Meu Lugar

2226 Palavras
O meu lugar é caminho de Ogum e Iansã Lá tem samba até de manhã Uma ginga em cada andar O meu lugar É cercado de luta e suor Esperança num mundo melhor E cerveja pra comemorar - Arlindo Cruz. Filipa Segui minha tia e o cara novo, Nicolas, até sua sala. E eu que tinha pensado que o dia seria legalzinho. Quer dizer, por um segundo eu pensei que o Maluma estava no meu elevador e se isso fosse realidade, seria o melhor dia da minha vida. Porém, o dublê acabou se revelando o meu novo colega de trabalho. E aí, coloquei meus pés na redação e minha tia já começou a gritar comigo, porque minha avó não atendeu o telefone essa manhã. Se eu contar que ela passou a noite fora e só me avisou de madrugada, vou ter meu pescoço arrancado, então apenas respondi dizendo que a abuela ainda era saudável e consciente para tomar conta da própria vida. Minha mãe que fosse me desculpar, mas eu sentia mais falta dela morando comigo porque era ela quem “respondia” por minha avó e brigava por suas liberdades, do que só porque eu tinha saudades, mesmo. E a abuela não era nenhuma inválida, muito pelo contrário, ela era toda moderninha e muito inteira para os setenta e dois anos que tinha. Tanto que continuava trabalhando como artista plástica, obviamente não com a mesma frequência e jornada de trabalho de quando era nova, mas ela não conseguia ficar parada. Fazia Yoga, pilates, hidroginástica, tinha aulas de salsa, jogava bingo com os amigos, frequentava matinês para a terceira idade e ainda dava aulas de artes e espanhol para um projeto educacional em uma comunidade carente, subia o morro com seu fusquinha amarelo duas vezes por semana. Ela era mais saudável e ativa que eu. Quer dizer, não que eu tivesse muita escolha ou tempo livre. Na semana passada, por exemplo, trabalhei entre 12 e 14 horas todos os dias e ainda fui escalada para ir fazer uma entrevista em pleno sábado à tarde. Hora extra? Vamos ver quando cair o pagamento, mas eu duvidava muito que seria paga por todas elas. Além disso, no domingo passei o dia escrevendo para a coluna semanal que me pertencia em um jornalzinho online de uma antiga colega de faculdade. Vida? Nessa última semana não tive. Não que fosse muito diferente nas anteriores. Mas tudo bem, era quarta-feira e eu já tinha conseguido escrever as colunas das próximas semanas. Eu sempre entregava o material às segundas e, tendo adiantado trabalho de mais de um mês, eu já me sentia bem mais tranquila. —Quando seus pais vêm para o Rio? — Tia Estela perguntou, fechando a porta de sua sala atrás de si. Aqui está um fato: odeio falar sobre família com minha tia no ambiente de trabalho. Acho antiprofissional e faz parecer que eu só estou aqui por causa dela, porque somos parentes. Por mim evitaria, mas parece que ela faz de propósito, para me deixar sem moral com os outros funcionários. —Provavelmente só no Natal— Falei, tentando não me alongar. Sobre meus pais, eles estavam viajando pelo interior do Mato Grosso do Sul e não achava que eles viriam para casa antes do período que tiravam para ficarem em casa, no fim do ano. A não ser, é claro, que algo acontecesse, que tivessem a presença solicitada em algum lugar, algum evento importante fosse marcado ou alguém precisava de algo. Era sempre assim, meus pais estavam longe, mas se eu aparecesse com alguma virose, algumas horas depois eles já estavam se enfiando em um avião e batendo em minha porta. Exemplos a parte, realmente aconteceu dessa forma em umas duas ou três ocasiões. Em todas elas, eles vieram desesperados porque achavam que eu podia estar grávida. —Ok, agora vamos ao importante. Sentem-se! — Ela não batia bem da cabeça, puxou o assunto e depois cortou como se eu tivesse iniciado e sido a inconveniente que ficava falando de vida pessoal no horário do espediente. Abuela fala de uma vez que ela caiu e bateu a cabeça, na infância, deviam ter levado ela ao médico depois daquilo, porque claramente ainda há sequelas. —Sou toda ouvidos— Respondi, me jogando na poltrona e segurando muito para não revirar os olhos. —Nicolas, como está se sentindo em seu primeiro dia? —Claro, primeiro as boas vindas com o cara que tinha potencial