São Paulo

2407 Palavras
Em São Paulo onde eu nasci Eu não queria sair daqui... E é de São Paulo que eu quero falar Se você vier que vai gostar Da Paulista às galerias Mas que tormento quando chovia Vamos lá, vamos melhorar Fazer de Sampa o melhor lugar - Supla. Nicolas Faz tanto tempo desde que ouvi a primeira comparação com o cantor colombiano Maluma, tanto que nem consigo dizer quantas vezes isso já ocorreu, de lá para cá. Na verdade, acho que a semelhança é em um geral, de longe, se avaliando no conjunto, como garotas bronzeadas, de cabelo loiro e cacheado são comparadas com a Shakira, sem realmente colocar os traços na ponta do lápis. Talvez brasileiros apenas gostassem de se comparar com cantores da Colômbia ou de outros países latinos, ou apenas cantores internacionalmente famosos, em um geral. Mas podia dizer que todo esse falatório sobre a minha aparência sempre era gerado sem nenhuma avaliação minuciosa. Não que eu me incomode, nunca me senti desconfortável, pelo contrário, era um baita de um elogio ser comparado ao cara, mas não seria justo afirmar que eu sou a cópia do cantor, se não é bem assim. Também não seria hipócrita de dizer que gostava de trazer as nossas diferenças físicas porque achava que ele era f**o, muito pelo contrário, como já disse, era gratificante ser comparado com alguém bonito e reconhecido internacionalmente por seus atributos físicos (além das músicas, é claro). Eu não tinha nenhum tipo de problema em elogiar a beleza de outros homens, não achava que isso interferia de forma alguma em minha masculinidade e não a considerava frágil. Agora, encarando os fatos, eu e Maluma temos sim a altura e estrutura física parecidas (sim, eu já procurei na internet), assim como ambos tínhamos tatuagens nos braços, mas eu nem tanto quanto ele. Nós dois éramos brancos, com cabelos escuros raspados (ele ainda usava o cabelo assim?), olhos castanhos e barba, fim. Tudo bem, eu confesso, já tinha reparado que ele tem a sobrancelha parecida com a minha, talvez até um pouco do formato dos olhos. O que mais diferenciava em si eram nariz e boca. Se eu tivesse que compará-los aos de alguma outra celebridade, diria que pareciam com o do Dylan O'Brien, ator daquela série de lobisomens, Teen Wolf, minha mãe era viciada naquilo e por causa dela, já tinha passado bastante tempo tendo que olhar para a cara do ator, tempo esse que foi o suficiente para que começassemos a perceber essas semelhanças entre eu e ele. Agora, da forma que falei, parece que sou uma daquelas pessoas que passa o dia pesquisando por famosos na internet, tentando achar algum que seja parecido comigo, só para poder usar isso ao meu favor. Mas na verdade, até que demorou para que eu aceitasse que sou um pouco parecido com os dois e conseguisse me referir a minha própria aparência dessa forma. Autoestima aqui não era o meu ponto forte, definitivamente não era a parte mais equilibrada de meu ser. Voltando ao trabalho, que deveria ser o tópico mais importante em meio a tantos assuntos: não demorei muito na sala de Estela, nós vínhamos trocando e-mails há certo tempo, acertando todos os detalhes da minha transferência, que fiquei sabendo de sua própria boca. Quando era apenas um estagiário, contratado durante a faculdade, não tinha muitas esperanças de ser efetivado pela revista. Na época, os projetos para uma possível expansão e, quem sabe, uma edição paulista estavam em alta, era o que todo mundo falava na redação. Os melhores estudantes de jornalismo se candidatavam para o estágio e eu, que na época tinha notas perfeitas e desempenho exemplar, fui premiado com a vaga. Mas daí em diante, foi tudo ladeira abaixo, fui jogado em um departamento exigente, com um chefe extremamente rígido e petulante. A vida também não estava no melhor dos momentos. Não, na verdade isso é um baita eufemismo, estava tudo desmoronando e, em meio a tantos problemas, toda a minha família precisou se mudar para Nova Friburgo e eu fiquei, por conta da faculdade e do emprego. O meu chefe de departamento quase me mandou embora diversas vezes, nesse meio tempo. E me virando em mil, sem querer preocupar minha família que já passava por coisa demais, contei com a ajuda de Estela para me reerguer. A ajuda que recebi dela ia além do material. Sabia que nunca conseguiria retribuir tudo o que ela fez por mim, porque nem se eu fizesse minhas contas, somasse e devolvesse o que ela gastou, a dívida seria paga, já que a importância do que ela fez era extraordinária e a devolução não teria tamanha importância. Eu já havia tentado pagar de diversas formas, em diferentes momentos, mas ela nunca aceitou, não via como uma dívida, então