Capítulo 1 – O Jaleco Molhado e a Troca de Setor

574 Palavras
A tampa do copo de café escapou no pior momento. O líquido quente voou, acertando em cheio o jaleco branco de um homem alto, parado no saguão do hospital. — Ai, m***a! — Livy prendeu a respiração por dois segundos. — Desculpa! Foi sem querer, moço! Ela não olhou. Simplesmente virou nos calcanhares e saiu correndo. Se tivesse olhado, teria visto o olhar sério e gélido do homem imóvel, com o jaleco molhado colado ao peito, os olhos pretos intensos seguindo-a em silêncio. Mas Livy só queria escapar da vergonha. Empurrou a porta automática com o ombro e entrou esbaforida, o cabelo bagunçado, as bochechas vermelhas... e os botões da blusa se abrindo enquanto corria desesperada. A blusa tremulava com o vento da porta, e ela tentava cobrir o peito com uma das mãos enquanto segurava a bolsa com a outra. — Licença! — gritou enquanto tropeçava num tapete torto. — Ai, desculpa! — quase derrubou um carrinho de medicação. — Gente! Que dia! — ofegava, sem ar. Chegou ao vestiário como se estivesse fugindo de uma perseguição. Jogou a bolsa no banco, arrancou a blusa com um puxão e abriu o armário com a mesma energia. — Vai, jaleco, colabora! — murmurou enquanto se trocava, ainda bufando. Prendeu o cabelo de novo, retirou o brinco, deu uma encarada no espelho. — Respira, Livy. Finge que nada aconteceu. Ninguém viu... além do moço com o jaleco encharcado. Assim que saiu, avistou Adam no corredor e foi direto até ele. — Adam! Socorro! Joguei café em um homem! Tipo... em um homem adulto! Jaleco inteiro! E eu saí correndo! — Espera, respira, fale devagar, o quê ? Sério?— Ele riu alto. — Você fez isso mesmo? — Sim! E o pior... nem olhei pra cara dele! Só fugi igual uma louca! — Isso é tão você, Livy. Isso é uma segunda-feira normal contigo. Ela fez um beicinho, resmungando. — Eu só queria um plantão calmo. Mas não! Já comecei fazendo arte. — Bora trabalhar, desastre ruivo. Antes que ela retrucasse, o coordenador da enfermagem surgiu ao lado: — Livy, preciso de você um minuto. — Ai, senhor... o que foi? Fui demitida? Não precisa enrolar, fale logo. — Não, nada disso. Só uma mudança de setor. A partir de hoje, você vai para o trauma. — Trauma?! — Ela arregalou os olhos. — Mas por quê? Eu sou toda errada pra aquilo! Eles precisam de gente fria, organizada... e eu sou uma avalanche de emoção e café! — Justamente por isso. Você é rápida. Eles precisam disso. E já tá decidido. — Ok... ok. Mas só uma coisa: quem é o médico responsável? — Doutor Min-jae. Coreano. Chegou faz três meses. Sério, discreto, extremamente competente. Nenhuma gracinha. Ela cruzou os braços, desconfiada. — Ótimo. Deve ser um velho grosso. Já tô avisando: eu não levo desaforo. Se vier com tom arrogante, vai ouvir. Pode ser médico, coreano, papa... não tô nem aí. Eu falo mesmo! A alguns metros dali, Min-jae, com o jaleco seco e a prancheta nas mãos, escutava tudo. O rosto travado. O maxilar tenso. Era ela. A mesma que havia derrubado café nele e agora estava falando alto no corredor, como se fosse dona do hospital. Indisciplinada. Escandalosa. Inconveniente. Pensou em virar as costas. Ignorar. Mas algo o impediu. Seus olhos a seguiram, mais uma vez. "Essa mulher vai me tirar do sério…" Ou pior: “Vai me fazer nervoso”
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR