Capítulo 2 – Diagnóstico: Caos com sardas e ruivo

752 Palavras
Min-jae odiava atrasos. Também não tolerava barulho desnecessário, risadas estridentes ou pessoas que falavam demais antes das sete da manhã. E naquele instante, sentado em sua sala no setor de trauma, ele escutava tudo isso de uma vez vindo do corredor. A porta estava semiaberta. E, do outro lado, a voz inconfundível daquela mulher invadia seu espaço com uma i********e que ele nunca permitiu. — “Já tô avisando, se vier grosso comigo, eu sou mais grossa ainda!” — ela dizia, rindo. — “Fico nervosa, viro uma arara, uma arara ruiva!” Min-jae suspirou. Longo. Profundo. Entediado. A ruiva barulhenta do café. Sim, ele havia reconhecido a voz imediatamente. Assim como havia gravado o tom do pedido de desculpa apressado e o modo desajeitado com que ela desapareceu do saguão como se tivesse cometido um crime federal. E agora ela seria sua enfermeira de apoio no trauma. O destino tinha senso de humor c***l. Ele estava revendo prontuários quando a porta foi empurrada com um leve rangido. Um perfume adocicado invadiu a sala antes mesmo da dona entrar. — Oi... é aqui que eu fico agora? Ele ergueu os olhos. Ela. Ruiva, sardas no nariz, olhos verdes intensos e inquietos, como se estivessem sempre procurando algo novo para rir ou bagunçar. Ela mordeu o lábio inferior, desconfortável. Tentando parecer profissional, mas já era tarde demais: as mãos estavam ocupadas demais tentando ajeitar os botões m*l fechados do jaleco. — Senhor... doutor... oi! — tentou novamente, rindo de nervoso. — Eu sou a Livy. Almeida. Me mandaram pra cá. Ele a encarou, sério. Cada palavra dela parecia bater contra sua paciência como um alarme desregulado. — Enfermeira Livy. Pontualidade é essencial neste setor. Organização, silêncio e concentração também. Ela piscou. — Tá... certo, tudo bem. Só pra constar: eu sou excelente no caos. Mas consigo fingir ser centrada. Às vezes. Silêncio. — Vai funcionar! — ela tentou outra vez, erguendo a mão como se prestasse juramento. — Palavra de enfermeira com histórico de tropeços, mas coração de ouro. Min-jae fechou a pasta devagar e se levantou. — O setor de trauma exige precisão. Disciplina. Frieza. Aqui não há espaço para amadorismo ou... performances. — Uau... foi uma indireta? — Não. Foi uma observação direta. Ela cruzou os braços, levantando uma sobrancelha ruiva. — Então tá. A gente começou bem, hein? — Não se preocupe. Não vim fazer amizades. Vim salvar vidas. Ela sorriu, sarcástica. — Eu também, sabia? Não sou só um redemoinho de risadas e tropeços. Sou boa no que faço. — Veremos. — Veremos sim, doutor gelo coreano. Os olhos dele estreitaram-se. Ela percebeu o apelido escapando e cobriu a boca, alarmada. — Desculpa! Escorregou. Foi sem querer. Juro que não foi falta de respeito... só excesso de sinceridade. E nervoso. Min-jae se virou, caminhando até a porta sem dizer mais uma palavra. Mas antes de abrir a porta lançou-lhe um último olhar. Aquele olhar. Gélido. Imóvel. Intenso. — Bem-vinda ao setor de trauma, enfermeira Livy. Ela em silêncio saiu e ficou ali, parada, olhando para a porta fechada. — É. Começou o reality show, e eu nem passei da primeira prova... Mas em algum lugar dentro de si, ela sentiu: aquilo não era apenas trabalho. Era pressão, faísca, perigo. Era ele. E Min-jae? Ao fechar a porta, resmungou algo em coreano, baixo. — Geunyeoneun hwaldong-i manhada... (Essa mulher é demais...) Mas o canto da boca tremeu. Quase... quase sorriu. Quase . A maçaneta girou novamente. Livy, ainda parada no meio do corredor, levou um susto quando a porta se abriu com firmeza e ele apareceu ali, como uma sombra elegante e implacável. O olhar dele era rígido, duro, sem humor. A voz, fria como um bisturi. — Enfermeira... providencie um jaleco novo. Uma doida por aí derramou café no meu. — Fez uma breve pausa, e então arqueou uma sobrancelha com sarcasmo. — Será que você a conhece? O tom não pedia resposta. Era uma sentença. Livy travou. O rubor subiu em ondas até as orelhas. O olhar dele era tão intenso que ela sentiu que estava de novo no saguão, encharcada de vergonha, como se tudo tivesse acontecido há segundos. Ela mordeu o lábio, sem ter o que responder. Apenas fez um aceno tímido e escapou pela lateral do corredor como se estivesse fugindo de um interrogatório policial. Ele não sorriu. Mas, ao fechar a porta pela segunda vez, permitiu-se um único pensamento: — Definitivamente... ela é um problema. E, no fundo, uma parte dele... gostava disso
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