eu percebi que minha melhor forma de gratidão e quitação do que a devia seria a dando a minha lealdade, como funcionário e como amigo, caso ela viesse a precisar. Ela sabia que poderia me escalar tranquilamente para desempenhar as duas funções. Estela foi leal a mim, me ajudou no momento mais complicado da minha vida e eu só deixaria de ser seu funcionário se a revista fechasse as portas e eu fosse obrigado a procurar outro emprego, ou se ela me demitisse por alguma razão. Serviço exemplar e permanência eram minha forma de mostrar gratidão, de fazê-la enxergar que poderia contar comigo para qualquer coisa. Era um sentimento platônico. Ela era uma mulher muito boa, uma chefe exemplar e uma figura de referência para mim, como uma madrinha, ou algo do tipo. Por isso, não pensei duas vezes antes de vir para o Rio, além de estar mais perto da minha família, eu tinha com quem contar na Cidade Maravilhosa e sabia que eu seria útil, porque aqui havia gente que também podia contar comigo. Quando os boatos do fechamento da redação paulistana se espalharam, tudo foi enxugado com uma resposta simples, confirmando a veracidade e dizendo que os funcionários não seriam demitidos. Pronto, foi o suficiente para vários desesperados pedirem demissão antecipadamente. Acho que ela já previa o que ia acontecer, já sabia que não precisaria demitir e que eles mesmos fariam isso com si mesmos. Era melhor para a reputação, de certa forma, porque não era ela que estava abrindo mão dos funcionários, os abandonando, e sim eles a ela. Mas no fundo, era claro que se todos decidissem continuar, alguns precisariam ser demitidos para que a revista não quebrasse ainda mais, financeiramente, ou seria gente demais para serviço reduzido. Havia mais motivos do que os salários dos funcionários, é claro. As dispesas para manter uma outra redação eram enormes, porque além de convencer o público da relação São Paulo-Rio, que era o que fazia a sede paulistana funcionar, Estela tinha despesas de deslocamento e hospedagem, quando ia acompanhar de perto o funcionamento das coisas na capital paulista. O quadro de funcionários também acabava estendido, porque funcionários do Rio não conseguiam comandar as coisas de longe, em alguns setores, ou seja, alguns departamentos tinham funcionários dobrados, nos dois escritórios. Além de tudo, o que acredito que dava mais prejuízo: o aluguel. Já disse como os aluguéis em São Paulo são uma fortuna? Agora imagine pagar por um escritório gigantesco em um dos prédios comerciais mais importantes e badalados da Avenida Paulista? Aos funcionários que ficaram, com o tempo e muita conversa, alguns descobriram que seus cargos eram ocupados por pessoas mais capacitadas e experientes, no estado vizinho, então que teriam que passar por uma redução de poder. Outra leva de pedidos de demissão aconteceu, acho que todos esses decidiram sair, que nenhum concordou com a mudança. Isso sem dúvidas também reduziu os gastos de Estela, se ela os demitisse, teria que pagar recisão e convenhamos que, no momento financeiro que vivia com a revista, seria como entrar em uma bola de neve. E ela soube se livrar dela sem precisar descer do salto agulha. Achava minha chefe extremamente inteligente, era uma baita inspiração para o que eu queria um dia poder ser, como profissional. Por fim, ficaram aqueles funcionários que eram considerados superiores aos seus equivalentes cariocas e poderiam assumir o posto em que já trabalhavam, fazendo com que os funcionários de lá ganhassem novos cargos. A grande maioria deles se recusou a mudar de estado, então o número de pessoas diminuiu ainda mais, só que dessa vez não foi unanime. Também ficamos nós, os funcionários que não estavam competindo com os concorrentes cariocas, aqueles em que ambos seriam mantidos, sem mudar nada, seja porque a revista tinha condições de manter os funcionários cariocas e paulistanos para o cargo, ou porque não havia um profissional equivalente, na outra redação. Em geral, nenhum de nós pertencia a chefias, mas também fomos poucos os que topamos. Sem contar que o número de funcionários na redação paulista já era menor que a do Rio, a grande maioria dos “peixes grandes” trabalhava na sede do Jardim Botânico, então não eram muitos os que chefiavam ou tinham tamanha relevância, em São Paulo. Se, na conta total, entre oito e dez funcionários permaneceram, era muito. Eu fui o primeiro a aceitar e provavelmente o único que não tentou negociar antes de o fazer. Mas acho que toda essa explicação e demonstração da minha admiração por Estela seria suficiente para que eu pudesse dizer algo: A garota do elevador, Filipa, não sabia o que havia