era uma palavra bem usada por aqui. Ou será que minha chefe misturou português e espanhol? Ah, sei lá.