Capítulo 16

1000 Palavras
Raul Raul sempre soubera que havia algo errado com ele. Não errado no sentido que os padres gritavam nos púlpitos, nem como os vizinhos cochichavam atrás das cortinas. Errado num lugar mais profundo, mais íntimo. Como se tivesse nascido deslocado dentro do próprio corpo, como se o mundo tivesse vindo com um manual que ele nunca recebera. Desde menino, aprendera a observar antes de agir. A medir palavras. A esconder reações. Não porque fosse covarde, mas porque entendera cedo demais que certos gestos custavam caro. Especialmente os que vinham do desejo. A noite anterior ainda pulsava em sua cabeça como uma ressaca que não era apenas física. A discussão com o pai ecoava em fragmentos — palavras cortantes, exigências disfarçadas de amor, ameaças embrulhadas em preocupação. Casar. Assumir o negócio da família. Ser normal. Raul fechou os olhos enquanto caminhava pela rua estreita, sentindo o frio da manhã morder-lhe a pele. Normal. A palavra sempre soara como uma sentença. Ele parou diante da vitrine de uma loja fechada e observou o próprio reflexo. Vinte e poucos anos, rosto firme, barba por fazer, olhos claros demais para esconder qualquer coisa. Havia força ali. Também havia cansaço. — Você não é fraco — murmurou para si mesmo. — Só está preso. O problema era não saber como quebrar a cela. Nos dias que se seguiram, Raul voltou ao bar mais vezes do que pretendia. Não admitia para si mesmo o motivo, mas o corpo o levava até lá antes que a mente pudesse inventar desculpas. Eleno não apareceu de imediato. Isso o irritou mais do que gostaria de admitir. Quando finalmente o viu outra vez — encostado na parede externa, observando a rua como quem não pertence a ela — Raul sentiu o estômago apertar. Não era paixão. Ainda não. Era curiosidade aguda, quase incômoda. — Você costuma desaparecer — comentou Raul, aproximando-se. Eleno virou o rosto lentamente. O sorriso surgiu discreto. — Costumo partir antes que perguntem demais. — E eu pareço alguém que pergunta demais? — Parece alguém que percebe demais. Raul riu, sem humor. — Isso não costuma ser uma vantagem. Sentaram-se lado a lado, como se aquilo fosse natural. Como se não estivessem atravessando uma linha invisível. — Você não bebe de verdade — observou Raul, depois de alguns minutos. Eleno ergueu uma sobrancelha. — O que te faz pensar isso? — Você nunca engole — respondeu Raul. — Sempre encosta o copo nos lábios, mas seus olhos… estão em outro lugar. Eleno o encarou por mais tempo do que o seguro. — Observador — murmurou. — Condenado — Raul corrigiu. Houve silêncio. Não desconfortável. Um silêncio denso, carregado de coisas não ditas. — Meu pai quer que eu me case — disse Raul de repente. — Com uma mulher que eu m*l conheço. Diz que é o melhor para mim. Eleno não respondeu de imediato. Quando falou, a voz saiu baixa. — E o que você quer? Raul apertou os dedos em torno do copo. — Eu quero respirar sem culpa. A frase ficou suspensa entre eles. Eleno sentiu o peso daquela confissão como se fosse própria. Aquilo o assustou. Envolver-se sempre começava assim — com pequenas verdades compartilhadas. — Às vezes — disse ele — fugir é a única forma de sobreviver. Raul o encarou. — Fugir para onde? Eleno sustentou o olhar. — Para dentro de si. Ou para longe de tudo. Raul desviou o olhar primeiro dessa vez. Naquela noite, caminharem juntos pareceu inevitável. A cidade se estendia silenciosa, cúmplice. As lanternas lançavam sombras longas, distorcendo contornos. — Você nunca fala de si — comentou Raul. — Porque histórias criam expectativas — respondeu Eleno. — E expectativas criam prisões. — Eu não prenderia você — disse Raul, sem pensar. Eleno parou. O mundo pareceu desacelerar. — Não sabe disso — respondeu, com suavidade perigosa. Raul sentiu o coração acelerar. Havia algo em Eleno que não sabia nomear. Não era apenas beleza. Era presença. Era o modo como ele parecia carregar séculos no silêncio. — Eu sei quando algo é verdadeiro — disse Raul. — Mesmo que não dure. Eleno deu um passo para trás. — Verdades costumam cobrar caro. — Mentiras também. Por um instante, Eleno quase tocou o rosto de Raul. Quase. O controle se impôs no último segundo. — Vá para casa — disse. — Esta noite não é segura. Raul franziu o cenho. — Para quem? Eleno não respondeu. Apenas virou-se e desapareceu na escuridão. Raul ficou ali, o coração batendo forte demais, o corpo reagindo a algo que não compreendia. Pela primeira vez, não sentiu medo do desejo. Sentiu medo da ausência. E, sem saber, dera o primeiro passo para longe da vida que lhe fora imposta — e em direção a algo que mudaria tudo. Algo que não envelhecia. Algo que observava na noite. Algo chamado Eleno. Eleno para Raul é um mistério, um mistério que ele está querendo desvendar. O porque ele some, isso o deixa cada vez mais intrigado. Eleno é um homem de beleza incomum olhos de um azul vivo entram em combinação com a pele clara e os cabelos escuros como o ébano. Raul se lembra das exigências de seu pai e isso o faz querer morrer. " Será que é crime eu querer ser eu mesmo?" " Será que é crime eu querer demonstrar a minha essência verdadeira?" Raul sabe que vão o julgar pelo que ele é, por isso guarda o que sente para si, ele vê em Eleno alguém que o compreende, alguém que se Raul precisar desabafar ele estará pronto para ouvir." " Qual verdade Eleno esconde ?" São perguntas que insiste em surgir na mente de Raul e ele tenta buscar explicações para um óbvio que ele nem chegou a cogitar. " Os olhos de Eleno parecem de um azul que é mais bonito que o céu " Raul observa o movimento de bar e pensa em Eleno. " Esse é um mistério que ele terá o prazer em descobrir"
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR