Prólogo
Algumas colisões não são acidentes. São destinos mascarados de caos.
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Curitiba. 6h da manhã.
O céu ainda estava cinza, e as gotas de uma garoa tímida dançavam sobre as janelas da cidade. O frio cortava a pele de quem ousava sair sem casaco, e nas calçadas úmidas, o dia parecia despertar com preguiça.
Min-jae caminhava com passos firmes. Fones nos ouvidos, jaleco dobrado no antebraço, expressão inalterada. Não sorria, não franzia o cenho. Era apenas ele, o silêncio, e o peso dos fantasmas que ninguém via.
Cada passo dele era calculado. Cada olhar, controlado. Sua alma? Trancada em algum lugar da Coreia, talvez enterrada sob lembranças que ele se recusava a revisitar.
Já fazia três meses que havia desembarcado no Brasil e apenas três semanas desde que decidiu ficar. Curitiba o acolheu com sua melancolia fria, seus cafés discretos e suas ruas silenciosas. Era o refúgio que ele não sabia que procurava.
Mas naquele dia… algo estava fora do lugar.
Na outra ponta da cidade, Livy corria. A enfermeira ruiva, de olhos verdes e riso escandaloso, estava atrasada mais uma vez. A meia-calça rasgada, o cabelo preso de qualquer jeito, e um café ainda quente escapando pela tampa da garrafa térmica.
Ela m*l notou o guarda-chuva que esqueceu. Nem o celular quase sem bateria. Tudo o que importava era não perder o ônibus… de novo.
Só que o destino aquele cafajeste sarcástico que adora brincar com pessoas quebradas tinha outros planos.
Porque quando Livy dobrar aquela esquina com a pressa de quem vive tropeçando na vida, e Min-jae estiver prestes a entrar no hospital com seu semblante impenetrável…
Eles vão se esbarrar.
Literalmente.
Ela vai derramar café no jaleco dele. Vai gaguejar. Vai rir. Ele vai odiar. Vai fechar o rosto. Vai tentar ir embora.
Mas os olhos dele vão hesitar. Por um segundo.
E isso será o suficiente.
O primeiro passo de uma colisão de mundos.
Gelo e fogo. Ordem e caos. Trauma e esperança.
Duas almas avariadas por escolhas, mentiras e cicatrizes invisíveis.
Unidas pelo acaso. Ou quem sabe, por algo maior.
No fim, ela vai descobrir que ele não cobra em dinheiro.
E ele… vai aprender que o amor pode chegar gritando, tropeçando e rindo alto e ainda assim ser tudo o que ele precisava.