O Homem que Não Envelhecia
Havia coisas que não podiam mais ser escondidas.
Eleno aprendera isso da forma mais silenciosa possível: observando os outros envelhecerem enquanto ele permanecia intacto. No início, era apenas um detalhe estranho. Depois, tornava-se um incômodo. Por fim, uma ameaça.
As pessoas começavam a perceber.
Não de imediato. Nunca era de imediato. Primeiro vinham os comentários jogados ao acaso, risadas desconfortáveis, olhares demorados demais.
— Você tem uma pele incrível para alguém da sua idade…
— Jura que já mora aqui há dez anos?
— É impressão minha ou você não muda nunca?
Eleno sorria. Sempre sorria. Aprendera que o sorriso era a melhor forma de encerrar perguntas perigosas.
Mas sorrisos não duravam para sempre.
Naquela cidade — mais uma entre tantas — ele permanecera tempo demais. Gostara do lugar. Gostara das noites. Gostara do anonimato quase perfeito. Mas o ciclo se repetia, como sempre.
O dono da hospedaria o observava com curiosidade crescente. Um vizinho mais velho começou a evitá-lo. Uma mulher fez o sinal da cruz ao passar por ele certa manhã.
Era hora de partir.
Eleno arrumou poucas coisas. Nunca carregava muito. Objetos se tornavam âncoras quando se vive para sempre. Antes de sair, olhou o quarto pela última vez. Nada ali lhe pertencia de verdade.
A rua o recebeu com o mesmo ar indiferente de sempre. Ele caminhou sem pressa, absorvendo cada detalhe como se fosse a última vez — mesmo sabendo que não era.
Foi quando percebeu.
O jovem estava ali outra vez.
Sentado à mesa externa de um bar simples, com um copo quase intacto à frente. Os cabelos claros refletiam a luz das lanternas. O corpo parecia tenso, como alguém que não se sentia completamente confortável em lugar nenhum.
Eleno reconheceu aquele tipo de inquietação.
Ele próprio já fora assim.
O olhar se cruzou com o dele novamente. Desta vez, não foi por acaso. Houve reconhecimento — não sobrenatural, não consciente, mas humano. Profundamente humano.
O jovem desviou o olhar primeiro.
Eleno sentiu algo que não sentia há décadas.
Vontade.
Não fome.
Não impulso.
Vontade de permanecer.
Isso o alarmou.
Ele passou direto pelo bar, ignorando o chamado silencioso daquele olhar. Não podia. Não devia. Aproximar-se de humanos era sempre um erro. Aproximar-se de um humano específico era pior ainda.
Caminhou por horas naquela noite, tentando se livrar da sensação incômoda que se instalara em seu peito imóvel. Mas não adiantava.
Algo havia mudado.
Nos dias seguintes, evitou o lugar. Mudou o trajeto.
Caçou mais longe. Tentou se convencer de que era apenas curiosidade passageira.
Não era.
Em outra noite, ao passar por uma rua diferente, ouviu vozes exaltadas. Um grupo de homens discutia. Um deles — o jovem — estava no centro, claramente alterado, o rosto vermelho de raiva e frustração.
— Eu não vou casar com ela! — gritou. — Não sou propriedade de ninguém!
Eleno parou.
Algo naquela frase atravessou séculos e o atingiu com força.
Ele observou à distância. O jovem discutia com outro homem mais velho, rígido, autoritário. p************s. Expectativas impostas. Vergonha não dita.
Eleno conhecia aquele cenário. Conhecia aquela prisão.
Quando a discussão terminou, o jovem saiu do grupo e entrou no bar mais próximo, batendo a porta com força. O outro homem permaneceu do lado de fora, respirando pesado.
Eleno hesitou.
Intervir era perigoso. Envolver-se era um risco que ele aprendera a evitar. Mas algo o mantinha ali, imóvel, observando.
O homem mais velho foi embora, resmungando. O bar silenciou.
Eleno entrou.
O ambiente estava carregado de fumaça e murmúrios. Ele localizou o jovem rapidamente — sentado ao balcão, encarando o copo como se fosse um inimigo.
— Posso? — perguntou Eleno, apontando para o banco ao lado.
O jovem o olhou, surpreso. Os olhos eram claros.
Humanos.
Vulneráveis.
— Pode — respondeu, após um instante.
Eleno sentou-se. Pediu uma bebida. Fingiu beber.
— Parece que a noite foi longa — comentou, casual.
O jovem soltou uma risada amarga.
— Você não faz ideia.
Houve um silêncio confortável. Não tenso. Não urgente.
— Às vezes — continuou o jovem — a gente só quer ser… quem é. E o mundo insiste em nos moldar.
Eleno o observou com atenção renovada.
— O mundo sempre tenta — respondeu. — Nem sempre consegue.
O jovem o encarou por alguns segundos.
— Você fala como alguém que já perdeu muita coisa.
Eleno sustentou o olhar.
— Ou como alguém que escolheu perder.
O jovem sorriu de leve. Um sorriso triste, mas sincero.
— Raul — disse, estendendo a mão. — Meu
nome é Raul.
O toque foi breve. Mas suficiente.
Eleno sentiu o mundo inclinar-se levemente, como se o destino tivesse dado um passo à frente sem pedir permissão.
— Eleno — respondeu.
Nenhum título. Nenhuma mentira elaborada.
Apenas o nome.
Raul inclinou a cabeça, estudando-o.
— Você não parece daqui.
Eleno sorriu de novo. Dessa vez, sem ensaio.
— Não sou.
— Nem eu — disse Raul, em voz baixa. — Pelo menos não do jeito que esperam.
Eleno percebeu, então, o que sempre soubera evitar.
Aquele jovem não o via como estranho.
Não o temia.
Não o julgava.
Ele o via.
O homem que não envelhecia sentiu algo quebrar — não com violência, mas com delicadeza.
E, pela primeira vez desde a fuga, Eleno não pensou em ir embora.
Desde que foi transmutado Eleno fugia de si mesmo, do ser que havia se transformado. O vampiro que o trasmutou soube dominá-lo não com palavras, mas com seu olhar.
Os olhos que mesmo em fuga Eleno não esqueceu. E agora Eleno sente que não precisa mais viver como um andarilho, ele sente que pode fixar morada em algum lugar.
O nome do rapaz, seu jeito meigo, faz Eleno querer ficar mais ele é humano e ele um vampiro, mesmo assim ele quer ficar e pela primeira vez ver aonde esse encontro vai chegar.
A fome o desespero Eleno controlou, e agora ele sente um outro tipo de fome a de sentimentos.
Será que um vampiro pode ousar sentir?
A eternidade, silenciosa testemunha, prendeu a respiração.