para ser o seu mais novo protegidinho e preferido, já que o último a ocupar esse cargo tinha ido pedido demissão e ido cursar um doutorado lá em Lisboa, em Portugal. —Hum? — ele praticamente levou um susto, ao ouvi-la se referir a ele. Eu não tinha reparado no cara tanto assim, apenas o suficiente para notar que ele parecia um pouco (bastante) com meu cantor favorito. Mas pela aparência, eu diria que ele não fazia o tipo tímido. O engraçado é que, ao olhar para seus olhos castanhos, quase deu para enxergar um pouco de medo e insegurança, o que não fazia o mínimo sentido. Eu não era o tipo de pessoa que conseguia ler sentimentos no olhar de desconhecidos, mas ele parecia ter olhos tão expressivos, que chegava a ser difícil de explicar. De qualquer forma, eu precisava de apenas uma olhada para saber que ele fazia parte do seleto grupo de homens que poderiam conseguir tudo que quisessem por causa de um rostinho bonito. Então duvidava que fosse tímido e inseguro, não parecia haver porquê. —Ela perguntou como você está se sentindo em seu primeiro dia— repeti. Queria sair daquela sala logo, ainda não tinha entendido porque ela tinha nos chamado ao mesmo tempo, ou porque eu estava ali. —Ah! Eu estou bem, gostando do Rio— respondeu, apenas. —Que ótimo! Quis os dois aqui porque vocês ocupam o mesmo cargo como repórteres e, agora que estamos fazendo essa tal reforma tecnológica, vou precisar que trabalhem juntos em muito além das reportagens. —O que quer dizer com isso? — questionei. —Vou querer que vocês gravem alguns vídeos para nosso canal do Youtube, seja com tags ou até mostrando coisas na redação, brincadeirinhas e essas coisas chatas que o público adora. Eles gostam de bastidores, i********e, fofoca. Obviamente, não serão apenas vocês dois sempre, mas também é bom que estejam sempre a postos, pois posso e provavelmente irei mandá-los atrás de alguns famosos, também! —Quer que a gente investigue igual paparazzi? Isso vai tirar toda a nossa moral, quando as entrevistas forem acontecer. —É por isso que temos uma chefe de reportagem que pode assumir as mais importantes— ela mexeu despreocupadamente nas unhas. —E como podemos começar? — O tal de Nicolas perguntou. —Por enquanto, precisamos esperar o vídeo de inauguração ser liberado no canal do Youtube. Mas acabei recebendo uma informação exclusiva sobre o próximo Rock In Rio, então quero que Nicolas grave sobre isso, vão te passar um roteiro básico, mas você pode criar em cima, vamos usar uma linguagem mais informal, interativa, criativa e divertida, a partir de então. Esse vídeo será divulgado dias depois que o canal for inaugurado. Até que para quem usava a falta de conhecimento como justificativa para não investir na internet, minha tia está bem informada. —Parece ótimo. Posso começar a trabalhar em cima disso ainda hoje? —Claro, só precisa conferir se já prepararam o roteiro e se a equipe de gravação está disponível. E Filipa, quero que você vá até a quadra de uma escola de samba, parece que o prefeito ouviu o samba enredo do próximo ano e decidiu censurar, porque falava m*l dele. —Tenho algum horário marcado com o carnavalesco, ou falo com outra pessoa da equipe? —Tem horário marcado. Traga material para uma notícia escrita para o site, vamos divulgar no i********: também, então é bom ter um vídeo curto da entrevista e algumas imagens da quadra. —Levo equipe de gravação? —Não. Vamos usar ela completa com Nicolas, precisaremos de mais gente e de vídeos mais bem estruturados para o Youtube. Mas pode levar um dos estagiários e os equipamentos necessários para fazer uma gravação mais simples e corriqueira. —Ok— O encarei por um segundo. Qual será que era o motivo para ele nunca ter conseguido uma promoção? Porque o meu era simples: sou sobrinha da dona. Olha que ironia do destino, normalmente as coisas acontecem justamente de forma contrária, não é? Pessoas conseguem vantagem em cima do parentesco, ocupam cargos que não merecem e sem a devida qualificação. Confesso que no início me sentia insegura, achava que tia Estela tinha me dado uma vaga de estágio porque não conseguiria outro com facilidade. A verdade é que pouco procurei, tenho certeza que se tivesse ido a fundo teria achado e talvez estivesse em uma posição hierárquica mais confortável, nessa altura. —Pode ir agora, Pipa. Vou aproveitar que Nicolas chegou cedo e acertar os detalhes da transferência dele, antes que eu tenha que fazer isso com o resto da equipe. Te mandei o endereço por mensagem e depois pago a gasolina, sua conversa com o carnavalesco está marcada para às 10h30. —Tudo bem. Volto antes do almoço! Saí da sala rapidamente e corri meus olhos pela tela do celular, procurando pela mensagem. Que ela não estivesse me mandando para Nilópolis, para a quadra da Beija-Flor, ela sabia muito bem que aquela era minha escola de samba menos preferida. Quer dizer, acreditava que a agremiação ainda tinha problemas com a sua quadra, já que na apuração dos votos do último carnaval (tudo bem que isso havia sido há alguns muitos meses atrás) os torcedores se juntaram na rua. Ufa, Portela. Ótimo, não era a escola por qual eu torcia, mas eu conseguiria lidar com isso de maneira bem mais imparcial. Eu e a Beija-Flor éramos, digamos, incompatíveis, mas isso é história de outros carnavais, nesse caso, lieralmente. —Thales e Igor, estou indo até a quadra da Portela, quem pode vir comigo? — Perguntei para nossos dois estagiários, circulando por entre as mesas onde eles, e todos nós que não temos sala, ou seja, os meros mortais, trabalhávamos. —Eu deixo essa para Thales. Prefiro evitar esse tipo de ambiente. —Não é muito profissional da sua parte, como jornalista— Puxei a orelha de Igor, revirando os olhos. Ele era meio nariz em pé, fugia de todos os compromissos que envolviam ambientes populares. Era bem hipócrita da minha parte, já que não era toda escola de samba que eu frequentaria de bom grado, mesmo sendo para um trabalho. Mas eu não me negaria, iria mesmo que contra a minha vontade se fosse necessário. —” O meu lugar, tem seus mitos e seres de luz. É bem perto de Oswaldo Cruz, Cascadura, Vaz Lobo e Irajá. O meu lugar, é sorriso é paz e prazer, o seu nome é doce dizer. Madureira, lá laiá” —’Bora, Thales. Pega suas coisas, deixa a cantoria para o caminho. —Você tá chata hoje, Pipa. Estela já te estressou? —Sempre— Respondi, vendo-o colocar a mochila sobre os ombros. Diferente de Igor, Thales topava tudo com um sorriso no rosto. Apesar de ainda estar na faculdade, ele já era um baita de um profissional, tinha escolhido a carreira certa e ia longe. Discrição não era o ponto forte de nossos funcionários, dito isso, já estávamos andando até o elevador, quando alguém me gritou: —PIPA! TU VIU O MALUMA? —Fala baixo, criatura! —Amiga, como se sente sabendo que vai trabalhar com o clone do seu sexy symbol? —Marcela! — a encarei f**o, olhando para Thales, que ria baixo— Ele só parece o Maluma de longe, ok? Quando você olha bem para ele, não tem muito a ver. —Tanto faz, que bom que já teve a chance de olhar de perto, então. Porque para mim ele continua sendo a p***a de um gostoso! — a editora disse escandalosa. —Fala baixo, Ryan está aqui! —Achei que ele sabia que você não quer nada sério. Está brincando com o garoto, Filipa? Que coisa f**a, ele é tão gente boa. —Que brincando, o que? Tá doida?— Perguntei indignada. —Ele sabe que ele não quer nada sério, mas ele gosta dela mesmo assim, ok? — Thales se meteu. —Fica quieto, estagiário— Brinquei com ele— Agora vamos que Madureira nos espera e a Mah está com a vida muito boa para ficar prestando atenção no que os outros fazem ou deixam de fazer. —Está falando isso porque ainda não olhou para a b***a dele, aí você vai me dar razão! — ela gritou, mas felizmente eu já estava alcançando o elevador e pude deixar o constrangimento para trás, quer dizer, fingir que ela não falava comigo. Depois eu me perguntava porque não era levada a sério no ambiente de trabalho. Só meus amigos mesmo, para me darem confiança, se bem que eles são mais doidos que eu e tem sua parcela de culpa pelo clima descontraído. Vamos lá, Filipa! Você tem coisa mais importante para fazer do que ficar se perguntando o porquê de não ter reparado na b***a de seu novo colega de trabalho. Até porque oportunidades não vão faltar...
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