por trás de seu relacionamento com Estela, mas de qualquer forma, achei aqueles olhos brilhantes um pouquinho menos atrativo, depois de ver a forma como ela tratava a sua própria tia. Achava inapropriado em ambos os casos, como sobrinha e como funcionária. Não queria formar uma opinião errada logo de cara, não parecia justo fazer isso sem conhecê-la e sem saber tudo o que havia por trás da convivência das duas, até porque, pouco entendi da falação acelerada em espanhol. Também achei que Estela havia sido um pouco mais carrasca com ela, do que com os outros funcionários. Mas de minha chefe eu já tinha uma opinião formada, então imaginava que havia um motivo por trás daquela disparidade. Depois de, pela milésima vez, receber as boas vindas e o agradecimento por ter aceitado a mudança, da dona da revista, também recebi um convite para almoçar com sua família no sábado. Eu já conhecia seu marido, mas nunca tive oportunidade de encontrar com seu filho e apesar de não estar me sentindo muito sociável ou animado para sair de casa no fim de semana, aceitei seu convite depois de perguntar se não incomodaria. Saindo do escritório já com instruções mais precisas sobre o vídeo do Rock In Rio, tinha que ir atrás de um dos estagiários e da pequena equipe de gravação, que acabei por descobrir que se tratava apenas de uma pessoa, por enquanto, exatamente por isso a ajuda do estagiário seria de extrema importância. Eu até ia perguntar para a moça que caminhava até a sala de Estela com um tablet na mão, mas quando vi ela já tinha entrado apressada e uma outra tinha surgido bem na minha frente: —Meu Deus, você parece muito o Maluma! Não sei como Filipa não pulou no pescoço, quando vocês saíram juntos do elevador. Ela é doida por qualquer cara que fale espanhol e tenha um tanquinho. Arregalei os olhos e respondi com um sorriso fraco no rosto, apenas para não parecer m*l educado com minha nova colega de trabalho: —Não falo espanhol! —Então você tem um tanquinho? Bem, era de se imaginar— Desceu os olhos pelo meu tronco, descaradamente— A propósito, sou Marcela Cunha, redatora. —Prazer em conhecê-la, sou Nicolas— respondi— Nicolas Jatobá, repórter e revisor. —Então trabalharemos muito juntos, seja bem-vindo ao Rio. Tu não fica assustado com essa falação sobre Filipa e o amor dela pelo Maluma não, tá? É porque ela realmente é fã de cantores latinos, reggaeton e tudo isso, ontem mesmo estava babando na foto nova que ele postou. Então não podemos perder a oportunidade de zoar com a cara dela... Cariocas realmente usavam “tu”, mas conjugavam como “você”. Era engraçado como o regionalismo provava como o conceito de certo e errado de uma língua era fluido e como as regras gramaticais não precisavam ser seguidas à risca, dependendo do cenário. —Tudo bem, já estou acostumado com essas comparações, na verdade— Ri fraco— Eu estava procurando algum estagiário para me ajudar com uma gravação, mas não sei quem são, pode me ajudar? Quis quebrar o papo estranho sobre as paixonites da amiga dela, ainda me sentia um pouco incomodado com o jeito em que ela e Estela se tratavam e esperava que ambas estivessem apenas em um dia r**m. —Claro. O negócio é o seguinte— ela seguiu sendo bem informal, mas abaixando o tom de voz— Pipa levou o estagiário bom para Madureira, então hoje você não deu sorte e vai ter que encarar Igor, um tanto prepotente e nariz em pé, sabe que é bom no que faz e se acha melhor que todo mundo, então se eu fosse você evitava puxar papo e não dava muita trela para ele, você sabe, aquele lance de dar asa à cobra. —Certo, não vai ser muito difícil, não me considero um bom puxador de conversa... —Gostei de você, Nick. Parece meio tímido e calado, mas convivendo com tanta gente louca em sua volta, não vai demorar muito até que você se torne um pouco como nós— ela piscou um olho, antes de caminhar na direção do banheiro feminino. Esse povo realmente parecia mais animado e informal do que os meus antigos colegas de redação, mas eu tinha minhas dúvidas se eu, e os que também vieram para o Rio, deixaríamos o clima da Cidade Maravilhosa desconstruir a Selva de Pedra que existe não só em Sampa, mas em cada um de nós. Não podia negar, já sentia um pouco de falta da minha cidade que, apesar de não parecer como um lar há muito tempo, ainda era o lugar que havia me formado. Eu havia aprendido a ser um paulistano, era tudo o que eu sabia, então apesar da distancia geograficamente próxima, o culturamente longe poderia me soar mais alto. E eu estava começando a reparar que São Paulo e Rio de Janeiro tinham mais diferenças do que eu poderia imaginar.
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