A tampa do copo de café escapou no pior momento.
O líquido quente voou, acertando em cheio o jaleco branco de um homem alto, parado no saguão do hospital.
— Ai, m***a! — Livy prendeu a respiração por dois segundos. — Desculpa! Foi sem querer, moço!
Ela não olhou. Simplesmente virou nos calcanhares e saiu correndo.
Se tivesse olhado, teria visto o olhar sério e gélido do homem imóvel, com o jaleco molhado colado ao peito, os olhos pretos intensos seguindo-a em silêncio.
Mas Livy só queria escapar da vergonha.
Empurrou a porta automática com o ombro e entrou esbaforida, o cabelo bagunçado, as bochechas vermelhas... e os botões da blusa se abrindo enquanto corria desesperada. A blusa tremulava com o vento da porta, e ela tentava cobrir o peito com uma das mãos enquanto segurava a bolsa com a outra.
— Licença! — gritou enquanto tropeçava num tapete torto.
— Ai, desculpa! — quase derrubou um carrinho de medicação.
— Gente! Que dia! — ofegava, sem ar.
Chegou ao vestiário como se estivesse fugindo de uma perseguição. Jogou a bolsa no banco, arrancou a blusa com um puxão e abriu o armário com a mesma energia.
— Vai, jaleco, colabora! — murmurou enquanto se trocava, ainda bufando.
Prendeu o cabelo de novo, retirou o brinco, deu uma encarada no espelho.
— Respira, Livy. Finge que nada aconteceu. Ninguém viu... além do moço com o jaleco encharcado.
Assim que saiu, avistou Adam no corredor e foi direto até ele.
— Adam! Socorro! Joguei café em um homem! Tipo... em um homem adulto! Jaleco inteiro! E eu saí correndo!
— Espera, respira, fale devagar, o quê ? Sério?— Ele riu alto. — Você fez isso mesmo?
— Sim! E o pior... nem olhei pra cara dele! Só fugi igual uma louca!
— Isso é tão você, Livy. Isso é uma segunda-feira normal contigo.
Ela fez um beicinho, resmungando.
— Eu só queria um plantão calmo. Mas não! Já comecei fazendo arte.
— Bora trabalhar, desastre ruivo.
Antes que ela retrucasse, o coordenador da enfermagem surgiu ao lado:
— Livy, preciso de você um minuto.
— Ai, senhor... o que foi? Fui demitida? Não precisa enrolar, fale logo.
— Não, nada disso. Só uma mudança de setor. A partir de hoje, você vai para o trauma.
— Trauma?! — Ela arregalou os olhos. — Mas por quê? Eu sou toda errada pra aquilo! Eles precisam de gente fria, organizada... e eu sou uma avalanche de emoção e café!
— Justamente por isso. Você é rápida. Eles precisam disso. E já tá decidido.
— Ok... ok. Mas só uma coisa: quem é o médico responsável?
— Doutor Min-jae. Coreano. Chegou faz três meses. Sério, discreto, extremamente competente. Nenhuma gracinha.
Ela cruzou os braços, desconfiada.
— Ótimo. Deve ser um velho grosso. Já tô avisando: eu não levo desaforo. Se vier com tom arrogante, vai ouvir. Pode ser médico, coreano, papa... não tô nem aí. Eu falo mesmo!
A alguns metros dali, Min-jae, com o jaleco seco e a prancheta nas mãos, escutava tudo.
O rosto travado. O maxilar tenso.
Era ela.
A mesma que havia derrubado café nele e agora estava falando alto no corredor, como se fosse dona do hospital.
Indisciplinada. Escandalosa. Inconveniente.
Pensou em virar as costas. Ignorar.
Mas algo o impediu.
Seus olhos a seguiram, mais uma vez.
"Essa mulher vai me tirar do sério…"
Ou pior:
“Vai me fazer nervoso”