Min-jae odiava atrasos.
Também não tolerava barulho desnecessário, risadas estridentes ou pessoas que falavam demais antes das sete da manhã.
E naquele instante, sentado em sua sala no setor de trauma, ele escutava tudo isso de uma vez vindo do corredor.
A porta estava semiaberta. E, do outro lado, a voz inconfundível daquela mulher invadia seu espaço com uma i********e que ele nunca permitiu.
— “Já tô avisando, se vier grosso comigo, eu sou mais grossa ainda!” — ela dizia, rindo. — “Fico nervosa, viro uma arara, uma arara ruiva!”
Min-jae suspirou. Longo. Profundo. Entediado.
A ruiva barulhenta do café.
Sim, ele havia reconhecido a voz imediatamente. Assim como havia gravado o tom do pedido de desculpa apressado e o modo desajeitado com que ela desapareceu do saguão como se tivesse cometido um crime federal.
E agora ela seria sua enfermeira de apoio no trauma.
O destino tinha senso de humor c***l.
Ele estava revendo prontuários quando a porta foi empurrada com um leve rangido. Um perfume adocicado invadiu a sala antes mesmo da dona entrar.
— Oi... é aqui que eu fico agora?
Ele ergueu os olhos. Ela.
Ruiva, sardas no nariz, olhos verdes intensos e inquietos, como se estivessem sempre procurando algo novo para rir ou bagunçar.
Ela mordeu o lábio inferior, desconfortável. Tentando parecer profissional, mas já era tarde demais: as mãos estavam ocupadas demais tentando ajeitar os botões m*l fechados do jaleco.
— Senhor... doutor... oi! — tentou novamente, rindo de nervoso. — Eu sou a Livy. Almeida. Me mandaram pra cá.
Ele a encarou, sério. Cada palavra dela parecia bater contra sua paciência como um alarme desregulado.
— Enfermeira Livy. Pontualidade é essencial neste setor. Organização, silêncio e concentração também.
Ela piscou.
— Tá... certo, tudo bem. Só pra constar: eu sou excelente no caos. Mas consigo fingir ser centrada. Às vezes.
Silêncio.
— Vai funcionar! — ela tentou outra vez, erguendo a mão como se prestasse juramento. — Palavra de enfermeira com histórico de tropeços, mas coração de ouro.
Min-jae fechou a pasta devagar e se levantou.
— O setor de trauma exige precisão. Disciplina. Frieza. Aqui não há espaço para amadorismo ou... performances.
— Uau... foi uma indireta?
— Não. Foi uma observação direta.
Ela cruzou os braços, levantando uma sobrancelha ruiva.
— Então tá. A gente começou bem, hein?
— Não se preocupe. Não vim fazer amizades. Vim salvar vidas.
Ela sorriu, sarcástica.
— Eu também, sabia? Não sou só um redemoinho de risadas e tropeços. Sou boa no que faço.
— Veremos.
— Veremos sim, doutor gelo coreano.
Os olhos dele estreitaram-se. Ela percebeu o apelido escapando e cobriu a boca, alarmada.
— Desculpa! Escorregou. Foi sem querer. Juro que não foi falta de respeito... só excesso de sinceridade. E nervoso.
Min-jae se virou, caminhando até a porta sem dizer mais uma palavra. Mas antes de abrir a porta lançou-lhe um último olhar. Aquele olhar. Gélido. Imóvel. Intenso.
— Bem-vinda ao setor de trauma, enfermeira Livy.
Ela em silêncio saiu e ficou ali, parada, olhando para a porta fechada.
— É. Começou o reality show, e eu nem passei da primeira prova...
Mas em algum lugar dentro de si, ela sentiu: aquilo não era apenas trabalho.
Era pressão, faísca, perigo.
Era ele.
E Min-jae?
Ao fechar a porta, resmungou algo em coreano, baixo.
— Geunyeoneun hwaldong-i manhada... (Essa mulher é demais...)
Mas o canto da boca tremeu. Quase... quase sorriu.
Quase .
A maçaneta girou novamente.
Livy, ainda parada no meio do corredor, levou um susto quando a porta se abriu com firmeza e ele apareceu ali, como uma sombra elegante e implacável.
O olhar dele era rígido, duro, sem humor.
A voz, fria como um bisturi.
— Enfermeira... providencie um jaleco novo. Uma doida por aí derramou café no meu. — Fez uma breve pausa, e então arqueou uma sobrancelha com sarcasmo. — Será que você a conhece?
O tom não pedia resposta. Era uma sentença.
Livy travou. O rubor subiu em ondas até as orelhas. O olhar dele era tão intenso que ela sentiu que estava de novo no saguão, encharcada de vergonha, como se tudo tivesse acontecido há segundos.
Ela mordeu o lábio, sem ter o que responder.
Apenas fez um aceno tímido e escapou pela lateral do corredor como se estivesse fugindo de um interrogatório policial.
Ele não sorriu.
Mas, ao fechar a porta pela segunda vez, permitiu-se um único pensamento:
— Definitivamente... ela é um problema.
E, no fundo, uma parte dele... gostava disso